O apartamento na rua das Laranjeiras, no bairro de mesmo nome, no Rio de Janeiro, tem um amplo espaço, dividido em duas salas. Em uma delas, uma grande biblioteca ocupa toda a parede, tendo por companhia mesa, um abajur aceso, muitos livros nas prateleiras e documentos empilhados. Na outra área, as paredes estão cobertas por obras de arte, que passeiam por estilos diversos. Ali, também, grandes sofás e várias cadeiras e poltronas revelam – ou deixam imaginar – que, por aquele ambiente, circularam e circulam muitas pessoas, ideias, conhecimento: é um local acolhedor e aparentemente preparado para sediar longos encontros. Em diversas mesas e prateleiras, várias esculturas. De variados tamanhos e arrumadas e expostas com visível cuidado, têm temática africana – ou remetendo à África e suas personagens e tradições. 

Foto | André Gonçalves

Quando chegamos para a entrevista, Alberto da Costa e Silva já nos aguardava. Sentado em um dos sofás, tinha uma pintura quase abstrata com uma figura de Cristo a quase abençoá-lo por trás. Silencioso, com postura ereta e elegante, ao mesmo tempo com aparência frágil e firme, era o senhor de seus domínios.  

Após as apresentações de praxe e o pedido dele por alguns minutos de espera antes de iniciarmos a entrevista, por ter amanhecido com algum desconforto físico, Alberto da Costa e Silva, recuperado, pediu que lêssemos em voz alta todas as perguntas, em sequência: queria saber quais eram para organizar o pensamento e ir respondendo em seguida. Assim o fizemos. A cada pergunta, ele: “a próxima”. Uma das perguntas fazia referência ao atual momento da diplomacia brasileira. Ao ouvi-la, antecipou a resposta: “um diplomata não comenta o trabalho de outros diplomatas”, pedindo que fosse excluída. Após ouvir todas as questões, determinou: “vamos lá, vou começar pela primeira”. E seguiu respondendo uma a uma e, aqui e ali, nos cobrando por algum esquecimento: “você pulou uma”. O desconforto passou e a voz, em alguns momentos baixa e entrecortada, se tornou firme. Alberto, bem humorado, disse: “vocês perguntaram sobre meu pai, e isso me fez ficar bem”.  

Alberto Vasconcellos da Costa e Silva é filho de Antônio Francisco da Costa e Silva e de Creusa Fontenelle de Vasconcellos da Costa e Silva. Seu pai, mais conhecido como Da Costa e Silva, é, para muitos, o grande poeta do Piauí, e inclusive autor da letra do hino piauiense.  

Alberto, o filho, também se tornou poeta, além de ensaísta, historiador, memorialista e diplomata. Recebeu em 2014, pelo conjunto de sua obra, o Prêmio Camões, um dos mais importantes prêmios literários em português e instituído pelos governos do Brasil e Portugal para laurear autores que contribuíram para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da nossa língua. Em julho de 2000 foi eleito para a cadeira de número 9 da Academia Brasileira de Letras, a qual presidiu nos anos de 2002 e 2003. Nascido em 1931 e formado pelo Instituto Rio Branco em 1957, foi diplomata em Lisboa, Caracas, Washington, Madri e Roma. Foi também embaixador na Nigéria, no Benim, em Portugal, na Colômbia e no Paraguai, e é acadêmico correspondente da Academia de Ciências de Lisboa. Costuma repetir que, ao se tornar diplomata, realizou um sonho que era do pai: “Mas ele era muito feio, e naquela época isso era importante e não conseguiu. Hoje isso não existe mais, senão ninguém seria diplomata”.  

Seus estudos o converteram em um dos mais importantes intelectuais brasileiros. É especialista na cultura e na história da África, com título de Doutor Honoris Causa em Letras pela Universidade Obafemi Awolowo (ex-Universidade de Ifé), da Nigéria (1986) e em História pela Universidade Federal Fluminense (2009) e pela Universidade Federal da Bahia (2012). Recebeu aproximadamente 40 condecorações no Brasil e em países como Portugal, Colômbia, Paraguai, Peru, Togo, Espanha, Itália, Egito, Costa do Marfim, entre outros. Tem mais de 35 obras publicadas, entre ensaios, poemas, antologias, livros sobre História e literatura infanto-juvenil, além de três livros onde escreve sobre suas memórias.  

Nesta entrevista, são flagrantes a influência e o carinho de Alberto da Costa e Silva pelo pai. Como revela ainda o documentário O Retorno do Filho, de Douglas Machado, que explora a relação afetiva e poética entre pai e filho, e também seus livros de memórias e o discurso de posse na ABL, no qual Alberto escreveu: “Ponho a mão nessa mão que a saudade deixou para sempre no meu ombro… Só isto quis e quero: cumprir esse vaticínio, ser o que o meu pai sonhou ser”. 

Perguntado como preferia ser chamado, se poeta, embaixador, comendador, respondeu: “Chamem-me como quiserem. Isso não importa”. 

Então, aí está nossa conversa com Alberto da Costa e Silva. O homem. O filho. O poeta, filho do poeta. 

Foto | André Gonçalves

***

Salgado Maranhão Dentre as tantas contribuições que as culturas africanas nos deram, quais nos caracterizam e sequer nos damos conta? 

Alberto DA COSTA E SILVA O africano não deu contribuições para o Brasil: o africano ajudou a formar o Brasil! (fala com ênfase) Não são apenas contribuições, não deixou aqui lembranças, ele realmente ajudou a criar o país. Esse país foi criado com o esforço de vários povos, decerto, mas com a presença muito forte das várias vertentes africanas. Não foi só um grupo africano que influenciou o Brasil, foram muitos, e com culturas completamente diferentes, mas que marcaram a nossa vida. Eu diria que a maneira de andar do brasileiro, a maneira de sentar, a maneira de conversar, as palavras que ele usa, o ritmo das frases, tudo lembra a África, mas não é igual à África. O Brasil não repete a África, o Brasil reinventa a África. Temos tendência a procurar a contribuição que a África deu à música brasileira; a África não deu, a África foi um dos componentes da música brasileira. A música popular tem uma raiz africana, não tem raiz portuguesa. Não tem raiz no século 19 francês. Entre a África e o Brasil tem uma permanente troca, de maneira de viver, de maneira de sentir, pensar e atuar, de falar, dizer, criar. É muito mais profundo do que, simplesmente, contribuir. 

André E o que podemos ver de mais evidente nessa construção? 

ACS Há pontos semelhantes, idênticos, nos quais se pode rastrear a presença negra. Por exemplo, veja a parte religiosa. Há uma tendência por parte de muitos historiadores de considerar que religiões de vertentes africanas são todas ligadas à veneração dos orixás. Mas os orixás só existem, na África, em uma região muito pequena, que é no sul, sudoeste da Nigéria, e no sudeste da República do Benim. Só nesse pedaço, nesse pedacinho, é que se conhece os orixás. O que aconteceu? Quando vieram para o Brasil, sobretudo, no fim do século 18 e início do século 19, eram povos africanos acostumados a grandes cidades, urbanos, puderam manter seus cultos quase como eram na África. Digo “quase como eram” porque, na África, Oxum era a deusa de determinado rio, mas esse rio o escravizado não traz com ele para o Brasil. Chega ao Brasil e não traz mais Oxum no rio, mas na alma. De certa maneira ele altera o que trouxe com ele. O que era dele continua aqui, mas em outro plano. Você tem coisas curiosíssimas. Você tem Iemanjá, que é uma ameríndia, e que aparece em muitas imagens no Brasil como branca, e até loira! São processos de enriquecimento único que são formadores, e são formadores porque também aí entra o papel dos artistas, dos intelectuais. Por que você quando fala em religiões de matriz africana lembra imediatamente de orixás, dos iorubás? Porque houve um sujeito chamado Jorge Amado, outro chamado Caribé, Dorival Caymmi, outro chamado Pierre Verger, e vai por aí. Essas pessoas fizeram, dos orixás, deuses, divindades nacionais. Deram a eles o prestígio que tinham os deuses gregos. É a soma de tudo isso que faz quase impossível você distinguir o que vem da África, o que vem de Portugal, o que vem da Itália, o que vem da Alemanha, o que pertence ao índio. Por exemplo: o Curupira. O que é o Curupira? É um anãozinho cabeludo, que tem os pés voltados para trás para iludir os caçadores, para impedir que os caçadores destruam os animais da floresta. Eu, quando era menino, soube que isso era uma lenda tupi, até que, quando comecei a estudar a África, descobri que os anõezinhos cabeludos com os pés para trás para enganar os caçadores e que falam por assovio tinham vários nomes e diferentes formas. Existem também na África. Então lhe pergunto: o que é africano nesse personagem brasileiro e o que é ameríndio, e o que é ameríndio e africano em outras coisas mais? O que mais me chamou atenção quando cheguei pela primeira vez na África, além das roupas, a beleza das roupas, foi a maneira como as pessoas andavam e se sentavam. Era inteiramente diferente na África ocidental do que havia visto em Portugal. Eu estava morando em Portugal, nessa época. 

Samária O senhor foi um dos primeiros intelectuais brancos a estudar sobre a negritude… 

ACS Não sou, não sou… Muitos antes de mim já estudavam, não vou citar nomes porque vou esquecer algum… 

Samária E o que seus estudos traziam de novo em relação aos que eram desenvolvidos até então?

ACS A única novidade que eu trouxe para os estudos foi que dediquei a minha atenção para a África. Em geral se estudava, se preocupava com o africano no Brasil. Eu achei que precisávamos estudar o africano na África, estudar a história da África. Os costumes africanos, as lendas africanas, para entendermos o Brasil. Não que o Brasil seja igual à África, nem parecido, o Brasil é diferente das várias Áfricas, são vários Brasis. Os descendentes de africanos deram grande contribuição aos estudos. Teodoro Sampaio, por exemplo, que era negro, escreveu sobre a contribuição do tupi na geografia nacional. Vários deles se dedicaram aos estudos dos indígenas, da antropologia urbana. Então era isso que realmente me interessava: os africanos na África. Quando descobri a África, aos 16, 17 anos, me interessei pela sua história porque achava que ela ajudava a conhecer a história do Brasil. Comecei a estudar Zumbi dos Palmares, sobretudo, para entender de onde veio aquela organização social, de onde é que vieram aquelas paliçadas, porque elas eram diferentes das paliçadas indígenas. Posteriormente me interessei pelo estudo da África pela África, não apenas pelo que havia de África no Brasil. Mas pela África em si, pela África que estava lá, pela África que foi, pela África que é. Para ter também orgulho das raízes do outro lado do oceano. Se nós temos orgulho de nossa herança grega também temos de ter orgulho de nossa herança cabinda, mandinga, iorubá, fon, fanti, alufá e vai por aí, diferentes culturas que ajudaram a formar o Brasil. Interessei-me pela África pelo que eles nos deram, uma história artística extraordinária, que não era estudada nas escolas, o que poderia aumentar a autoestima dos brasileiros. 

As pessoas leem mal o Castro Alves. O navio negreiro a que ele se refere é o Brasil! 

Wellington O senhor tem um ensaio sobre Castro Alves, o poeta baiano conhecido como “o poeta dos escravos”. Esse título é um título merecido? O perfil do negro nos poemas de Castro Alves é realista? 

ACS Não, não é realista, mas ele merece o título. Castro Alves foi vital na luta pela abolição, foi um personagem importantíssimo. Ele fez poesia social da maior qualidade. Ele não recolheu as paisagens africanas da boca dos escravizados, ele foi buscá-las no orientalismo francês, europeu. Então os escravos falam das palmeiras do deserto, poucos escravos vieram do deserto. A maioria veio das savanas ou das florestas. Então ele estava, por assim dizer, contaminado pela estética de seu tempo, mas isso não faz com que deixe de ser um grande poeta, um escritor de paisagens extraordinárias, e que não tenha sido também o grande poeta da abolição. Algumas pessoas dizem que quando ele escreveu O Navio Negreiro já não havia navios negreiros operando. As pessoas leem mal o Castro Alves. O navio negreiro a que ele se refere é o Brasil! (fala com ênfase). O Brasil era o navio negreiro! O impacto que esse poema teve sobre a vida brasileira foi enorme. Também é um pouco difícil nós fazermos ideia de quem era aquele rapaz que morreu aos 24 anos, moreno, com cabelo ondulado, bonito, todos diziam que era um rapaz bonito, com a voz maravilhosa, com um sentimento de palco que poucos atores tiveram. Devia ser uma emoção extraordinária o que ele provocava. 

André Antônio Carlos Secchin disse que o senhor é um escritor que estuda História. Que relação o senhor poderia fazer entre a escrita literária e a escrita do historiador? 

ACS Secchin está certo. Não sou um historiador: sou um poeta que escreve sobre História. Sobre a História da África, sobre a História das relações entre a África e o Brasil. Eu escrevo sobre História naquela concepção antiga, como escrevia Capistrano de Abreu. A História, para mim, sempre esteve ligada à arte literária. Os grandes historiadores são grandes escritores. Se você não for um bom escritor o seu livro de História não fica, a não ser para citações eruditas de pé de página. O historiador tem que escrever com paixão, com imaginação e com entrega. Escrevi um livro sobre Castro Alves e escrevi outra biografia, sobre Francisco Félix de Souza, o Chachá, que foi o maior negreiro de seu tempo. É fácil escrever sobre Castro Alves, mas é difícil escrever sobre Chachá. Para escrever sobre Chachá você precisa ter até certa simpatia pelo traficante de escravos. Você não tem adesão a ele, mas você tem de olhar, pelo menos, com um olhar caridoso, porque ele foi um grande homem de seu tempo. Para Chachá era perfeitamente natural escravizar um semelhante. Porque, veja bem, até o fim do século 18, início do século 19, a maioria das pessoas e dos homens públicos defendeu em certa medida a escravidão. No mundo todo muita gente defendeu a escravidão. Os iluministas, em geral, achavam a escravidão um mal necessário. E argumentavam que se Sófocles não tivesse escravos não teria escrito suas tragédias, para escrever a Eneida Virgílio precisava ter escravos. Mas a vinculação da História com a literatura é muito forte. Há determinados textos literários que são parte da história. As páginas que Marcel Proust dedica ao affair Dreyfus valem tanto quanto as que Zola escreveu. Na prática do historiador não deve haver falsidade, mas deve haver imaginação. A partir dos dados que lhe são fornecidos ele precisa imaginar um pouco qual é a atmosfera do tempo que ele está tentando ressaltar. Minha paixão pela África, que não deixou de ter o amparo da influência do Brasil, deriva do fato de que era, e é, ainda, uma história em que há muito lugar para a imaginação, porque, a partir dos objetos, da arqueologia, da história tradicional, das lendas, dos poemas locais, das músicas, você vai tentando compreender como eram essas pessoas. Em última análise, o que me interessa na História é me reencontrar com aquele homem que existiu antes de mim que eu não conheci, e que, provavelmente, não teria conhecido se tivesse vivido na mesma época dele. Reconhecê-lo e procurar refazê-lo, pô-lo diante de mim, reconstruí-lo, senti-lo como pessoa humana. Ver o que é que, dele, está em mim, ou o que é meu que está nele. É contemplar o passado, o homem que se foi e não está mais aqui. Nesse sentido é que eu diria que a História é sempre uma história de homens, e não de fatos. Não é o enredo o que mais me interessa: o que mais me interessa é a personalidade das personagens. 

Salgado Considerando suas enormes atividades como pesquisador, que tempo você dedica à sua poética? 

ACS O Ferreira Gullar me disse uma vez que, depois dos sessenta anos, ele só se repetiu. O que não era verdade. Mas ele sentia que não tinha mais, como ele me disse, o vigor da surpresa, que isso tinha passado. Que ele conseguia escrever prosa muito bem e que só conseguia escrever versos que lembravam outros versos dele. Veja o caso do Carlos Drummond de Andrade: os últimos livros de poemas dele têm lembranças do poeta que ele foi. Quer dizer que ele se tornou um mau poeta? Não, mas não tem mais a grandeza que se espera dele. Eu sempre escrevi poucos poemas. Três, quatro por ano. E às vezes destruía a metade, sempre fui muito exigente comigo mesmo. Não quer dizer com isso que eu melhorei minha produção, devo continuar a ser ruim como era antes. Mas o fato é que fui diminuindo, aos sessenta já escrevia menos, aos setenta escrevia um poema por ano, e agora não escrevo nenhum, só escrevo prosa. Agora, curiosamente, o poeta não se divorcia da prosa. Porque em meus dois livros de memórias, O Espelho do Príncipe e Invenção do Desenho, todos os críticos e leitores destacam a linguagem poética com que eles são escritos. De maneira que acho que o poeta continua lá dentro. 

O (Guimarães) Rosa era um personagem muito interessante. Era muito ele próprio, sem disfarce, sendo todo ele disfarce, a começar pela gravatinha borboleta. 

Wellington O senhor tem um ensaio também sobre Guimarães Rosa, em que o chama de poeta, quando a obra dele é mais em prosa. 

ACS Mas ele se considerava um poeta. Tanto é que no livro Corpo de Baile, aquele livro de novelas, são poemas, poemas em prosa. Os poemas do Rosa, naquele livro dele, Magma, são muito ruins. Ele não o queria publicado, a família publicou depois que ele morreu. Ele não queria. Agora, Campo Geral, a história de Miguilim, é um texto mais fino, mais generoso, mais sofrido. É uma maravilha de texto! Tenho para mim que é a coisa mais importante que o Rosa escreveu. E ele sabia disso, porque em uma carta ele me disse: “Alberto, o Miguilim é o que eu tenho de mais meu”. A linguagem do Rosa era a linguagem da poesia. E esse ensaiozinho meu sobre o Guimarães Rosa poeta tem o seu interesse, porque nele descrevo como foi a posse do Rosa na Academia Brasileira de Letras. Durante três anos ele não foi tomar posse, porque achava que, quem tomava posse, morria. E foi o que realmente aconteceu. Três dias antes de tomar posse ele me telefona na Secretaria Geral do Itamaraty e diz: “Alberto, você está muito ocupado? Então venha aqui à minha sala”. Eu fui à sala dele, ele fechou a porta para não ser interrompido e pôs um bloco na minha mão, e um lápis. E disse: “Eu vou ler o meu discurso, o que vou fazer na Academia, que é a coisa mais importante, a última coisa importante que vou fazer na vida. Você, por favor, tome nota de todos os erros, pausas de respiração, o que tiver, mas não me interrompa para que eu possa ir até o fim, e me faça as observações depois”. E começou a ler o discurso: estava perfeito. Dois dias depois fui à posse dele. Ele repetiu o discurso como tinha lido para mim, ele sabia o discurso de cor, mas fingia que lia (risos). Essa é uma visão de poeta, não é verdade? Telefonei para ele na véspera da morte perguntando se poderia vir ao Itamaraty para dizer umas palavras no hasteamento da bandeira, cerimônia que se faz todos os anos no Dia da Bandeira. Ele me disse: “Peça desculpas aos nossos colegas, mas não vou porque estou muito gripado”. Morreu naquele dia. Morreu falando ao telefone com a secretária dele: “Estou morrendo, estou morrendo”, e ela “Rosa, desligue o telefone para eu chamar o médico”. E ele respondeu: “Você está esquecendo que eu sou médico!” (risos). O Rosa era um personagem muito interessante. Era muito ele próprio, sem disfarce, sendo todo ele disfarce, a começar pela gravatinha borboleta. 

Salgado Apesar da enorme luta dos negros para ocupar espaços de excelência na sociedade brasileira, você é esperançoso para um futuro próximo? 

ACS Eu sou esperançoso e confiante. Embora reconheça que os avanços conquistados foram insuficientes. Que é preciso realmente que os descendentes de africanos, mais caracteristicamente os descendentes de africanos, cheguem a todos os patamares da sociedade brasileira. Não vale só lembrar que Juliano Moreira era negro, que Teodoro Sampaio era negro, que Nilo Peçanha era negro… 

Wellington Machado de Assis era negro… 

ACS Machado de Assis hoje é considerado negro, na época dele não consideravam… Que Lima Barreto era negro, Antenor Nascentes, todos eles mestres nas suas áreas, não há melhor geógrafo que Teodoro Sampaio, e numerosos outros. Têm aqueles que hoje consideramos negros mas eram considerados, na época deles, mulatos, como Machado de Assis, Nelson Carneiro, que foi senador pelo Rio de Janeiro e ninguém se lembra que era descendente de africanos; mas ele se lembrava, tinha isso presente o tempo todo, porque o irmão dele, Edison Carneiro, grande antropólogo, era estudioso dos negros da Bahia. Não basta que esses tenham atingido o reconhecimento de seu tempo, porque essas foram pessoas excepcionais, grandes homens, gênios, personalidades sem competidores. É preciso, sobretudo, que nem todas as pessoas precisem ser gênios excepcionais para serem notadas em seu tempo e exercerem funções importantes na vida coletiva. À medida em que os negros não são incorporados na plenitude dos seus valores nós deixamos de ficar mais ricos, nos empobrecemos. E veja bem: quando você anda pelas ruas do Rio de Janeiro, ou de várias outras cidades brasileiras, você vê que essa presença, de descendentes de africanos, é marcante. Mas não é sentida como tal, é como se eles passassem invisíveis nas ruas. Acho que os descendentes de africanos já estão no movimento para ocupar esses espaços, que são deles. Mas ainda falta muito. Nós não somos uma democracia racial, nem nunca fomos. Isso foi invenção do Estado Novo. Mas nós aspiramos a ser uma democracia racial. O brasileiro aspira a ser parte de uma sociedade sem discriminação por cor, origem ou qualquer outro fator. Nós aspiramos, mas não somos. Por enquanto nós somos um povo que, pode-se dizer, em que nos divertimos juntos, mas trabalhamos separados. Se você vai a uma torcida de futebol não vai saber quem é branco, quem é preto, se é mulato, você não discrimina. No carnaval também. No geral as pessoas discriminam sem ter a consciência de que estão discriminando. Discriminam em gestos simples. Por exemplo, ao entrar em um hotel, se você é atendido por um funcionário negro pensa que ele é um subalterno, que ele é carregador, não que ele é o atendente do hotel. Ou se estranha que, em determinado ambiente, haja pessoas, digamos, coreanas, descendentes de africanos. Muitas vezes há o sentimento de estranheza. Você corrige, mas já teve o sentimento. Você precisa estar em um estado de correção permanente para corrigir seus desvios de discriminação. O brasileiro não quer ser racista, mas é racista. Mas é, e por quê? Porque, desde criança, ele foi ensinado. 

Não vamos esconder a escravidão: é preciso lembrá-la sempre como uma chaga terrível, a mais infame das maneiras de se subjugar e conservar trabalho. O trabalho dos outros!

Wellington “Escravidão, e não corrupção, define a sociedade brasileira”, diz Jessé Souza. O senhor concorda com isso? 

ACS Culpa-se a escravidão por tudo, mas ela já acabou há muitos anos. Somos nós os responsáveis pelas injustiças no país. Nossos antepassados foram responsáveis pelas injustiças no país na época deles! Não adianta ficar culpando nossos antepassados sempre. A culpa é nossa. A minha geração, por exemplo, perdeu grandes oportunidades de mudanças sociais. Nós não aproveitamos. Eu tenho a impressão que, antes de mais nada, é preciso mudar a maneira de ensinar o Brasil às crianças. Que desde a escola as crianças aprendem a estimar os colegas ditos “de cor” e a ter orgulho de sua história, da história de seus antepassados. Não vamos esconder a escravidão: é preciso lembrá-la sempre como uma chaga terrível, a mais infame das maneiras de se subjugar e conservar trabalho. O trabalho dos outros! Devemos, acima de tudo, ensinar às crianças o quanto elas devem ao escravizado, o quanto elas devem a quem ensinou a fazer determinadas comidas, a quem ensinou a batear ouro nos rios, a quem primeiro produziu ferro no Brasil. É preciso que se veja o negro não só como alguém que sofre, mas alguém que sofre e constrói, que é criador, que é inventivo, é inteligente, e foi um agente de mudança essencial nesse país. 

Wellington Uma cena que guardo na memória é do senhor, no relançamento do livro Zodíaco, em Teresina, recitando de cor e bastante emocionado poemas de seu pai. De que modo Da Costa e Silva e obra marcam a sua vida? (a pergunta se refere a um dos relançamentos do livro de Da Costa e Silva; Zodíaco foi publicado pela primeira vez em 1917).

ACS Meu pai foi a coisa mais marcante da minha vida. Deu toda a orientação da minha vida. Na minha vida fiz aquilo que ele gostaria de ter feito, se tivesse podido. Ele, por exemplo, queria ser diplomata, e não foi. Eu fui! Ele não conseguiu se candidatar à Academia Brasileira de Letras, eu me candidatei. Toda a minha vida foi uma perseguição de repetir o meu pai. Repetir não, repetir não é a palavra. Fazer aquelas coisas que ele teria gostado de fazer e não fez. Meu pai foi uma presença constante na minha vida desde menino. Ficou doente aos 45 anos de idade. Porque era um homem doente, tinha todo o tempo para o menino que eu fui. E ele passava horas conversando comigo, lendo poemas em inglês, em francês, em italiano, em português. Desenhando, ele desenhava muito bem, tinha um traço muito bonito. Ele fazia os desenhos que eu pedia que fizesse. Quando passeava comigo pelas ruas de Fortaleza ia me dizendo os nomes dos passarinhos que cantavam, os nomes das plantas, ele sabia tudo. Para o menino que eu era, ele era o senhor da palavra, o senhor da vida! Uma pessoa que marcou toda a minha existência. Quando ele se foi, quando ele morreu, foi um baque, que me deixou desarvorado, sem saber o que fazer, uma casca vazia. Não tinha nada dentro de mim. O que mais existia dentro de mim era a lembrança de meu pai. É muito difícil explicar uma relação tão especial. Ele me ensinou algumas das coisas mais importantes que consegui aprender. Com uma enorme paciência, ele tinha horror a quem maltratava uma criança. Ele sabia, como poucos, o valor das palavras. Os últimos 15 anos, 20 anos de vida ele passou sentado em uma cadeira de braço, com um livro aberto, lendo, ou fingindo que lia. E foi pela voz dele que ouvi Mallarmé perguntar se era um sonho o que ele amou, “estas ninfas eu quero perpetuar”. Foi pela voz dele que ouvi Whitman pela primeira vez. Foi um professor de belezas. A presença dele é a coisa mais profunda que há na minha poesia. No primeiro volume de meu livro de memórias, Espelho do Príncipe, você vai encontrar toda essa presença marcante dele em momentos importantes da minha vida de menino e de adolescente. 

Quando meu pai se foi, quando ele morreu, foi um baque, que me deixou desarvorado, uma casca vazia. Não tinha nada dentro de mim. O que mais existia dentro de mim era a lembrança de meu pai.

Wellington O Piauí tem dado ao longo desses anos e governos o reconhecimento merecido ao poeta Da Costa e Silva? 

ACS Recentemente um colega meu de Academia foi ao Piauí e, quando voltou, me disse: “Fiquei estarrecido com o carinho com que seu pai é lembrado no Piauí. Não havia pessoa que não perguntasse por você, por causa dele”. E eu acho que o povo piauiense tem dado todo o carinho ao seu poeta. Porque Da Costa e Silva foi o poeta do Piauí, toda a poesia dele ressoa Piauí. Da última vez que fui a Teresina fiquei um pouco perplexo com o abandono da praça-monumento Da Costa e Silva. Aquela era uma praça-monumento que era um exemplo para outras cidades de como cultuar o poeta pelos seus versos. Lembro que, quando foi inaugurada, ela não tinha o busto do poeta: ela tinha os versos do poeta. E nem isso sei se está preservado atualmente, e em que condições está. Eu não vou ao Piauí já há uns cinco ou seis anos, mas da última vez que fui me deu tristeza ver a praça semiabandonada. 

Wellington A notícia boa é que em Amarante há um espaço dedicado a Da Costa e Silva (Amarante é a cidade natal de Da Costa e Silva). 

ACS Esse eu vi. Da última vez que fui ao Piauí já vi a casa, e até fui chamado para ver a sala dedicada a meu pai. É difícil fazer um museu sobre Da Costa e Silva porque Da Costa e Silva não guardava nada. Não guardava papéis, não guardava provas de livros, não guardava coisa nenhuma. Meia dúzia, uma dúzia de fotografias era o espólio da lembrança dele. Mas ele lembrava sempre do Piauí. Lembro de uma vez, quando eu era menino, em Fortaleza, que um grupo de rapazes do Piauí foi visitar meu pai. Quando minha mãe os anunciou, meu pai: “rapazes de minha terra!”, e correu para abraçá-los. Embora estivesse em um processo de depressão enorme, que o vitimou, ele entregou a esses rapazes do Piauí o melhor de sua ternura, o melhor de suas lembranças e o melhor de seu bem querer. 

André E Amarante está presente na obra de Da Costa e Silva com carinho… 

ACS Na primeira vez que fui a Amarante, faz muitos anos, faz décadas, fiquei realmente deslumbrado com a beleza da parte antiga da cidade. Se fez muito claro em mim porque o poeta fez aqueles versos “A minha terra é um céu, se há um céu sobre a terra; É um céu sobre outro céu, tão límpido e tão brando”, porque é exatamente isso. Aquele casario, aquela rua de casas antigas, é realmente um esplendor. Quando veio aqui o Douglas Machado, apresentar o filme O Retorno do Filho, as pessoas que assistiram à sessão, eram cerca de trezentas, disseram: “Amarante é bonita mas não está nos guias turísticos, é tão bonita quanto as cidades antigas de Minas Gerais”. E felizmente foi preservada e está viva, porque não foi preservada com coisas mortas, continua viva. E a presença do poeta está ali, permanente. Nesta casa, quem está ali, além de um poeta, é o meu pai. 

Eu não quero ser lembrado como nada. Talvez que houve o filho de um poeta piauiense que também escreveu. E que está cansado de esperar por um Brasil que não chega. 

Samária O senhor foi diplomata, embaixador, viveu em vários lugares diferentes, no Brasil e mundo afora. Como o senhor se relaciona com o Piauí? 

ACS Eu me considero piauiense de coração. Eu nasci em São Paulo, fui gerado no Rio Grande do Sul. Vivi muitos anos de minha vida em Fortaleza, depois no Rio de Janeiro. Depois fui por esse mundo de Deus, em Portugal, na Venezuela, nos Estados Unidos, na Itália, na Espanha, na Nigéria, no Benim, em Portugal novamente, na Colômbia, no Paraguai. Em todos esses momentos eu me senti piauiense. Todas as vezes que fui ao Piauí senti uma espécie de perfume no ar. Isso a gente traz no sangue. A gente sabe que é dali, que ali é a fonte de tudo. 

Wellington O senhor quer ser lembrado como embaixador, como poeta, ensaísta, africanista… 

ACS Eu não quero ser lembrado como nada. Talvez eu seja lembrado pelos meus livros, como um velhote simpático que conversava sobre assuntos a respeito dos quais ninguém mais conversa. Como um avô que conversa sobre as cantatas de Bach com os netos. Aquele velhote exótico, estranho, que tinha umas manias curiosas, se interessava por arte, se interessava por história, se interessava por mitologia, que se interessava, sobretudo, pelo bom uso das palavras. O uso preciso e claro das palavras. Mas se alguém um dia quiser lembrar, lembrar que houve o filho de um poeta piauiense que também escreveu, que esse filho do poeta piauiense foi também poeta. O melhor que pôde foi ser poeta. Porque foi o destino que lhe deu seu pai, quando ele nasceu. E que está cansado de esperar por um Brasil que não chega. 

Wellington Muito obrigado pela entrevista, poeta. 

ACS Serviu? 

Esta entrevista faz parte da Revestrés#45, que pode ser baixada ou lida gratuitamente CLIQUE BAIXE O PDF (link para pdf) OU LEIA ONLINE (link issuu).

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