(Participaram desta entrevista: Samária Andrade, André Gonçalves, Wellington Soares e Américo Abreu, professor de Jornalismo da UESPI)

A professora chega cedo ao auditório e senta na frente. Puxa da bolsa caneta e bloco de notas. Concentrada, pouco percebe os que chegam. Provavelmente anota pontos do que deseja falar. As viagens para palestras têm se tornado frequentes para várias partes do Brasil onde discute racismo, feminismos, política, capitalismo e temas transversais.

Rosane Borges, 42 anos, jornalista, foi a única negra em sua turma de graduação. Doutora em Comunicação pela USP – Universidade de São Paulo – tornou-se professora da mesma instituição, no Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação. É articulista da revista Carta Capital e do blog da Editora Boitempo. Ainda foi Coordenadora do Centro Nacional de Informação e Referência da Cultura Negra (2013), órgão do Governo Federal, ligado ao Ministério da Cultura.

Quando assume lugar à mesa de conferência, fala muito, sem perder o raciocínio organizado. O bloco de notas fica esquecido sobre a perna. Ali, argumenta e gesticula a autora de livros como Esboços de um tempo presente (2016), Mídia e racismo (2012) e Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro (2004). No dia seguinte, ela nos diz que, na Academia, sempre fazem referência à sua pouca idade em relação à quantidade de livros publicados. Suspeita que a surpresa vem, na verdade, do fato de ser negra. “As nossas universidades ainda são muito elitistas, e, o que é pior, você não vê nenhuma interrogação por parte dos seus pares em relação a isso”.

Nosso segundo encontro com Rosane, para a entrevista, ocorre no almoço marcado no encontro dos rios Parnaíba e Poti, em Teresina. Gravador sobre a mesa e alguém ainda mais falante. Ela esquece de comer e pede ao garçom que requente o peixe servido há mais de uma hora.

A maranhense de São Luís foi morar em São Paulo na adolescência e lá descobriu-se na participação do movimento negro e nos estudos de comunicação, interessando-se em observar como o jornalismo trata o negro. Fala como professora – faz perguntas que ela mesma responde – e responde como ativista – se implica nas questões, dá preferência ao termo “a gente”.

De boa conversa, pausando mais em vírgulas que em pontos, Rosane é uma provocação ao espírito crítico. Na Revestrés discute feminismos: “Algumas meninas dizem ‘eu não tenho paciência com homem’, eu também não tenho, mas a gente vai ter que ter, ou não vamos acabar com o machismo”; reage ao capitalismo, que considera barbárie: “Eu não acho que querer outros valores seja ‘polianismo’”; não guarda opinião sobre quem a desagrada: “Fernando Holiday representa um desserviço à luta do pobre, do negro e do homossexual”; e quase se emociona ao sugerir: “Se espera de Pelé um discurso militante que não vamos ter! Ele já conseguiu um feito: foi o rei do futebol! Deixa Pelé em paz e a militância fica com a gente”.

Foto | André Gonçalves

Américo – A educação infantil e ensino fundamental no Brasil são notoriamente excludentes para a população mais carente. As escolas da periferia são sucateadas e oferecem ensino deficitário. Como a população negra do país é também, em grande parte, a mais carente, ela é penalizada desde a infância. A curto e médio prazo o que você sugere para minimizar esse problema?
Rosane Borges – No Brasil, até o regime militar, quem estudava era uma elite e ela estava nas escolas públicas, que eram boas. Quando essa escola começa a ficar ruim? Quando há uma universalização do ensino, na década de 60, e o pobre passa a ter acesso à escola, que perde a qualidade. Isso acontece porque o pobre tem mais dificuldade de aprender? Não! Mas porque isso foi um projeto pensado. Pra quê uma escola boa para a escória do mundo? Então a educação pública começa a degringolar. Hoje a elite brasileira estuda até o ensino médio nas boas escolas privadas e vai para a universidade pública. Com a pessoa pobre acontece o contrário: ela estuda em escolas públicas ruins e, quando entra numa faculdade, vai para as piores privadas. Então a educação precisa ser discutida de modo universal. Eu concordo com Muniz Sodré quando ele diz que hoje, no Brasil, ninguém está pensando a educação de modo sério; porque toda política educacional que se reduz a cumprir planilha e bater metas – pra sair bem na foto com a ONU e os organismos multilaterais – não pode ser séria (fala com ênfase). Pensar a educação significa orientar-se para o mundo. Isso permite que as pessoas pensem de maneira mais espontânea. Tem que ter um investimento maior na escola, o professor tem que ser bem remunerado e precisamos voltar aos grandes pensadores da Escola e nos interrogarmos: que modelo de educação a gente quer?

Quando o pobre passa a ter acesso à escola (pública), ela perde qualidade. Pra quê uma escola boa para a escória do mundo?

Wellington – Qual a sua opinião sobre o exame Enem (Exame Nacional do Ensino Médio)?
RB – Ele vem se mostrando uma experiência exitosa e mais democrática no sentido que possibilita o ingresso na universidade de maneira mais global. O vestibular é um concurso terrível, onde quem entra na universidade é quem foi adestrado para passar naquele concurso. Eu vejo professores se orgulhando que a Fuvest (Vestibular de acesso à USP) e o Ita (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) são os dois vestibulares mais difíceis do Brasil, e isso não é motivo de orgulho, ao contrário, é vergonhoso. Aquilo ali funciona adestrando pessoas.

André – Há quem defenda que, ao invés de mais investimentos em universidades, se deveria investir no ensino por meio de escolas técnicas, que garantiriam um acesso mais fácil ao mundo do trabalho. Há uma verdade nesse pensamento ou ele corresponde a um recorte social ideológico?
RB – Há as duas coisas. A gente, de fato, criou uma cultura bacharelesca no Brasil e o trabalho manual e espontaneizado foi desvalorizado, porque se ganha pouco, e o ganhar pouco também está associado a um papel subalternizado e de desprestígio. A gente investiu na cultura bacharelesca como forma de dizer “eu preciso ganhar mais e ser reconhecido”. Enquanto isso, a desvalorização do trabalho manual se relaciona à nossa herança escravocrata. É preciso equilibrar esse jogo, fazer um duplo movimento: de melhorar o ensino técnico e de valorizar essa atividade. A Europa faz isso. Se as pessoas decidem não ter ensino superior e querem desenvolver um trabalho técnico, elas ganham bem por isso. Agora, não se pode dar coro a uma perspectiva que acha que lugar de pobre é na escola técnica e não na universidade. A gente tem que ter cuidado para que essa demanda, que é real, não reforce uma demarcação de classe.

Américo – A mídia brasileira, notadamente a TV, é branca. É visível a desproporção entre o número de jornalistas negros e a composição étnica da população brasileira. Como isso se reflete na formação do jovem negro brasileiro?
RB – Se reflete de maneira perversa. Lacan, com a teoria do estágio do espelho, diz que a criança só consegue se ver como unidade motora a partir do oitavo mês, quando se olha no espelho e se vê como um todo integrado. Até então ela só vê pedaços. O que Lacan quer dizer com isso? Que a nossa identidade se dá por meio de projeção, que para construir uma identidade positiva de nós mesmos precisamos de identificação. Como a gente vive numa sociedade hipermidiatizada, as imagens que vêm da mídia são importantes e fazem com que estereótipos se tornem discursos circulantes, como a ideia de que o negro tenha maior tendência a ser violento. Essas imagens têm uma validade, viram quase uma profecia auto-realizadora, porque você não vê imagens plurais, não temos um regime de visibilidade que dê a universalidade do humano para o negro. A gente espera que o corpo negro ocupe determinados espaços e não outros. Assim, a gente não se assusta quando um corpo negro está em funções subalternas, e, ao contrário, se assusta, ao ver um negro em determinadas carreiras. O branco pode ser qualquer coisa, inclusive ladrão, mas você não questiona se vê um médico branco. E se vê um médico negro, pode questionar até positivamente : “que legal, um médico negro!”. Essa reação positiva revela que ele é uma exceção. Nós estamos sempre inaugurando alguma coisa: a primeira negra a ganhar o óscar, o primeiro negro ministro do STF, a primeira negra garota do tempo.

A gente não se assusta quando um corpo negro está em funções subalternas, e, ao contrário, se assusta, ao ver um negro em determinadas carreiras.

Samária – Por falar em inaugurar, você foi a única estudante negra em seu curso de graduação e hoje é professora de Comunicação na USP. Como você percebe e sente o lugar do corpo negro na academia?
RB – As pessoas me dizem “você é tão nova e já tem tantos livros publicados”. Na verdade a surpresa vem por eu ser uma mulher negra. As nossas universidades ainda são muito elitista, e o que é pior: você não vê nenhuma interrogação por parte dos seus pares em relação a isso, porque eles e elas também acham absolutamente natural ter poucos negros na universidade, ninguém questiona isso como um mal estar, um problema, num país onde a população negra é maioria.

Wellington – Os movimentos de arte na periferia por todo o Brasil, geralmente conduzidos por pessoas mais empobrecidas, têm se apresentado como um canal de expressão e visibilidade de comunidades que muitas vezes ficam à margem dos canais tradicionais de comunicação ou distribuição de cultura. Como você vê esses movimentos?
RB – Eles demonstram que texto e contexto não são categorias distintas, mas andam juntos. Quando as pessoas dizem “vamos fazer arte na periferia”, elas querem dizer que, de onde elas veem o mundo, elas são afetadas, e essa afetação se reflete na forma da escrita, da música, da arte visual, de como se manifestam. E que afetação é essa? Elas são afetadas pela violência do Estado, por descasos, pelos jovens mortos que veem quase todos os dias. Elas dizem “a nossa arte é desse lugar”. Como ignorar tudo isso? Muitos deles fazem uma denúncia, e a fazem bem, porque não é uma denúncia pobre, mas algo que tem uma estética e uma experiência sensível.

Samária – Ainda sobre mídia e racismo, recentemente dois meios de Comunicação, jornal Le Monde Diplomatique e Diário do Centro do Mundo, publicaram charges de Jaguar e Latuff que foram consideradas racistas. Você, inclusive, se manifestou com artigo na Carta Capital. O que podemos aprender com episódios como esse?
RB – A gente não pode fazer um patrulhamento ideológico da arte e do humor, eles devem ser livres. Mas a gente deve observar como, dentro de determinados quadrantes, você tem um humor que se repete. E podemos dizer que Latuff, Jaguar e esses veículos estão ideologicamente no campo progressista, mas não observaram que a tipificação do corpo negro é danosa. Eles usam o humor pra dizer “olha o que o capitalismo está fazendo com o negro e o pobre”, mas repetem um signo comum para reforçar estereótipos e estilos. A charge diz que o corpo negro vai sofrer mais com a reforma da previdência, e é verdade, mas ali tem um corpo racializado, com traços de monstro. Então, fica complicado o limite entre a denúncia e o reforço de um imaginário sobre um grupo que já tem o ônus da representação.

Samária – Próximo ao carnaval também se discutiu sobre marchinhas que cantam trechos como “o teu cabelo não nega mulata”, que teve a letra refeita por alguns blocos. Essas marchinhas também podem reforçar estereótipos?
RB – Na arte, de modo geral, o imaginário reina e você fala sem travas na língua. Há correntes que acham que as marchinhas devem ser interditadas, mas eu não penso assim. Elas devem fazer parte do repertório cultural brasileiro e acho que não pode haver censura ou lei dizendo “não se toca mais”. Mas se tem grupos que passam a repensar essas letras e dizem “olha, elas reforçam algo danoso à mulher negra e nós vamos propor outra letra”, isso é um avanço. Alguns reclamam do politicamente correto, dizem que o mundo está chato, não se pode dizer mais nada – e não pode mesmo, porque os grupos discriminados estão dizendo “não vamos aceitar mais!”.

Wellington – Na literatura brasileira temos dois autores consagrados questionados pelos movimentos anti racismo: Monteiro Lobato foi acusado de ser racista e Machado de Assis, reclamado por não ter abordado a temática negra. O que você pensa sobre isso?
RB – Nós espelhamos o espírito da época em que vivemos. E Monteiro Lobato espelhou um país que tinha vergonha de si próprio, queria ser branco. Até 1930, antes do mito da democracia racial, éramos um país envergonhado porque as várias tentativas de enbranquecer o Brasil, com imigração europeia, não diminuíam a maioria negra, e isso era uma grande ferida narcísica. Monteiro Lobato é fruto de um país que tenta criar um identidade baseada numa eugenia. Os movimentos ecologistas e negros levantaram questões em relação a obra de Lobato, mas as reclamações do movimento ecologista foram aceitas, enquanto o movimento negro foi considerado radical. Então é preciso observar esse aspecto. Quanto a Machado de Assis a gente tem que parar de exigir que ele aborde a questão racial pelo fato de ser negro. O grande feito dele foi ser “Machado de Assis”, um dos maiores escritores de todos os tempos, sendo um homem negro, naquela época, e conseguindo um feito difícil para qualquer mortal (fala quase emocionada). O campo da arte não precisa fazer política stricto sensu, sob o risco de ficar pobre. A mesma cobrança se faz a Pelé quando se diz que ele deve defender o movimento negro – e eu concordo que as vezes ele fica melhor calado – mas se espera de Pelé um discurso militante que não vamos ter! Ele já conseguiu um feito: numa época em que o homem negro era quase nada, ele foi “o rei do futebol!” (fala com ênfase e emoção). Então, gente, deixa o Pelé em paz e a militância fica com a gente.

Fernando Holiday representa um desserviço à luta do pobre, do negro e do homossexual. É um típico capitão do mato, usado por um conservadorismo branco, racista, homofóbico.

Wellington – Algumas pessoas que chegam a posição de destaque, antes de serem vistas como exceção, preferem ser tidas como merecedoras daquela conquista, o que pode reforçar ideias meritocráticas e conservadoras. Como podemos interpretar a ascensão política de Fernando Holiday (Coordenador do Movimento Brasil Livre – MBL, eleito vereador de São Paulo em 2016), que é negro, gay e da periferia, mas faz um discurso contra tudo isso?
RB – Fernando Holiday representa um desserviço à luta do pobre, do negro e do homossexual. É um típico capitão do mato, usado por um conservadorismo branco, racista, homofóbico. Por ser negro, o que ele diz se traveste de discurso autorizado e competente, mas não é. Por isso é importante debater a diferença entre lugar de fala e representação. O lugar de fala não significa que, por ser negra eu tenha legitimidade para falar sobre questão racial. As vezes uma pessoa não negra, do lugar de fala dela, tem mais legitimidade, coerência, engajamento político do que um negro para falar dessa condição. Agora, uma pessoa branca não pode é representar um negro. O mesmo raciocínio serve para gays, trans, que podem ter suas questões discutidas por um hétero, mas não devem ser representadas por ele. Nem sempre lugar de fala coincide com representação. O lugar de fala de Fernando Holiday, por ser negro, o autoriza a nos representar? Não! Porque ele é um antidiscurso, é antinegritude. Ele dialoga com uma classe média tacanha e conservadora paulista que tá exportando para o resto do Brasil um modelo de ódio visceral ao PT e a todas as esquerdas, às políticas sociais, e está reatualizando um preconceito contra nordestinos.

André – No Brasil a gente tem personagens como Bolsonaro, com votação expressiva, mas também fora do Brasil temos o exemplo de Donald Trump, tornado presidente com um discurso reacionário.
RB – O que a gente vê com a eleição de pessoas como Bolsonaro e Trump é que tem muita gente que pensa como eles. O problema é que quando você tem o presidente da maior potência mundial ou um Bolsonaro que diz o que diz, significa que tudo é permitido. As pessoas se sentem encorajadas, perdem a vergonha de falar, é um pouco psicologia de grupo, e parece não haver nenhum discurso que possa barrar essas pessoas. Elas estão à vontade para dizer que negro tem que apanhar, que trans tem que morrer… Se tem um lado bom nisso é você saber quem é o seu inimigo, você estabelece um campo mais bipolar. O problema é que essa bipolaridade não está nos levando a lugar algum, fica tudo num fla x flu de ambas as partes.

Wellington – Se essa situação revela “os inimigos”, por outro lado assusta, ao se perceber pessoas com nível de escolaridade elevado defendendo ditadura, nazismo, um discurso belicoso…
RB – Isso serve para confirmar que universidade não é necessariamente o berço do esclarecimento. Muitas pessoas vão para a universidade para reforçar posições de classe, para dizer “eu vou estudar para manter meu posicionamento racista, classista”. O estudo, assim, serve para dar mais sustentação a essas pessoas.

Wellington – As nossas universidade e nós, professores, de modo geral, estamos falhando na formação do jovem quando abrimos mão do debate político?
André – Outro ponto: a gente tem a ilusão de que o jovem é naturalmente progressista e estamos percebendo uma grande quantidade de jovens reacionários. O que está acontecendo nesse campo?
RB – Desde o processo de “estabilidade” no Brasil – entre aspas-, com a abertura democrática na metade dos anos 80, toda uma geração que brigava por melhorias terminou se acomodando ao Estado. Nos anos pré-85 as reivindicações eram pelo direito a ter direitos. Quando o processo de democratização é restabelecido, as pessoas deixam de questionar o Estado e passam a dialogar com ele, a tematizar as questões a partir de uma interpelação do Estado. Então você tem uma juventude que entra na universidade sem tensão nenhuma. Se você olhar para o governo Lula vai ver que havia uma paz no Brasil. Isso foi um erro, o PT fez uma cooptação dos movimentos sociais. E cadê aquela massa que questionava? Todo mundo virou governo, e quem questionava pagava um preço alto, porque era expulso ou saia. E questionar não significa ser contra. Nas manifestações de 2013 houve uma leitura equivocada de que aquilo era oposição e não era. As manifestações foram difusas, mostraram um mal estar da população, mas quem estava na rua não pedia necessariamente “fora, Dilma”. O que a direita fez? Capitalizou as manifestações. MBL e Holiday são frutos daquela situação. A acomodação política da esquerda se refletiu na universidade, que começou a ficar muito fria, principalmente nos cursos de ciências sociais e humanas, e recuou em seu papel de produzir um pensamento mais contestatório. E eu não digo que professor tenha que levantar bandeira partidária-ideológica, mas sem as tensões sobre política, a universidade fica pobre. O ativista Hélio Santos, em 2008 me disse “algo de muito ruim vai acontecer no Brasil em breve”, eu perguntei por quê, e ele disse: “um país que nem estudante vai pra rua, é um país que não vai bem”. O jovem acha que pode mudar o mundo, que os mais velhos não cumpriram seu papel, se acha imorrível, e a juventude dos últimos anos vinha muito acomodada. A era Lula foi realmente de ouro, todo mundo viveu melhor, mas a discussão sobre cidadania ficou em segundo plano, enquanto os pobres deixavam de ser miseráveis via cultura do consumo. Isso não dá certo, porque foram esses mesmos pobres que reclamaram quando passaram a consumir menos.

A acomodação política da esquerda se refletiu na universidade, que começou a ficar muito fria, e recuou em seu papel de produzir um pensamento mais contestatório.

Wellington – Você cita Deleuze quando ele diz que em tempos difíceis somos obrigados a pensar. O que precisamos pensar com mais urgência hoje?
RB – A política com “P” maiúsculo e um projeto coletivo. No segundo governo Dilma o Brasil entrou em recessão e houve erros na política econômica. Mas as pessoas não leram esse problema como algo da política e da coletividade. Preferiram anotar como problema individual, culpando Dilma. Por isso o ódio, que individualiza os problemas. A gente tá vivendo em um mundo onde Trump diz que vai devolver a América que existia, que na verdade é uma América mítica, e o discurso do mito é de quem está pensando política com “p” minúsculo e não está pensando coletivamente, de quem esquece que a crise econômica é decorrência de uma crise no capital, que estamos passando por uma crise civilizatória. Então temos que pensar que acordo político está em jogo. Eu não gosto dessa expressão, mas temos que pensar como “humanizar o capitalismo”. O que se tem feito é desumanizá-lo cada vez mais e ele é barbárie. A luta dos trabalhadores faz do capitalismo algo mais humano, com a regulação trabalhista, por exemplo. Só que a gente tá com preguiça de pensar e não tá conseguindo enfrentar a questão em seu aspecto macroestrutural.

André – Nessa crise civilizatória, a gente pensa que a solução passa pelo fortalecimento do Estado como árbitro da situação. Só que o Estado está sequestrado pelo capital. Como sair desse nó?
RB – Eu tendo a concordar com (Fernand) Braudel quando ele diz que não existe Estado sem capitalismo e vice-versa. Então eu penso: já que o Estado depende do capitalismo, esse Estado precisa cumprir um papel social importante. Por isso as medidas de Temer nos assustam tanto, porque ele está esvaziando a plataforma social e deixando só o compromisso com o capital. A saída desse nó passa por discutir o modelo de Estado que a gente quer. Não se trata só de cobrar o Estado como provedor, mas de questionar que Estado é esse. O Estado está dizendo: “eu estou endividado, eu não dou conta”, mas ele dá conta, sim. Mas só dará conta se se reconfigurar e não ficar à mercê do capitalismo predatório global.

Samária – Os movimentos sociais, que ajudam a questionar essas situações avassaladoras, têm sido renovados por perspectivas que discutem questões de gênero e orientação sexual, com destaque para o movimento feminista. Algumas feministas, do que podemos chamar das primeiras fases desse movimento, se ressentem de certa agressividade entre as jovens feministas, inclusive voltando-se contra autoras ou militantes do próprio movimento. Você percebe isso? E essa agressividade tem um papel a cumprir?
RB – As meninas jovens tentam criar uma distância em relação as mulheres mais velhas, querem fazer um feminismo a seu modo e isso, as vezes, se dá de maneira muito assertiva. Acho que o fato delas se dizerem feministas e com engajamento é positivo. Mas eu concordo com a Jurema Werneck (feminista negra) quando ela diz “se as meninas lessem mais as feministas anterirores, fariam outras perguntas”, porque elas estão repetindo perguntas que a gente já fez e que, de certa forma, encontrou soluções, ainda que precárias. Então tem um pouco de pretensão, de achar que tá inventando a roda, mas acho que isso é próprio da juventude, você acha que seu momento é “o” momento e que as feministas mais velhas deixaram escapar muita coisa. O problema é quando a agressividade se torna a única plataforma política, aí ela se torna danosa, porque a primeira consequência é você afastar o outro. Pensar a relação de gênero é pensar também o homem. Algumas meninas dizem “eu não tenho paciência com homem”, eu também não tenho (risos), mas a gente vai ter que ter, ou não vamos acabar com o machismo, é simples assim! E isso não significa ser condescendente com o homem. Para acabar com as hierarquias você precisa do outro, do homem, inclusive para fazê-lo outro ser humano.

Algumas meninas dizem “eu não tenho paciência com homem”, eu também não tenho (risos), mas a gente vai ter que ter, ou não vamos acabar com o machismo.

André – O movimento feminista tem várias intersecções e recortes que, as vezes, entram em conflito. Você acha que esses conflitos dentro do próprio movimento, ajudam a avançar ou criam atritos desnecessário?
RB – Eles só criam atritos desnecessários quando caem na agressividade e não conseguem ouvir os pares. O movimento feminista é o movimento social mais vitorioso, porque mudou costumes e relações sociais no mundo todo. A emergência de feminismos negros não é algo que tenta ir contra o movimento feminista universalizante. Eles têm o papel de dizer: para pensar o que é exclusão da mulher, a gente tem que saber o que é uma mulher negra. Então o feminismo tem que aportar a questão racial, sexual e outras. Mais do que atritos, eu penso em contribuições, porque você não é capaz de pensar a agudeza da desigualdade se não imbricar diversas variáveis. Assim, o surgimento de outros feminismos não põe em cheque o feminismo universalizante, mas o aperfeiçoa. Evidentemente isso não se dá num roteiro tranquilo, mas com tensões e disputas, inclusive pela legitimidade do discurso. Ainda em 1983, num congresso feminista, mulheres brancas falaram para Lélia Gonzales (ativista do feminismo negro), “as feministas negras estão querendo dividir o movimento. Nós todas somos mulheres”. E Lélia respondeu: “para eu saber o que é a desigualdade de uma mulher branca, eu tenho que, antes, dá um grande salto, porque na base da pirâmide está a mulher negra, depois vem o homem negro, e só depois a mulher branca. Então, pra eu saber o que você sofre, a minha vida tem que melhorar muito do ponto de vista do indicador social e econômico”. Eu penso nessa resposta até hoje.

Américo – A NAACP – Associação Nacional Para o Progresso da Pessoa de Cor, foi criada nos Estados Unidos em 1909 e se tornou uma instituição poderosa na defesa dos direitos civis dos negros naquele país. No Brasil nenhuma entidade conseguiu unificar as lutas do movimento negro. Existem várias entidades, mas as lutas são pulverizadas. Somos diferentes pela conjuntura do país ou não há necessidade de se construir uma instituição forte, semelhante a NAACP, no Brasil?
RB – No Brasil tivemos algumas tentativas, no início do século XX, quando a elite ia para os clubes e o negro não podia entrar. Então ele começou a criar clubes e agremiações próprias. Quando Getúlio Vargas propõe pensar o Brasil a partir de uma identidade nacional e das classes populares, esses clubes foram perdendo espaço, legitimidade e a questão racial ficou subsumida na chave das classes populares, porque se investiu na ideia de que todos somos iguais e de que não existe racismo. Essas agremiações foram importantíssimas, porque davam dignidade às pessoas, eram espaço de sociabilidade, onde se criava vínculos. Ao longo do século XX vai se perdendo isso e o negro é colocado numa dinâmica geral. Nos Estados Unidos até hoje as igrejas protestantes são núcleos aglutinadores de negros. No Brasil a gente criou uma espécie de ilusão de que o negro pode estar em qualquer lugar, e não tem nada que me impeça legalmente, mas existe um local disfarçado de não-racismo. A Associação dos Estados Unidos revela o que foi a dureza do apartheid, enquanto no Brasil negros e brancos acreditaram que nosso racismo não era tão ruim, porque convivemos juntos, o que não quer dizer nada. A nossa forma de racismo é perversa, letal, violenta e todo mundo convive com ela.

Américo – A questão indígena e LGBT no Brasil são tratadas como direito das minorias. E nos últimos dez anos tivemos avanços significativos, apesar de ainda estarem longe do ideal. Não é um paradoxo que a questão do negro e das mulheres, que são maioria, sejam tratadas com o mesmo viés?
RB – Não é paradoxo porque mesmo sendo maioria numérica não é maioria em relação ao poder. Eu não gosto do termo minoria, porque muitas vezes se fala de uma maioria, considerada minoria pelo fato de não ter poder. Ainda que a gente veja um avanço maior das mulheres e negros e que essas lutas todas tenham aspectos diferenciados, elas têm um forte sentido comum quando a gente diz que são grupos destituídos de poder.

Wellington – E como você vê a aproximação ou distanciamento entre o movimento negro e o movimento indígena?
RB – Os dados oficias dizem que a gente tem menos de um milhão de indígenas no Brasil, porque foram sendo exterminados, mas você tem um investimento financeiro muito maior para a população indígena do que para a população negra, que não tem nem a metade dos recursos. Só que o dinheiro não chega até os indígenas. É desviado por corrupção. Então tem uma perversão do Estado, que diz “a gente assiste a população indígena, olha a quantidade de verba!”, mas ela não chega e não é transformada em políticas públicas. A Conferência Mundial contra o racismo, homofobia, xenofobia e formas de intolerância correlata, promovida pela ONU em Durban (África do Sul, 2001), foi considerada um divisor de águas porque reuniu questões de intolerância em todas as suas dimensões. Nessa época nós, mulheres negras, fizemos uma política de aliança com as mulheres indígenas porque, naquele momento, nos achamos mais próximas delas do que das mulheres brancas. Até hoje essa política de alianças é um marco importante para se pensar políticas públicas. Sobre os distanciamentos, tem uma história engraçada: a gente dizia “todos os negros do mundo são irmãos”, então houve a Conferência das Américas, no Chile, e nós percebemos que nós, negros latino-americanos, estávamos nos hotéis mais simples, enquanto os negros estadunidenses ficavam nos hotéis mais caros. Daí a gente dizia: “a gente achava que éramos irmãos, mas descobrimos que os negros americanos são nossos primos, e distantes!”(risos).

André – Em muitos pontos que tocamos aqui falamos de resistências e de modelos hegemônicos que se impõem de forma forte e aparentemente inescapável. Como você diria que as pessoas comuns, trabalhadores, movimentos sociais, podem resistir?
RB – Eu vou dar uma resposta que não sei se é a mais satisfatória porque vou evocar a arte e alguns dizem que quando a gente trata de política levando a discussão para o campo da arte é porque não tem mais argumentos. Walter Benjamin dizia que o capitalismo coloniza tudo, só não consegue colonizar o que a gente tem de mais estranho, de mais esquisito, aquela peculiaridade menos domesticável – o que o capitalismo está tentando fazer, porque ele quer colonizar até os movimentos de resistência e os espaços privados. Então eu acho que uma forma da gente reagir é resistir naquilo que temos de mais estranho ao capitalismo. São as chamadas micro-revoluções. É difícil? Sim, mas se a gente não resistir, a corrosão social vai ficar muito pior. E eu não acho que querer outros valores seja “polianismo”. O que é esse algo estranho? Walter Benjamin acreditava que a arte seria uma brecha. Eu acho que só descobrindo brechas podemos fazer frente a algo que está nos emparedando. A estranheza é o que nos resta. O que a gente faz que é estranho ao capitalismo?

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Sentada, de costas para o encontro dos rios Parnaíba e Poti, em Teresina, Rosane Borges parece não ter pressa nem cansaço. Vinha de outras entrevistas e seguiria para a segunda conferência da visita a Teresina. A primeira ocorreu na abertura do curso de Especialização em Direitos Humanos “Esperança Garcia” e a segunda ocorreria naquela tarde, na sede da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Ela continua sentada, experimentando, pela primeira vez, mousse de bacuri. Nós vamos embora com a sua última pergunta.

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(Entrevista na Revestrés#30 – Abril/Maio 2017)

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