PARTICIPARAM DESTA ENTREVISTA: André Gonçalves, Maurício Pokemon, Samária Andrade, Wellington Soares. Convidado: Rubervam du Nascimento (escritor). TEXTO E EDIÇÃO:  Samária Andrade. FOTOS: Maurício Pokemon.

*Frase do texto “O ‘Crânio’”, de Luiz Ruffato, publicado em Eles eram muitos Cavalos (2001). O texto é narrado por um menino do tráfico e conta da admiração deste pelo irmão – o Crânio – obcecado por leitura. Eles eram muitos Cavalos é o primeiro romance de Luiz Ruffato e recebeu os prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e Machado de Assis, da Biblioteca Nacional. 

 

O jeito de mineiro fica numa certa fala mansa que ele emprega ao conversar. Mas não se engane: Luiz Ruffato nem muda o tom de voz para fazer críticas cortantes, em especial sobre a realidade brasileira. Nascido em Cataguases, cidade do interior de Minas Gerais com cerca de 75 mil habitantes, conta que é filho de mãe lavadeira analfabeta e pai pipoqueiro semianalfabeto – “o segundo pipoqueiro mais importante da cidade, pois ficava na praça da Igreja. O primeiro ficava na praça do cinema”- diz, para mais tarde avaliar: “A história de todo mundo dá um romance. A dificuldade é ‘como’ narrar essa história”. Queria falar de linguagem. Pergunto se o fato de contar que é filho de pipoqueiro faz parte do seu “romance”. Ele responde sem arrodeios: “Sinceramente, somente quem nunca passou dificuldades na vida pode achar que é charmoso dizer, no Brasil, que é filho de pipoqueiro e de lavadeira de roupas”. 

Ruffato, que herdou o sobrenome de origem italiana da descendência da mãe, ajudava o pai, por isso diz que seu primeiro emprego também foi de pipoqueiro. Um cliente achou o menino inteligente e conseguiu para ele uma vaga numa escola pública, a melhor da cidade. A experiência mudaria sua vida: buscando esconder-se da hostilidade dos meninos mais ricos, enfiava-se na biblioteca. Quando descobriu a leitura, foi a primeira vez que percebeu: existiam outras vidas que não aquelas que ele via.  

Trabalhou ainda como vendedor em armarinho, operário em fábrica de tecelagem (maior atividade econômica de Cataguases) e tornou-se torneiro mecânico após concluir um curso no Senai. Mudou-se para Juiz de Fora, onde cursou Jornalismo e passou a trabalhar escrevendo. Mais tarde, em São Paulo, esteve em alguns dos maiores jornais brasileiros, como O Estado de São Paulo. Ainda assim considera que o jornalismo foi um equívoco em sua vida, afirma-se “péssimo repórter” e diz que levou muito tempo tentando descobrir como saltar do jornalismo à vida de escritor. 

Foto: Maurício Pokemon

Hoje aos 57 anos, vive há 15 deles somente de literatura. “Mas não da venda de livros”, explica, “e sim com direitos autorais e palestras”. Conhece 26 países a trabalho e foi o escritor brasileiro escolhido como orador na Feira de Livros de Frankfurt, Alemanha, quando o Brasil era o país homenageado. Corria o ano de 2013 e ele aproveitou os holofotes para fazer um discurso contundente, chamando a atenção do mundo para as desigualdades brasileiras. O discurso dividiu opiniões (veja box). Houve inclusive quem achasse que, sendo assim, o escritor deveria ir embora do Brasil, num espírito “ame-o ou deixe-o”. Michel Temer, à época vice-presidente do Brasil, participava da cerimônia e, ofendido, não deu o ar da graça no jantar após o discurso, que homenageava os escritores brasileiros. 

Obstinado, ainda como estudante universitário Ruffato fez o próprio programa de estudos, decidido a “conhecer a literatura brasileira de cabo a rabo”. Leu quase tudo – se é possível falar assim – e continua atrás do que ainda não conhece. 

A mesma obstinação vai para sua própria escrita. Vive perseguindo a palavra mais exata para se exprimir. Recentemente levou quase um ano reescrevendo Inferno Provisório, transformando cinco volumes em um único. Para dar conta, só com muita disciplina. “O escritor é interessante de longe. De perto é um chato, difícil de conviver”, afirma. E passa o bizu do que garante seguir religiosamente quando não está em compromisso de viagem: acorda às 6 da manhã, lê as notícias e trabalha das 7h às 11h30. Faz o almoço para ele e a filha – moram apenas os dois num apartamento em São Paulo. À tarde cuida da parte logística: telefonemas, encontro com agente literário, bancos, etc. “É a minha profissão, é honesta e tenho muito orgulho de ganhar dinheiro com algo que sei fazer”.  

Além dos livros e palestras, Ruffato escreve mensalmente para a coluna que mantém no jornal El País. Alguns de seus livros são adaptados para teatro e cinema. O elogiado filme Redemoinho (José Luiz Villamarim, 2017), por exemplo, foi baseado em O Mundo Inimigo – Inferno Provisório Vol. II (também ganhador do Prêmio APCA). 

A crítica afiada do escritor não raro lhe rende perguntas sobre seu estado de ânimo. Quando a Folha de São Paulo quis saber se ele é otimista ou pessimista, afirmou que tenta “caminhar em outra seara, a da literatura realista”, que no seu entender não precisa ser otimista ou pessimista, mas deve tentar estabelecer uma reflexão sobre o real a partir do real. Inquirindo sobre Inferno Provisório, a Folha ainda quis saber se o Céu não entrava na saga do escritor. Obteve como resposta: “Se eu acreditasse nessas instâncias, talvez entrasse. Acho que talvez alguém tenha ficado com o Céu, mas o Inferno é nosso”. 

Foto: Maurício Pokemon

Para Revestrés, diz que é feliz. E justifica: mora em São Paulo, tem dois filhos maravilhosos (o filho mora em Portugal), é reconhecido pelo trabalho que faz e conseguiu tudo o que tem, trabalhando: “Como diz em Minas: não é muito, mas é meu”. Ainda completa que é um solteiro tranquilo: “Não tenho nem tinder!”- diz aos risos. “Tristes são os escritores franceses, você pergunta qualquer coisa e eles dizem: ‘dói’”.   

Mais de uma vez salienta que tudo o que responde são suas opiniões, não “a” verdade, portanto aceita contestações. E vai buscando respostas para o que tenta compreender. Formula algumas teorias de base mais complexa e dá a senha antes de expô-las: “É muito simples de entender”. 

Em Teresina pela primeira vez, Ruffato ministra palestra no Salipi – Salão do Livro do Piauí. Sua fala tem como tema “A literatura invisível” e aborda os personagens que ele gosta de retratar: os pobres, os da classe baixa – não os miseráveis nem os da classe média ou ricos, mas uma faixa que ele afirma conhecer e considera ausente na literatura brasileira e universal. 

Nosso encontro ocorre em um restaurante onde ele almoçava risoto de carne de sol. Estava com o escritor piauiense Rubervam du Nascimento que, atualmente vivendo em São Paulo, participa dessa entrevista e havia feito as vezes de guia turístico durante a manhã. Levou o escritor mineiro para o encontro dos rios e contou-lhe a lenda do Cabeça de Cuia que, segundo consta, vive assustando as pessoas nas águas do rio Parnaíba, desde que foi amaldiçoado pela mãe. Perguntamos se Ruffato viu o Cabeça de Cuia. Sua primeira resposta já vem com humor: “Ele deve ter se escondido: ‘lá vem o Rubervam de novo, trazendo outra pessoa’” (risos).  

Samária – Como um filho de pipoqueiro descobre a leitura? E comece me respondendo: essa pergunta é preconceituosa?

Luiz Ruffato – De forma alguma, ainda mais no Brasil, onde muitas pessoas não chegam até a leitura. Meu pai era pipoqueiro, semianalfabeto; minha mãe lavadeira, analfabeta e, evidentemente, na minha casa não tinha livros. Meu contato com a leitura vai se dar de maneira fortuita, quando fui estudar numa escola pública melhor de Cataguases, que tinha até biblioteca! Eu me sentia muito mal nessa escola, porque era o filho de gente pobre estudando no meio de gente rica. Aí comecei a procurar um local onde pudesse me isolar da hostilidade que faziam comigo, e passei a frequentar a biblioteca. Eu não tinha interesse em ler livro algum, mas a bibliotecária começou a me oferecer livros. Muito tímido, não tive coragem de recusar. Comecei a ler e a gostar. E descobri que a minha vida poderia ser mais interessante se eu continuasse lendo. Nesse momento, eu percebo como a minha cidade era pequena, a minha perspectiva de vida curta e meu futuro já estava encaminhado. Com a leitura entendi que podia fazer outra coisa da vida. Então, de filho de pipoqueiro, vou me tornando um leitor e, muito (estica a palavra) mais à frente vou tentar essa carreira de escritor.

A linguagem mediana é a morte da literatura! Para mim e para muitos escritores o jornalismo foi um grande equívoco. – Luiz Ruffato

Wellington – Você começou como leitor aos 12 anos e estreou na literatura aos 40, passando por várias profissões até chegar ao jornalismo, onde finalmente lidou com a escrita. Temos grandes escritores que passaram por redação de jornal. Você acha que esse caminho é indicado?

LR – Pra mim foi um enorme equívoco. Eu era um péssimo repórter! Péssimo, péssimo! (repete com ênfase). Fui fazer jornalismo achando que ia adquirir uma base qualquer da linguagem literária, mas jornalismo não tem nada a ver com literatura, e passei grande parte da minha vida tentando entender como podia sair do jornalismo para me dedicar a literatura. Não é culpa do jornalismo, é minha. Mesmo sendo péssimo repórter, fui bom editor, tanto que terminei minha vida em jornalismo como Secretário de Redação do Jornal O Estado de São Paulo, onde trabalhei treze anos. E as pessoas não achavam que eu era péssimo repórter, eu é que tenho certeza disso. Em treze anos de Estadão você não vai encontrar uma matéria assinada por mim, porque eu sempre trabalhei na “cozinha” do jornal. Isso me interessava. Ali aprendi a entender como se estrutura o texto, mas não tinha nada a ver com literatura. A linguagem do jornal deve ser mediana, tem que se fazer entender pelo máximo de pessoas e elas não podem ter dúvidas sobre o que leem. A literatura usa outros recursos, é absolutamente subjetiva, a linguagem mediana é a morte da literatura! Para mim e para muitos escritores o jornalismo foi um grande equívoco. Se você pegar a literatura brasileira da década de 70 –  extremamente importante do ponto de vista político, para tentar compreender o Brasil – e ler hoje, o que sobra de qualidade é pouca coisa, exatamente porque era feita dentro de redação de jornal, e isso impediu que o texto se transformasse em literatura. Essa é a minha opinião e não é “a” verdade.

Samária – Você já disse em entrevistas que dedicou um ano a reescrever Inferno Provisório, e que fez muitas mudanças com base no que sentia que precisava modificar no texto e também com base em críticas, muitas vezes de estudos de mestrado e doutorado, que passaram a analisar sua obra e terminaram indicando caminhos que você considerou importantes. Qual o valor da crítica para o escritor?

LR – É uma pena que a crítica tenha migrado dos jornais para a universidade. Ela ficou mais dura, no sentido de mais compartimentada. Mas, sem dúvida, mais científica. Por que a crítica me interessa? Ela não faz nenhuma diferença para o meu entendimento sobre o meu trabalho literário. Mas me ajuda a compreender como a crítica está lendo meus livros. A maior parte da crítica acadêmica é conteudística e isso não me interessa, porque são leituras, e nenhuma leitura é correta, ou todas são corretas. Mas as leituras que tentam discutir um pouco mais a questão formal da linguagem me interessam, porque trazem algumas iluminações. A minha grande pesquisa em termos literários é tentar encontrar a expressão mais próxima do quero exprimir. Por isso fiquei um ano reescrevendo Inferno Provisório. Eu acho que o grande trabalho da literatura não é procurar ser entendida, mas procurar se exprimir o mais próximo do que o texto está querendo dizer. Eu não reescrevo para facilitar a leitura. Meu compromisso não é com o leitor, é com a linguagem. A reescritura é um diálogo com o próprio texto. Para mim literatura é linguagem. Ponto.

Eu acho que a maior parte dos livros desanda porque não era aquela “a maneira” de escrever aquele livro. E o pior: se não era, aquele livro está morto” – Luiz Ruffato.

Rubervam – No livro Eles Eram Muitos Cavalos há, de fato, uma pesquisa de linguagem acentuada. Você chegou a falar que esse livro é um exercício e que, a partir dele, você conseguiu escrever as obras posteriores. Hoje esse livro está editado em 12 países. Como é essa experiência de exercitar uma linguagem sem ter como meta o leitor? (O livro reúne setenta textos, alternando estilos como poesia, uma prosa inventiva, discurso publicitário, listas aleatórias etc)

LR – O discurso literário é maravilhoso porque engloba todos os outros: sociológico, antropológico, psicanalítico; mas não é nenhum deles. Ele é próprio: é “o” discurso literário. E quando o discurso literário se torna político ou psicanalítico, não é mais literatura. Eu não acredito em literatura que se queira outra coisa que não literatura. Ela pode discutir gênero, etnia, tudo! Mas antes é literatura. Flaubert (Gustave Flaubert , escritor) dizia “só existe um modo de exprimir uma coisa, uma só palavra para dizê-la”. O grande problema é você encontrar essa palavra. Eu acho que a maior parte dos livros desanda porque não era aquela “a maneira” de escrever aquele livro. E o pior: se não era, aquele livro está morto, não existe possibilidade de recuperá-lo! Então a minha maior preocupação é com a primazia da linguagem. Eles Eram Muitos Cavalos significou a tentativa de compreender as várias possibilidades de narrar para que, compreendendo a dinâmica da linguagem, eu pudesse escolher a que iria trabalhar.

Wellington – É claro que a linguagem é importante, mas eu pergunto: e o drama humano, não é importante?

LR – Tem aquela história da pessoa que diz: “se eu contar a minha vida, dá um romance…”. Ora, a vida de todo mundo dá um romance. E é verdade. E por que não se transforma tudo em romance? Não é por causa do drama humano, é por causa da falta da linguagem. É a maneira de narrar, a forma de contar, é o “como”. O drama humano é fundamental, sem ele não existe literatura. Mas ele tem que estar conformado por uma linguagem. Por si só o drama humano não significa absolutamente nada – tô falando em termos literários, claro.

Wellington – Cacaso (poeta) disse que todo escritor é um ladrão. Ele se referia ao que normalmente se chama “influência”, pois o autor constrói uma obra que é também fruto de suas leituras. Sendo filho de um estado que gerou grandes escritoras e escritores, de quem você “rouba”?

LR – No Brasil todo mundo rouba e acho sacanagem falar isso em relação ao artista. Então não vou aceitar o termo. Mas entendo o que Cacaso estava falando. Eu penso na literatura como um grande rio e, quando você entra nesse rio no século XXI, está, de certa maneira, tomando um banho em águas já contaminadas. Tem coisas que você vai fazer inconscientemente e outras conscientemente. Em Eles Eram Muitos Cavalos faço várias brincadeiras conscientemente. Uma vez me disseram: esse livro é bom, mas não tem nenhum humor. Cara, o livro tá cheio de humor! Sabe onde uso humor? Nos títulos dos capítulos. Eu ficava horas rindo com esses títulos. Se você ler superficialmente pode falar: “Nossa! Histórias cruéis!”. Mas se você pensar no conjunto, tem um humor até evidente. Não gosto da palavra influência. A pessoa diz: “Guimarães Rosa me influenciou…”. Ora, quem sou eu pra ter sido influenciado por Guimarães Rosa? Eu gosto de pensar em um diálogo que estabeleço com autores que gosto. E o maior diálogo que tento estabelecer é com um autor que tenho paixão absoluta: Machado de Assis. Pra mim ele é não só “o” maior autor da língua portuguesa, mas um dos maiores da literatura universal! E eu acho uma pena que ele seja mal lido no Brasil e desconhecido no mundo. Geralmente as pessoas leem na escola, por obrigação, e nunca mais querem saber. Machado de Assis está publicado em uns 15 idiomas – o que é inacreditável – mas não é conhecido em nenhum deles! Eu falo porque conheço. Na Alemanha nunca se ouviu falar em Machado de Assis! (pausa). Tento estabelecer também diálogos com Balzac, que construiu sozinho uma obra impressionante! Ele escrevia de pé, as vezes dois, três livros ao mesmo tempo. Gênio, né? (fala com entusiasmo). Outro autor da mesma época de Machado de Assis, que discute as mesmas questões, mas não teve nenhuma relação com Machado, é Tchecov (Anton Pavlovitch Tchecov, russo). Se eu fosse ensaísta ia escrever sobre as coincidências das obras desses dois autores.

Samária – Tá lançada a ideia para um ensaísta.

LR – Que faça! (risos). E dou outra dica: a grande questão é que o Tchecov vai mais fundo, porque ele realmente conhecia profundamente os vários estamentos da sociedade. O Machado de Assis, embora conhecesse, não alarga muito o objeto de estudo. De qualquer maneira é incrível um paralelo entre os dois autores.

A literatura urbana brasileira tem muito bem representada a classe média alta, a média-média … e pula pra bandidos ou marginalizados. A classe média baixa, de pobres, não está registrada.” – Luiz Ruffato.

Rubervam – Uma questão que lhe inquieta na literatura brasileira é a ausência de personagens da classe média baixa. Como você chegou a esse ponto: vou falar desses personagens porque a literatura não está falando?

LR – Em geral, mesmo a literatura universal, não fala muito desses personagens. Olha aí outro tema pra ensaio, dissertação, tese: como a literatura admite a miséria, mas não a pobreza? A literatura urbana brasileira tem muito bem representada a classe média alta, a média-média … e pula pra bandidos ou marginalizados. Mas a classe média baixa, de trabalhadores, de pobres, não está registrada. Podemos citar Roniwalter Jatobá, que trabalhou como operário na indústria automobilística e escreveu sobre a vida do trabalhador, dedicando-se a discutir ou representar a classe média baixa. Fora isso, algum personagem dessa classe aparece vez ou outra como coadjuvante. E tenho uma explicação muito simples: a literatura é feita por gente de classe média e média alta, escrevendo sobre essas classes ou sobre a grande sombra que assusta a classe média: os marginais. O trabalhador não assusta ninguém, ele é invisível, sem glamour e difícil de romantizar, portanto não interessa. Então eu me propus: vou escrever sobre esses personagens. E eu os conheço bem. A decisão de representar a classe média baixa foi, anteriormente, uma decisão política, mas eu não faço discurso político na literatura. Ali o discurso é absolutamente literário.

Wellington – E falando em ausências, o escritor Mário Magalhães reclama a ausência do futebol – uma paixão nacional – na literatura brasileira. O futebol é usado como tema em crônicas, mas não como enredo de narrativas maiores. Por que isso acontece?

LR – Todos os meus livros têm futebol e eu adoro futebol. Sou flamenguista, claro! Vocês tão lembrando que na quinta começa a Copa do Mundo? (essa entrevista foi realizada no dia 08 de junho de 2018, uma sexta-feira. A Copa do Mundo da Rússia teve início dia 14 de junho). Eu estou indo a Atenas e, na quarta, vou falar sobre literatura, futebol e subdesenvolvimento. A minha tese é: hoje a literatura começa (estica a palavra) a escrever mais sobre futebol porque ele deixou de ser uma coisa popular, então agora interessa a classe média. Enquanto futebol foi algo de pobre, a literatura brasileira o desconheceu. Curioso, né? É mais do que não termos nenhum romance sobre futebol. Nós não temos nenhum romance em que alguém ao menos fale: “Você viu o jogo ontem?”. Não há uma descrição de uma casa com uma foto de time na parede. Se você pegar a literatura brasileira vai dizer: não existe futebol nesse país! De um lado os escritores tinham desprezo pelo tema, por ser uma coisa popular, e de outro, a esquerda brasileira também desprezou o futebol – o ópio do povo. Enfim, há uma conjunção de coisas que faz com que não aja essa representação.

O Brasil é um país de poucos leitores, de uma classe média medíocre, que não lê. Ninguém se importa com a literatura do Brasil porque ninguém se importa com o Brasil.” – Luiz Ruffato.

Wellington Ainda sobre ausências, se você pegar a lista dos autores mais vendidos no mundo hoje os escritores nacionais não aparecem. O que está acontecendo com a nossa literatura?

LR – O Brasil é um país de poucos leitores, de uma classe média medíocre, que não lê, viaja pra Miami e se contenta com isso. Na verdade, somos um país medíocre, fazemos uma arte medíocre, uma literatura medíocre, e agora um futebol também medíocre. Temos uma economia medíocre, uma política medíocre, tudo medíocre! (fala com ênfase). Eu acho uma pena porque nós tivemos várias oportunidades de sermos protagonistas no mundo. A última foi durante o governo Lula, independentemente de se gostar ou não do Lula, e não me interessa aqui defender ou atacar o Lula. Mas afirmar: aquela foi a última vez em que fomos protagonistas de alguma coisa, que era também uma mentira, porque no final não deu em nada. Então ninguém se importa com a literatura do Brasil porque ninguém se importa com o Brasil. Ninguém nem sabe que o Brasil existe!

Rubervam – Eu já acompanhei alguns festivais literários em que você participou e essa discussão surgiu com algumas contestações. Você manteve essa afirmativa: os autores brasileiros não estão sendo lidos no exterior.

LR – Sim, e acho uma bobagem as pessoas falarem: “ah, mas eu conheço uma pessoa lá no México que estuda literatura brasileira”. Sim, a literatura brasileira é tão importante que você conhece “uma” pessoa!? E dizem: “Paulo Coelho é lido no mundo todo”…  Ninguém nem sabe que Paulo Coelho é brasileiro! Ele é autor de best-seller, como John Green. De onde é John Green? (silêncio na mesa). Não precisa saber porque isso não tem a menor importância. Com Paulo Coelho é a mesma coisa. E ele nem escreve sobre o Brasil, então ninguém estabelece nenhuma relação. Não existe literatura brasileira no exterior e por uma razão muito simples: a literatura não existe autonomamente, ela faz parte de um pacote. Se você pega a lista de Prêmio Nobel de Literatura vê que até a Segunda Guerra Mundial havia, mais ou menos, um equilíbrio entre ganhadores franceses, alemães, de língua inglesa e da Escandinávia, que é de onde vem o prêmio. Depois da Segunda Guerra, quando os Estados Unidos ganham protagonismo, prevalecem os autores de língua inglesa. Foi por que a língua inglesa passou a ter escritores melhores? Não! Mas porque os Estados Unidos passaram a mandar no mundo! O país passou a ter uma importância econômica e política que faz com ele imponha um pacote ao mundo e, dentro desse pacote, vai também a literatura. O que o Brasil está oferecendo ao mundo? (um silêncio maior). Eu gosto de estatística porque não dá pra discutir muito, e a estatística mostra que a literatura brasileira é zero importância no mundo. Vou citar o exemplo da Feira de Frankfurt: em 2013, quando o Brasil era o país homenageado, foram publicados 180 títulos brasileiros na Alemanha. No ano seguinte, caímos pra 18 títulos. E no outro? 4. E hoje? 2 ou 3 por ano – voltamos ao modo como era antes de termos qualquer importância. O Brasil não tem leitor, não tem uma política institucional do livro, a nossa crítica acadêmica segue modelos da crítica americana. A gente tem que se olhar no espelho e ver quem somos pra saber quem vamos querer ser. Não adianta eu me olhar no espelho e ao invés de dizer: sou careca, barba por fazer… falar: sou o Johnny Depp.

Wellington – Na literatura colombiana temos Gabriel Garcia Marquez, ganhador do Nobel de literatura; na Argentina, temos Jorge Luís Borges – são países vizinhos. Em Portugal, temos Saramago, também vencedor do Nobel; Fernando Pessoa. Eu quero dizer que o Brasil e a língua portuguesa têm, sim, uma relevância econômica na América Latina e no mundo…

LR – A questão econômica é importante, mas sozinha não vale nada! O que interessa é aquilo que o pais é na geopolítica do mundo. Por isso eu falo em importância econômica e política. Porque a literatura de países de língua hispânica é muito mais importante que a brasileira? Muito simples: o espanhol é a segunda língua mais falada do mundo (perdendo apenas para o Chinês e ganhando do Inglês) e a Espanha tem uma política de divulgação da língua e da cultura espanhola inacreditável. Eu conheço 26 países e em todos eles encontro gente que fala bem o espanhol. Mais: a Espanha é o segundo país com maior turismo no mundo (82 milhões de turistas em 2017, ficando atrás apenas da França). Então é muita gente entrando em contato com a língua hispânica. No Brasil temos pouco mais de 6 milhões de turistas por ano. É insignificante! Outra coisa: Portugal tem uma política de Estado que favorece os escritores. O governo português financia a tradução do livro e, quando você publica, tem um agente que coloca esse livro numa editora de outro país. No Brasil temos um Estado que não dá a menor importância para a literatura, porque até hoje eles não percebem que você consegue fazer divisas com cultura, que a cultura é dinheiro. A Espanha já entendeu isso há muito tempo!

André – Com a discussão nesse ponto, temos que falar sobre seu discurso na Feira de Livros de Frankfurt, em 2013, que teve grande repercussão ao citar dados alarmantes sobre desigualdade e violência no Brasil. Como você vê a realidade social do Brasil hoje?

LR – De lá pra cá só piorou. A única mudança que eu faria naquele discurso é numa passagem onde digo que as coisas estão melhorando. Até hoje eu sofro represálias por causa desse discurso, mas não me arrependo de forma alguma.

Samária – Você considera que foi corajoso em ter feito aquele discurso? E o faria novamente?

LR – Não faria porque não seria convidado de novo (risos). Mas eu sempre acho estranho quando colocam o adjetivo “corajoso” para se referir a esse episódio. Coragem de que? De dizer o que somos? Tudo o que eu falei foi baseado em dados estatísticos. Penso que a única maneira de resolver um problema é aceitar que o temos, entender quem somos, para então estabelecer um programa para resolver esse problema. Muito me estranhou que aquele discurso gerasse tanta polêmica, inclusive de colegas escritores. Alguns famosos chegaram a dizer que eu deveria ir embora do país, ou falaram coisas como “isso é que dá deixar um filho de pipoqueiro e lavadeira falar em nome dos escritores brasileiros”. O Instituto Plínio Correia de Oliveira (organização civil de viés conservador, principal braço da Tradição, Família e Propriedade [TFP] no Brasil) fez um documento em alemão e inglês e o distribuiu em Frankfurt, dando um enorme cacete em mim. Muitos não me apoiaram. Algumas pessoas me disseram: “eu concordo com o que você falou, mas lá não era um local apropriado para falar isso”. E onde era? Numa feira agropecuária?

Wellington – Dizem que mineiro só é solidário no câncer, ideia eternizada pela peça de Nelson Rodrigues. Isso é verdade?

LR – Eu acho que depende do câncer (risos).

Wellington – Nelson Rodrigues atribui essa frase ao jornalista Otto Lara Resende, que sempre negou ter dito ou escrito algo nesse sentido.

LR – Essa maldade atribuída aos mineiros pode facilmente ser concedida a todos os brasileiros. Uma coisa que não somos é solidários. Podemos até ser em família, no nosso pequeno núcleo, mas não de modo coletivo. A própria violência no Brasil é tratada como questão individual, e não coletiva. Vou recontar uma história e se o personagem não for esse não tem importância, porque ela é genial: quando Gilberto Freyre morava nos Estados Unidos, vinha eventualmente visitar a família em Recife. Numa dessas viagens um colega pediu que ele levasse caranguejos. Os vôos Recife-Estados Unidos tinham escala no Rio de Janeiro. Quando chegou ao Rio, Gilberto tirou os caranguejos do isopor, encheu a banheira do quarto do hotel e jogou os caranguejos lá. Alguém soube e fez uma reclamação na portaria. O gerente bateu na porta: “Um hóspede reclamou que o senhor tem aí uns caranguejos na banheira”. “É verdade”. “Mas não pode. Já pensou se os caranguejos saem da banheira e invadem o hotel?”. Gilberto Freyre encerrou a conversa: “Meu filho, não se preocupe, são caranguejos pernambucanos. Quando o primeiro tentar sair da banheira, os outros puxam ele pra baixo”. Eu acho que essa história é a história do Brasil. Não é boa?

Wellington – Essa sua constatação contraria um entendimento do brasileiro como homem cordial? (O conceito “homem cordial” é apresentado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda no livro Raízes do Brasil. A cordialidade foi amplamente interpretada como virtude, gentileza, hospitalidade, embora o próprio autor se referisse a polidez como um disfarce que permite conservar as emoções próprias e manter o contato social).

LR – Houve um momento na história brasileira em que tivemos que criar um discurso oficial que desse conta de explicar para nós mesmos quem éramos. Essa interpretação de homem cordial é uma das maiores falácias. Assim como não há democracia racial porcaria nenhuma, brasileiro não é cordial. Eu não falo do conceito especificamente, claro, mas em como ele é ou foi entendido ou disseminado. E eu pergunto: como podemos ser cordiais num país que tem um dos maiores índices de violência do mundo? Onde matamos quase 60 mil pessoas por ano – o maior número de mortes violentas do mundo? Onde somos o campeão mundial em crimes de homofobia e temos a quinta maior taxa de feminicídio do mundo? Estamos também entre os mais violentos com crianças e adolescentes. Que raio de cordialidade é essa? (fala com ênfase). Esse discurso foi adotado para evitar encarar a nós mesmos, estamos sempre criando uma imagem para nós que não é verdadeira.

São Paulo talvez seja a única cidade do Brasil que quando você chega para trabalhar ninguém pergunta: de onde você é? De quem é filho? Eles só querem saber seu tipo sanguíneo, pra sugar até o fim. – Luiz Ruffato.

André – Há tanto tempo morando em São Paulo e sendo atento e crítico à realidade brasileira, como a mineira Cataguases surge, mesmo que de modo quase oculto, em sua literatura?

LR – Cataguases tem uma tradição artística forte desde o início do século XX, com o cinema de Humberto Mauro (Lábios sem Beijos, A Voz do Carnaval, Ganga Bruta), com a Revista Verde (periódico mensal de arte e cultura editado em Cataguases de setembro de 1927 a janeiro de 1928 e em maio de 1929), depois com o Totem, movimento de vanguarda na década de 60. Mas nada disso me influenciou em absolutamente nada. Porque eram coisas da cidade rica e eu era da cidade pobre. Eu nem sabia que isso acontecia, inclusive porque os equipamentos artísticos, mesmo quando públicos, não são de acesso para pessoas pobres. Eles existem para embelezar a cidade e para usufruto das pessoas ricas. Eu estava do lado da cidade que se preocupava em sobreviver. Então eu acho que essa tradição artística não teve nenhuma influência na minha vida. Digo “eu acho” porque, de repente, até inconscientemente, isso pode ter me influenciado. Eu só vim tomar conhecimento que Cataguases era “essa” Cataguases, importante do ponto de vista artístico e econômico, quando saí de lá e fui estudar em Juiz de Fora. Pra mim foi uma dádiva ter nascido lá, não por causa dessa inclinação artística, mas porque Cataguases era um resumo do Brasil. Eu vivia numa cidade industrializada e passava férias no interior, numa colônia italiana de onde vem a minha família. Numa localidade de economia rural as relações interpessoais e interclasses são muito permeáveis, o filho do dono da fazenda convive com o filho do empregado. Já numa cidade industrial isso não existe, é tudo compartimentado. Então conviver com essas diferenças me permitiu perceber o contraste entre ser alguém num determinado local e não ser ninguém em outro. E pensar sobre isso foi essencial quando cheguei em São Paulo. Essa talvez seja a única cidade do Brasil que quando você chega para trabalhar ninguém pergunta: de onde você é? De quem é filho? Eles só querem saber seu tipo sanguíneo, pra sugar até o fim (risos).  Mas eu tento, de alguma maneira, dialogar com vários registros sócio-econômicos e psicológicos que fui acumulando de diferentes vivências.

Samária Cataguases aparece de forma muito nítida em Redemoinho, longa baseado em livro seu, que resultou num bonito filme. Ele tem grandes atores nacionais (Irandhir Santos, Júlio Andrade, Dira Paes, Cássia Kis Magro), distribuição pela Globo Filmes, foi premiado e recebeu elogios: foi chamado de “o longa mais poético (e “bem filmado”) da cinematografia brasileira desde Lavoura Arcaica”, pelo crítico Renato Hermsdorff. No entanto, o filme não teve grande repercussão de público. A que você atribui isso?

LR – O filme não tinha os elementos básicos do cinema nacional contemporâneo: consumo de drogas, mulher pelada, tiroteio. E não era uma comédia com atores conhecidos do público. O público de classe média quer consumir filmes de prisão ou de miséria – que é o lado “exótico” do Brasil, hoje produto de exportação, tanto quanto antigamente eram papagaios, mulher pelada etc.

Samária – Como um leitor voraz, você mantém o blog Lendo os Clássicos, onde registra suas leituras e avalia obras. Qual a importância de iniciativas como essas para o leitor?

LR – Eu comecei o blog não com a intenção de orientar ninguém, eu não gosto dessa ideia. Mas porque lia os livros e falava “puxa, eu queria refletir mais sobre esse livro, compartilhar essa leitura com alguém”. Então comecei a fazer o blog pra mim – inclusive é blog, uma coisa ultrapassada. Para minha surpresa descobri que ele é super lido. E embora tenhamos uma grande quantidade de informação circulando, as pessoas gostam de ler algo de quem confiem. O blog acabou servindo como uma referência de livros clássicos. E eu me sinto muito a vontade de dizer “não gostei desse livro”, “gostei mais ou menos desse”, e acho que essa honestidade faz com que as pessoas gostem do blog, porque as resenhas literárias hoje são terríveis. Eu até digo que existe um texto padrão que é assim: “espaço, vírgula, a voz mais importante da literatura contemporânea hoje” – aí o resenhista apenas troca o nome que vai colocar naquele espaço.

Coloque o livro debaixo do braço e vá à luta. Porque não vai acontecer nada se você ficar esperando que o mundo descubra o gênio que é você.” – Luiz Ruffato.

Samária – Eu encontrei exatamente essa referência em relação a você: “Luiz Ruffato, a voz mais importante da literatura contemporânea hoje” …

LR – Viu? É só tira meu nome e colocar o que você quiser (risos).

André – Você diz que não tem televisão. Em tempos de profusão de imagens e notícias, como o distanciamento dessa mídia pode interferir no trabalho da escrita? E como você se relaciona com o factual, como ele é capturado e chega a sua produção literária?

LR – Não tenho televisão, nem carro, nem redes sociais e nem tinder! Eu não tenho nada contra as redes sociais, só não quero participar delas. Já me disseram: “O facebook é legal porque você encontra pessoas que não vê há 20 anos”. Se tem 20 anos que eu não vejo essa pessoa, ela não tem mais nada a ver com a minha vida, né?  Eu tenho fanpage, mas é só agenda e quem atualiza é minha filha. E o factual não chega na minha produção literária. Eu uso o factual nas críticas que escrevo no El País ou para conversar com meus amigos. E também não é porque não tenho televisão e redes sociais que não estou informado. Eu me informo pelos sites e outras publicações. Na TV e redes há uma aparente hiperinformação e tá todo mundo desinformado.

Samária – O que você diria a um jovem que quer ser escritor?

LR – Não seja! (risos). Não, é brincadeira! Eu diria: primeiro: não ache que ser escritor é legal. Não é, mesmo. É chatíssimo! Você fica sozinho, escrevendo em casa, ninguém lhe entende, depois fica cheio de problema muscular e de articulação, pelas longas horas sentado, e você não vai ganhar nenhuma mulher ou homem com isso, porque as pessoas acham o escritor legal, mas de longe. Pra conviver é muito chato. Depois, ser escritor não dá dinheiro e nem prestígio – ninguém nem sabe que você é escritor. Mas, se mesmo sabendo disso tudo, você acha que tem algo a contribuir e gostaria de ser escritor, então é legal. Nesse caso as recomendações que eu daria são: primeiro: tenha disciplina. Não acredito em escritor que não tenha disciplina, que fica esperando chegar a iluminação. Segundo: você tem que ser um leitor muito mais do que um escritor. E terceiro: se você realmente acha que isso vale a pena, acredite no seu trabalho, coloque o livro debaixo do braço e vá à luta. Porque não vai acontecer nada se você ficar esperando que o mundo descubra o gênio que é você. No máximo você vai ficar a vida inteira esperando. É isso.

(Entrevista publicada na Revestrés#37- agosto-setembro de 2018).

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Como fazer um discurso eterno

A Feira do Livro de Frankfurt é uma das mais importantes da área literária no mundo. Ela sempre faz homenagem a um país considerado em ascensão e, em 2013, foi a vez do Brasil.

Os quase 19 milhões de reais investidos no Projeto Frankfurt 2013 foram viabilizados pelos Ministérios da Cultura e Relações Exteriores, Funarte, Câmara Brasileira do Livro (CBL) e Fundação Biblioteca Nacional (BN). O Brasil levou 70 autores para a programação literária que se estendeu por todo o segundo semestre daquele ano. Foram lançados 180 livros brasileiros e o pavilhão Brasil ocupou um espaço de 2.500 metros quadrados, sendo visitado por cerca de 60 mil pessoas. Entre eventos literários e culturais, o país realizou 651 atividades.

Apesar do saldo positivo, duas polêmicas marcaram a repercussão do evento: a ausência de Paulo Coelho, que se recusou a participar como boicote à lista de 70 autores brasileiros convidados à feira, da qual ele fazia parte, e o discurso de Luiz Ruffato, orador que representava os escritores e denunciou as desigualdades no Brasil.

O discurso de 2013, ainda atual:

“O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século 21, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.

O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro – é a alteridade que nos confere o sentido de existir-, o outro é também aquele que pode nos aniquilar… E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.

Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, artistas plásticos, cineastas, jornalistas, escritores.

Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania – moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade -, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém…

Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios – o semelhante torna-se o inimigo.

A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.

E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.

O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais – ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, e sim privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo – amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão de obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos…

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro – seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual- como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora.”

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