Participaram dessa entrevista: André Gonçalves, Maurício Pokemon, Samária Andrade, Wellington Soares. |  Convidada: Maria Sueli Rodrigues de Sousa – Doutora em Direito, Estado e Constituição (UnB). Professora da UFPI. Pesquisadora de temas relativos a direitos humanos, direito socioambiental e territorial, populações tradicionais. | Texto e edição: Samária Andrade | Fotos: Maurício Pokemon, no Quilombo Saco-Curtume (PI).

O céu atrás de Nêgo Bispo estava entre o azul e o rosa àquela tarde, quando começamos a conversar. Nosso encontro aconteceu pelo aplicativo meet e ele falava na varanda da casa da filha – “Aqui a internet é melhor” –, no Quilombo Saco-Curtume, onde mora, a cerca de 450 quilômetros de Teresina, capital do Piauí. 

Nêgo Bispo se registrou sozinho, aos 12 anos de idade, como Antônio Bispo dos Santos. Quando perguntaram o nome de seu pai, separado da mãe Pedrina Maria de Jesus desde que o menino tinha sete anos, ele diz que imaginou chamar-se Manoel Bispo dos Santos. “No cartório, foram me fazendo perguntas e pufo: me registrei!”. Somente 20 anos depois o pai de Antônio Bispo se registra e escolhe um nome diferente: Manoel Bispo Chaves. “Deixa eu dizer uma coisa engraçada: institucionalmente, eu não tenho pai”.

O codinome Nêgo surgiu no movimento sindical e, em 2007, quando lança seu primeiro livro, Quilombos: Modos e significados, ele assina Nêgo Bispo. “Eu gostei do nome Nêgo”. Essa é a primeira história que nos conta o ex-sindicalista e um dos nomes de maior expressão nacional no movimento quilombola e movimentos de luta pela terra. Bom de papo, muitas outras narrativas trazem vestígios dos aprendizados nos quilombos: parecem fábulas, muitas vezes recorrendo a animais para sugerir ensinamentos.   

Ele nasceu no Vale do Rio Berlengas, antigo povoado Papagaio, hoje município de Francinópolis (PI), com cerca de cinco mil habitantes. Terminou o estudo formal em escola pública, aos 18 anos, indo até o ginásio completo, àquela época. Vindo de família não alfabetizada, conta que a ideia de estudar veio de sua gente, que “estava sendo atacada”. Com uma tradição oral, a comunidade foi surpreendida por processos de regularização de terras, determinados pelo Estado brasileiro, que trouxe à tona documentos antes inexistentes, dando conta de outros donos para os locais onde sempre viveram. “Os contratos orais estavam sendo substituídos por contratos escritos, o pessoal branco começou a nos impor determinadas normas e nós não dominávamos a escrita. Então fui pra escola pra fazer a tradução desses contratos”. 

Chegando à oitava série (nono ano), a comunidade e o próprio Bispo acharam que era o suficiente. Com o que aprendeu, além de traduzir os contratos, ele era requisitado para todos os trabalhos em que houvesse palavra escrita e necessidade de leitura. Lia e escrevia cartas de amor para terceiros, fazia contabilidade para açougue, conferia despesas e receitas de leilão e festa de botequim. 

Viu televisão pela primeira vez aos 15 anos e ficou deslumbrado com as imagens do Rio de Janeiro. “Pensei: essa é a cidade que eu quero conhecer.” Aos 18 anos e com diploma do ginásio, partiu. Seu plano nunca foi juntar dinheiro e voltar, como muitos migrantes nordestinos. Trabalhava, juntava uma pequena quantia, pedia demissão e passeava, conhecendo novos lugares. Voltava em Francinópolis e, quando o dinheiro acabava, ia de novo para o Rio. Teve mais de 15 subempregos, a maioria de ajudante de supermercado, mas também em lanchonetes e no metrô. “Foi importante para que eu compreendesse como o povo da cidade vive e pensa, e o que pensa sobre nós”.   

Viveu nessa vida itinerante por cinco anos, até 1983, quando voltou a viver em Francinópolis. “Minha família me educou para trabalhar na roça e eu volto para viver a minha vida real, que é de lavrador”, justifica. Bispo se dedicou de tal modo à roça que vivia praticamente isolado do povo de sua comunidade. Até que a mãe lhe chama para uma conversa: “Meu filho, você estudou pra ajudar nós, não estudou só pra você. Se você tá cuidando só da sua roça, então o saber que nós lhe demos está perdido. Você precisa dizer ao povo as coisas que sabe.”  

Com a lição de Pedrina, Bispo passa a andar na cidade e a fazer contatos. Torna-se presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Francinópolis e, com atuação reconhecida, muda-se para Teresina e integra a diretoria da Fetag-PI – Federação dos Trabalhadores na Agricultura. Quando chega a Constituição de 1988, pós ditadura militar e com avanços sobre modos de conceber o homem do campo, povos indígenas e quilombolas, Bispo acompanha essas discussões ouvindo notícias no rádio. A Constituição foi promulgada e ele já conhecia a maioria das leis e as discutia com seu povo. Conta que tentou debater a questão quilombola com os companheiros da Fetag, mas não encontrou espaço. “As pessoas achavam que tudo se resolvia com a discussão de luta de classes e que quilombola era igual a agricultor rural”. Convencido de que não conseguiria avançar na discussão, ele renunciou à direção da Fetag e, desde o final dos anos 1990, se dedica prioritariamente às questões quilombolas. Também se desfiliou do PT (Partido dos Trabalhadores) e deixou inclusive de votar. Foi um dos criadores e é diretor da Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas). Por fim, mudou-se de Francinópolis para a região de São João do Piauí, “porque lá existem mais comunidades negras caracterizadas como quilombos.” 

Nêgo Bispo é casado há 39 anos, tem dois filhos e duas filhas e diz que outros tantos que já não dá conta de dizer, além de quatro netas e três netos. Tem dois livros publicados, inúmeros artigos e poesias, está escrevendo dois outros livros e tem sido presença constante em palestras em universidades públicas por todo o Brasil. Com suas experiências de vida, foi desacreditando do Estado como instância reguladora justa. Considera que ele sempre cede aos poderes econômicos. Mesmo assim, sua maior presença nas universidades pode estar sendo facilitada pelo mesmo Estado que, numa resolução do MEC (Ministério da Educação), datada de 2018 com base em resoluções da década anterior, estabeleceu novas diretrizes para a Extensão na educação superior, determinando, entre outros pontos, maior troca de conhecimentos entre comunidade acadêmica e diferentes comunidades sociais, como as quilombolas. Dessas comunidades, Bispo traz elementos às vezes incompreensíveis para a lógica neoliberal. Parece estar tateando um novo mundo possível, em muitos aspectos mais arcaico ou tradicional, mas que promete enxergar além. 

Uma lua cheia iluminava o céu atrás de Nêgo Bispo. Era noite quando terminamos de conversar. 

Foto | Maurício Pokemon

 

Samária: Somente a Constituição brasileira de 1988 reconheceu o direito à propriedade de terras a comunidades quilombolas, buscando reparação aos descendentes de povos africanos escravizados (o direito indígena à posse de terras foi garantido na Constituição de 1934). Quando você nasceu, seu local e povo não se chamavam quilombos e quilombolas. Como se deu esse seu entendimento? 

Nêgo Bispo: Quando nasci a região onde hoje é Francinópolis tinha aproximadamente 18 engenhos de rapadura: 15 dos pretos e três dos brancos – operados pelos pretos. Meu bisavô dominava toda a cadeia produtiva da cana, do plantar até fazer açúcar. Minha tia-avó, Mãe Joana, detinha todo o saber da lavoura do algodão: plantava, colhia, fiava, tecia, tingia e fazia a roupa. Tio Norberto plantava cana e entregava a rapadura pronta, e fazia o engenho e o carro de boi. Então nós, pretos, tínhamos um poder enorme, um saber extraordinário. E não tínhamos memória de escravidão – porque éramos quilombolas. Agora, quem ia dizer que era quilombola? Quilombo era considerado organização criminosa desde o início da colonização. Também foram criminalizadas as expressões culturais quilombolas: capoeira, samba, religiões de matriz africana. Quando a Lei Áurea veio (1888), não revogou a criminalização. Entre 1888 e a Constituição de 1988 são 100 anos de silenciamento jurídico sobre o povo quilombola. Só quando o quilombo passa a ser organização de direitos o nosso povo se diz quilombola. É uma questão de inteligência. O engraçado é que antes o Estado dizia que éramos quilombolas e nós dizíamos que não; a partir de 1988 a gente diz que é quilombola, e o Estado diz que não somos. 

O cristianismo autorizou o Estado a fazer o serviço sujo, mas dividiu com ele o resultado. A Igreja é o lobo vestido de cordeiro que ela tanto fala. 

André: Estamos em 2021 e os quilombolas continuam a sofrer discriminações e descasos. Como você vê a situação das comunidades de quilombo hoje, diante do governo Bolsonaro, que se manifesta publicamente contra esses povos? 

NB: Quilombolas e indígenas têm trajetórias paralelas, porém confluentes. O quilombola foi tratado como criminoso e o indígena como selvagem. Depois fomos reconhecidos como povos de direitos, mas a Constituição não é o nosso lugar. Quilombolas e indígenas negaram o Estado de direito. Entramos no Estado para transfluir esse Estado e confluirmos nos nossos territórios. O Estado sempre maltratou quilombolas, Bolsonaro só deu maior publicidade a isso. O quilombo de Caldeirões (Ceará), foi bombardeado pelo exército brasileiro ainda nos anos de 1930. Quem mandou? Getúlio Vargas. Ele também mandou matar e tocar fogo no quilombo Pau de Colher, na divisa entre Piauí e Bahia. E Getúlio Vargas é vangloriado, nome de avenida, hospital. E foi um etnocida! (fala com ênfase). A sociedade eurocristã monoteísta está vivendo um desastre, e quem aparece como possibilidade de amenizar essa situação? O pensamento quilombola e indígena. Hoje as mais importantes universidades do Brasil estão chamando os quilombolas e indígenas para discutir cosmologia, modos de vida, contracolonidade. Quem imaginou que, um dia, um lavrador quilombola, Nêgo Bispo, nascido no Piauí, teria um livro, escrito a partir de memórias ancestrais, na ementa de universidades do Brasil? Quem imaginou que um lavrador estivesse fazendo três lives por semana pra discutir confluências, cosmofobia, pensamento circular, biointeração, saberes orgânicos?! Nesse momento, nós, quilombolas, estamos presentes não como pessoas que devem ser ajudadas, mas como pessoas que ajudam. Hoje nosso modo de vida é referência.    

Maurício: Em seus textos você fala que os quilombos são perseguidos porque oferecem a possibilidade de viver diferente. Como é esse viver diferente do quilombo? 

NB: Que mal fez Palmares? Conseguiu viver de forma independente! O que se aprende com Canudos? Uma vida compartilhada. Antônio Conselheiro não inventou Canudos. O Estado fica colocando Antônio Conselheiro como referência para desqualificar a construção compartilhada que foi Canudos. Os quilombos mostram que dá pra viver bem de forma compartilhada e respeitando a natureza. Caldeirão chegou num nível de organização tão elevado que, na seca de 1915, foi o único lugar no Nordeste onde ninguém sofreu fome. Por que o Estado bombardeou Caldeirão? Porque aquela comunidade estava deixando os latifundiários sem mão de obra. Os quilombos preservam a natureza e a sociedade eurocristã cosmofóbica desenvolvimentista quer destruir. Os quilombos mostram que é possível viver sem o Estado. E viver sem o Estado é acabar com a indústria da Justiça, do parlamento, dos ministérios – muita gente empregada e com altos salários. O Piauí tem mais de 200 quilombos que dialogam entre si e nenhum quer dirigir o outro.   

Toda igreja tem um estado paralelo e pega grana do Estado da forma mais descarada possível. 

André: Você usa as expressões cosmovisão e cosmofobia. O que elas significam? 

NB: Cosmovisão é uma linguagem universal, compartilhada e entendida por todos os viventes – pessoas, gado, plantas. Cosmofobia é o medo da natureza. Os eurocristãos têm pavor da terra, por isso gostam de morar em prédios, querem ficar cada vez mais distantes da terra. Agora tão até indo passear fora da órbita (risos). E quando eles ficam num determinado espaço de terra, destroem a natureza até terem que “se mudar pra outro lugar” (repete a expressão três vezes). Aqui, na caatinga, tá cheio de italiano, espanhol, português, roubando nosso sol. Os europeus levaram pau-brasil e hoje tão levando sol através da energia fotovoltaica; tão levando vento através da energia eólica. Querem usar a natureza, mas destroem a natureza.   

Foto | Maurício Pokemon

Sueli: Como você vê a relação entre vida humana e outras vidas, as quais chamamos de natureza? 

NB: Quando eu tinha 10 anos, meu tio Norberto pediu pra me ensinar a trabalhar na roça, e me ensinou a adestrar boi e arar terra. Ele me disse: “É você, seu irmão e dois bois. Metade do que ganharem é de vocês e metade é dos bois. E toda vez que você for pegar o boi, peça por favor. Mesmo que ele não entenda, é você quem tem que entender. É você quem precisa do boi e não ele de você. Diga: boi, por favor, me ajude a arar a terra; boi, por favor, me ajude a puxar o engenho”. Antes de montar no cavalo, tio Norberto dizia: “Meu cavalo velho, por favor me desculpe, eu andei muito com meus próprios pés, hoje preciso de sua ajuda”. É assim o povo quilombola. Todos os ensinamentos que recebi foram a partir da natureza. Mãe Joana contava que as abelhas foram aprender a fazer mel e a mestra das abelhas disse: “O mel é feito da flor”; aí o marimbondo vuuu! – Foi embora. Até hoje ele não faz mel – porque não escutou o resto da conversa. Com isso Mãe Joana me ensinou a escutar. Os animais nos ensinam muito. Os humanos, cosmofóbicos, acham que são melhores e que têm poder de vida e morte sobre as outras vidas. Mesmo os que se acham avançados, como os veganos, que não comem animais… Ora, eles pensam que as plantas não são vidas?! O humano chama quilombola de macaco achando uma ofensa e eu agradeço. Ser humano é ter uma cidade como São Paulo, com milhares morando na rua? No quilombo não tem. Ser humano é ter pessoas comendo lixo? No quilombo não tem. Ser humano é dizer que é rico e não receber uma pessoa em sua casa? No quilombo é diferente. A humanidade é uma invenção eurocristã para atacar as outras vidas. Estamos precisando animalizar a humanidade e desumanizar os animais. Nenhum outro animal morre de Covid, só os humanos. Como é que acham que são melhores se vivem nas piores situações? 

Wellington: Que religião o movimento quilombola abraça? 

NB: Podemos ser de todas as religiões porque somos politeístas. O Piauí é um dos estados que tem mais quilombos praticantes de umbanda. Nosso povo não tem essa preocupação de definir uma religião. Somos o mais livre possível e compartilhamos o que dá pra compartilhar. 

Os professores não dão uma diária na minha roça e querem que eu dê uma diária na sala de aula deles! Se eu não tenho memória de escravidão física, por que vou compor uma memória de escravidão intelectual?  

Sueli: O catolicismo não chegou às colônias batendo o pé, violentando, mas com uma estratégia de convencer pela catequese. Como você vê o assédio do cristianismo na atualidade? 

NB: Quando o Papa Nicolau V assinou a bula Romanus Papal, em 1455, autorizou a coroa portuguesa – o Estado, naquele tempo – a invadir, expropriar e escravizar perpetuamente todos os locais onde o povo fosse “pagão”. Ou seja: o cristianismo autorizou o Estado a fazer o serviço sujo, mas dividiu com ele o resultado. A Igreja é o lobo vestido de cordeiro que ela tanto fala. Saiu catequizando e a coroa atrás, com toda a violência. Quem não topasse ser catequizado morria ou fugia. Então não tem esse negócio de benesses da igreja. E hoje é a mesma coisa. O que são as comunidades terapêuticas? São instrumentos de saquear o Estado de forma legal para fortalecer as igrejas. Não têm comunidades terapêuticas na umbanda, no candomblé; elas são das igrejas evangélicas e católicas. Essas igrejas têm hospitais, bancos, universidades, televisão. De quem são os mais importantes colégios particulares de Teresina? Da santa madre igreja católica! Os quilombolas estudam lá? Nunca! Os indígenas estudam lá? Nunca! (fala com ênfase). Esses colégios são instrumentos de saquear o Estado e dizem que são filantrópicos para se livrarem dos impostos e enriquecerem. Toda igreja tem um estado paralelo e pega grana do Estado da forma mais descarada possível. 

Foto | Maurício Pokemon

 

Samária: Pelo seu Instagram vemos que você faz palestras por várias universidades brasileiras. Por outro lado você diz que não receberia nenhum título que uma universidade possa lhe oferecer. Por quê? 

NB: Nem certificados das palestras eu quero. Ora, como eu faço uma palestra e elas é que vão me certificar que eu fiz a palestra? (risos). Na minha compreensão há um saber orgânico, formado na composição da própria vida, que nos envolve e pertence a todos. É o saber ancestral, que anda comigo, que vem de Mãe Joana, tio Norberto, tio Nonato, das plantas, animais, pedras. Todo dia eu aprendo na minha roça. É um saber compartilhado e não posso carimbar esse saber como “meu”. Digo que nenhuma universidade tem dignidade para carimbar esse tipo de saber. O que elas têm é um saber sintético. E é engraçado: elas querem me dar um certificado, mas não querem me pagar para fazer uma palestra. Se me pagassem eu teria condição de compartilhar esse saber com mais gente. Já fiz muita palestra de graça, mas agora finquei o pé e só não cobro quando são os estudantes que me chamam. Os professores não dão uma diária na minha roça e querem que dê uma diária na sala de aula deles! Se eu não tenho memória de escravidão física por que vou compor uma memória de escravidão intelectual? Jamais!   

Samária: E o que você faz quando lhe entregam os certificados? 

NB: Jogo na primeira lata de lixo que encontro. 

Samária: Bom saber (risos). 

O movimento negro em Teresina foi muito fraco e devíamos ter impedido essa peça de se apresentar. É uma falta de respeito trazer uma mulher não negra para representar Esperança Garcia.

Wellington: Que tipo de leitura circula no movimento quilombola? 

NB: Circula mais a oralidade, o contar histórias. Claro, temos quilombolas que estão nas universidades e uma geração mais nova que lê mais. Eu indico as leituras de Palmares: a Guerra dos Escravos, de Décio Freitas, e os escritos do nosso Clóvis Moura. 

Samária: Nos Estados Unidos o movimento negro popularizou o lema antirracista “vidas negras importam”. Você já disse que essa não é uma frase quilombola, mas da esquerda colonialista. E defendeu a ideia de que “todas as vidas importam”. Você não tem receio dessa afirmação soar próxima à direita conservadora, que usa essa ideia para tentar deslegitimar o movimento negro? 

NB: Não, porque quando a direita ou o movimento negro americano falam sobre isso, estão falando só sobre os humanos. E eu quero é aprofundar essa ideia e falar sobre as demais vidas – bichos, plantas, tudo! E na verdade já até mudei um pouco minha fala e nem digo mais “todas as vidas importam”, mas “todas as vidas são necessárias”. Eu tô tirando a palavra “importa”, “importante”, porque ela não é boa pra nós, ela vibrou ruim no meu corpo e fui me afastando dela.   

André: Recentemente uma peça de teatro sobre Esperança Garcia, em Teresina, usou uma atriz branca e isso causou grande repercussão negativa. O que você acha desse fato e como vê os chamados movimentos identitários, a partir de sua trajetória nos quilombos? 

NB: Achei que o movimento negro em Teresina foi muito fraco e devíamos ter impedido essa peça de se apresentar no Piauí. É uma falta de respeito trazer uma mulher não negra para representar Esperança Garcia, logo uma das mais belas referências de mulheres que temos na nossa trajetória. Nunca colocaram uma pessoa preta para representar Dom Pedro I, Dom João VI – e acho que nem os pretos iriam querer – e por que uma pessoa não-preta para representar Esperança Garcia? O povo preto deve tentar constranger esse diretor. Na hora que a ancestralidade me permitir vou tentar criar uma poesia constrangendo esse moço, porque nada melhor que o constrangimento pela poesia e ele merece ser constrangido.  

Samaria: Ele é negro. 

NB: Merece ser constrangido principalmente por ser negro e promover isso. 

Tem cotista que chega na universidade e só lê europeus e quer abandonar nossos conhecimentos. O movimento social e a esquerda estão decadentes de poesia. 

Maurício: A discussão sobre cotas nas universidades divide opiniões. Recentemente Mano Brown defendeu cotas raciais, se contrapondo a Fernando Holiday, que defende cotas sociais. Qual sua posição sobre a inclusão por meio das cotas raciais? 

NB: Não discuto inclusão, não quero ser incluído no Estado colonialista. Discuto reconhecimento, respeito. Nós pensamos do segmentado para o integrado: se uma pessoa no quilombo não estiver bem, o quilombo não está bem. Mas o sistema eurocristão quer consertar primeiro o Estado para depois consertar a vida do povo. Não fiz a luta pelas cotas, sou lavrador e não tem nenhum curso que me interessa na universidade. Vou fazer agronomia para botar veneno na minha roça?! Mas apoio quem faz a luta das cotas. E acho que quando você chega num lugar por impulsão – as cotas são um impulso – você tem como ficar lá. Mas quando você chega por gravitação, não tem força pra ficar. E acho que a luta tem que ser pelas cotas raciais porque a diferença não é só financeira, é de cosmovisão, modo de vida, jeito de ser. O mais interessante das cotas é sua consequência: o encontro de saberes que há hoje em várias universidades. Mas temos que ter cuidado: tem cotista que chega na universidade e só lê europeus e quer abandonar nossos conhecimentos. É importante também incentivar cotas para docentes: ter quilombolas, indígenas, dando aula na universidade. E acho que faltou poesia na implementação das cotas. Elas chegaram de um jeito muito frio. O movimento social e a esquerda, de modo geral, estão decadentes de poesia. 

Wellington: É verdade. E historicamente muitos movimentos sociais de esquerda são ou foram estimulados por formas de rituais. Que místicas o movimento quilombola utiliza para se manter coeso e estimulado? 

NB: Especialmente poesias e cantigas. O quilombo Costaneira (PI) tem o mestre Naldo de Lima, que utiliza batuque, reisado, umbanda, candomblé, São Gonçalo. Quando ando com ele, a gente combina: eu falo e ele canta ou dança. E tudo vai dando certo. Uma vez estávamos em Minas Gerais, numa aula de Jucá, uma defesa do povo quilombola que usa um jogo com cacetes, e a polícia chegou pra ver o que era aquilo. Naldinho foi logo ao encontro deles oferecendo aluá, que estávamos bebendo, e explicou que aquilo era uma dança regada com aluá. O policial viu que tava tudo bem e foi embora. A poesia, dança, bebida, são malandragens que podemos acessar. No Piauí, temos vários batuques inventariados pelo Iphan. A mãe Tiana, de Minas Gerais, numa audiência tensa num ministério em Brasília, puxou um ponto de umbanda e tudo se acalmou. Numa audiência sobre questões ambientais com grandes empreendimentos de mineração, também em Brasília, eu puxei uma poesia (faz pequena pausa e continua): “Nós extraímos os frutos nas árvores, eles expropriam as árvores; nós extraímos animais na mata, eles expropriam as matas dos animais; nós extraímos o peixe no rio, eles expropriam os rios dos peixes; nós extraímos a brisa do vento, eles expropriam o vento da brisa; nós extraímos o calor do fogo, eles expropriam o fogo do calor; nós extraímos a vida na terra, eles expropriam a terra da vida”. O cara da Vale do Rio Doce chegou pra mim e disse: “Foi no fígado, mas foi com elegância”. Então a poesia, o batuque, um conto, têm a vantagem de trazer palavras poderosas e as pessoas pararem pra ouvir.   

Quando Dilma caiu eu disse: “cupim que vai pra festa de mambira dificilmente volta”.

André: Que importância você considera que tenham datas como o dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, e de Zumbi dos Palmares? (Zumbi, o último líder do Quilombo dos Palmares, maior quilombo do período colonial, em Alagoas, foi degolado aos 40 anos, em 20 de novembro de 1695, por tropa bandeirante que também incendiou Palmares). 

NB: Nosso povo do movimento negro urbano, que tomou como referência partidos e organizações sindicais, e que acha que dá pra resolver as coisas entrando para a lógica da inclusão ao sistema, acaba repetindo cenas como essa de homenagear Zumbi dos Palmares. Palmares existiu antes de Zumbi e continuaria existindo sem ele. Zumbi é que não existiria sem Palmares. A referência não é Zumbi, é Palmares. Assim como a referência não é Antônio Conselheiro, mas Canudos; não é beato Zé Lourenço, mas Caldeirão; não é Senhorzinho, mas Pau de Colher. Essa história de personificar a luta dá no que deu. A esquerda personificou Lula e agora só tem Lula. E se Lula morrer, o que vai ser da esquerda?  Tem que festejar novembro, como tem que festejar a vida o ano inteiro, em homenagem a todas as pessoas, mas sem eleger uma pessoa para personificar.   

Foto | Maurício Pokemon

Wellington: Tivemos um golpe em 2016 que depôs Dilma, uma presidenta eleita, e não vimos uma reação à altura, capaz de barrar esse golpe. Cobrou-se uma falta de reação de partidos políticos de esquerda e movimentos sociais. Há um descenso nas lutas sociais e políticas?  O que podemos esperar do Brasil que se aponta para 2022?   

NB: Quando Dilma caiu eu disse: “cupim que vai pra festa de mambira dificilmente volta”. Eu falava das alianças que o governo do PT fez. Hoje acho que foi bom aparecer Bolsonaro pra gente compreender melhor o Estado. Quando Lula assumiu, ao invés do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) ficar de fora, peitando os latifundiários e colocando Lula numa situação de constrangimento, foi pra dentro do governo, pro Ministério do Desenvolvimento Agrário. E o que aconteceu? A reforma agrária saiu de pauta. O MST é um movimento lindo, tenho todo o respeito e ai de quem não tiver, mas hoje é muito mais um movimento de educação no campo e nem fala em reforma agrária. O que eu espero é que cada movimento social seja percursor da sua própria trajetória e se organize primeiro internamente. E isso tá acontecendo: com a criação de escolas quilombistas e moedas indígenas, por exemplo. O governo Lula poderia ter regularizado terras quilombolas com uma canetada quando estava com mais de 70% de aprovação? Ele tinha vontade? Tinha. E por que não regularizou? Porque o Estado não permite. Quando falo de Lula, falo de nós, porque fomos nós que construímos Lula, conosco ele é uma pessoa referenciada e sem nós não é ninguém, é como se fosse o Rio São Francisco sem os afluentes. E o PT deixou de respeitar seus afluentes – os movimentos sociais. Acho que Lula volta à presidência, mas espero que volte respeitando seus afluentes. 

A sociedade eurocristã coloca o avô no asilo e o neto na creche. O povo quilombola respeita os mais velhos e as crianças.   

André: Você não acredita no Estado como capaz de ser um regulador político social? 

NB: Zé Dirceu passou pelo Piauí e um dos assessores dele me levou pra uma conversa. Zé Dirceu me disse: “Se Bolsonaro ficar 20 anos no poder, não sobrará um indígena e um quilombola”. Eu disse: nós temos o quilombo Lagoa, em São Raimundo Nonato, uma das maiores produções de mel orgânico no Piauí, e o Governador do Estado (PT) deu licença para fazerem mineração, mesmo com parecer do Ministério Público e da Defensoria Pública dizendo que era ilegal. Então o problema não são os governos, é o Estado! Quando Osmar Araújo (PCdoB) era vice-governador de Mão Santa (PMDB) a esquerda tava confusa, achando que isso melhoraria alguma coisa. Se você acredita que o fato de um trem ter muitos vagões e você poder escolher o vagão que vai entrar qualifica sua viagem – parabéns! Se você acredita que o fato de um trem ter um maquinista ruim e um sub-maquinista bom, vai mudar o rumo da sua viagem – parabéns! Você deve acreditar, inclusive, que o trem sai da ferrovia e vai andar na hidrovia. Eu compreendo que um trem só vai para onde os trilhos determinam. Se o Estado é colonialista, todo e qualquer governo será também colonialista. 

Sueli: E como você vê o poder em Francinópolis, cidade que teve seus primeiros habitantes negros e foi tomada pelos brancos? 

NB: O povo negro perdeu o poder em Francinópolis quando veio a regularização de terras no início dos anos de 1940. A lei dizia que os posseiros deveriam comprar suas posses, pagando ao Estado. O povo negro se recusou: como vamos comprar o que já é nosso? Depois de muita insistência, algumas de nossas pessoas compraram terras. Só que não sabiam que, além de pagar, precisavam demarcar, fazer escrituração, registro de imóveis. O que os não-negros colonialistas fizeram? Compraram as posses dos terrenos onde nunca viveram e fizeram registro de imóvel. Anos mais tarde chegaram dizendo: “Essas terras são nossas. Já que vocês não compraram, nós compramos”. Aí nosso povo perdeu poder. Francinópolis passou a ser um lugar muito mais de comércio e, quando se institucionalizou o poder político, ele foi assumido pelo povo branco. Mas nosso povo tem uma memória de liberdade e hoje não dá pra dizer que exista um “poder branco” em Francinópolis. É muito diversificado. 

Samária: A palavra genocídio tem sido discutida. Alguns a usam para se referir a Bolsonaro, especialmente no tratamento a povos indígenas e às vítimas da pandemia de Covid-19. Você usa a palavra etnocídio para falar da matança de comunidades quilombolas. Concorda com a denominação de genocida para Bolsonaro?   

NB: A gente perde muito tempo falando dos defeitos dos outros ao invés de falar de nossas qualidades. Quando falo de Caldeirão, Pau de Colher, uso o termo etnocídio. Não uso o nome genocídio pra falar de Bolsonaro porque evito o máximo possível falar sobre esse moço. Quando ele assumiu estive na Universidade de Brasília e me perguntaram o que vamos fazer diante de tanta merda que ele fala? Eu disse: meus amigos, merda é adubo, vamos fertilizar nossas mentes para pensar coisas boas. Mãe Joana dizia “meu filho, palavras boas, horas algumas; palavras ruins, horas nenhuma”. Então não é momento de estar falando em genocídio, porque essa é uma palavra ruim. E nós não perdemos! Hoje todas as universidades estão discutindo cosmologia, cosmovisão, estamos dando o tom, a pauta do debate neste país! E nós, quilombolas, estamos vivendo o melhor momento de nossas vidas.  

O que precisamos fazer para alcançar a paz? Vá pro cemitério. Lá é o lugar mais próximo da paz – quando os vivos não estão lá. Nós não somos de paz, somos de festa!

Samária: Você deu várias indicações do que a gente pode aprender com o modo de vida quilombola. Por que parece que a gente não tá ouvindo esses aprendizados? Ou o que a gente pode fazer para ouvi-los melhor? 

NB: Conversar com nossa geração avó. Quem não tiver avô, que peça emprestado os avós dos outros. Na sociedade eurocristã monoteísta a geração avó não tem valor. A família é entendida como mãe-pai-filho. E isso tem um fundo bíblico, porque Deus é pai, mas não é avô. A cosmologia desse povo tem começo, meio e fim. Nós temos começo, meio e começo de novo. A sociedade eurocristã coloca o avô no asilo e o neto na creche.  O povo quilombola respeita os mais velhos e as crianças.  

Wellington: Bispo, você é uma pessoa feliz? 

NB: Sou uma pessoa festiva. Me perguntaram o que precisamos fazer para alcançar a paz, e eu disse: vá pro cemitério. Lá é o lugar mais próximo da paz – quando os vivos não estão lá. Nós não somos de paz, somos de festa! Não sou um cara feliz, sou festivo, faço festa, sou alegre, me sinto acarinhado, tenho amizades, vivo bem. Não tenho o que reclamar da vida. 

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Ritual de encerramento 

Ao final da entrevista, sentindo falta de um ritual de encerramento, Bispo pediu para recitar uma poesia de sua autoria. Escolheu uma que fez para o povo da Favela da Maré, Rio de Janeiro, onde, em 2018, recebeu o prêmio Mestre das Periferias, ao lado do líder indígena Ailton Krenak, da escritora Conceição Evaristo e da vereadora Marielle Franco (in memoriam). O prêmio é organizado pelo Instituto Maria e João Aleixo e pretende promover a produção de conteúdos sobre o território das favelas e periferias, fortalecendo a valorização desses espaços que consideram plurais e inventivos, ricos de saberes orgânicos.   

Essa poesia de Nêgo Bispo, que ele diz “demonstrar a grandeza de nossa trajetória”, foi musicada por Lazzo Matumbi, nome artístico de Lázaro Jerônimo Ferreira, baiano, cantor, compositor e ativista dos direitos humanos, oriundo do bloco afro Ilê Aiyê. 

Nós, caminhando pelos penhascos, 

atingimos o equilíbrio das planícies. 

Nós, nadando contra as marés,  

atingimos a força dos mares. 

Nós, edificando nos lamaçais,  

atingimos a firmeza dos lajeiros. 

Nós, habitando nos rincões,  

atingimos a proximidade da redondeza. 

Nós somos o começo, o meio e o começo. 

Existiremos sempre,  

sorrindo nas tristezas  

para festejar a vinda das alegrias. 

Nossas trajetórias nos movem, 

Nossa ancestralidade nos guia. 

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Publicado na Revestrés#50. 

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