“E você, o que faz aqui?” Confesso que não esperava por essa pergunta, assim, tão direta, no meio de uma roda de conversa com cerca de cem pessoas e onde, achei, estaria meio invisível. A pergunta era de Marielle Ramires, uma das cofundadoras da Mídia NINJA, e se dirigia a mim, num tom gentil, mas decidido. Ela estava sentada na cadeira ao lado do sofá, onde por vezes se revezavam Pablo Capilé e Sônia Guajajara, antes de ser ministra dos Povos Indígenas, ainda como dirigente da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil). Eu ocupava uma das cadeiras de plástico espalhadas pelo quintal. Marielle mantinha um ar atento, um tanto grave, de quem leva as coisas a sério. Estamos na casa coletiva da Mídia NINJA em Brasília, na atividade chamada Imersão Fora do Eixo/Mídia NINJA, que reunia coletivos de comunicação e de cultura, ativistas, jornalistas e produtores culturais de cidades do Centro-Oeste do Brasil. O ano era 2017, após o golpe que tirou Dilma da presidência e antes da eleição de Bolsonaro.

Imersão Fora do Eixo/Mídia NINJA na casa coletiva de Brasília: Marielle Ramires, à direita na foto, de blusa azul marinho, escuta atentamente Sônia Guajajara, no centro da imagem, à época Coordenadora da APIB. Foto: Samária Andrade
Os participantes reunidos pela Mídia NINJA se organizavam em rodas de conversa que se estenderam por quatro dias. Preparavam refeições e comiam juntos. Alguns ficavam para dormir, em colchões pela sala ou barracas armadas no quintal. Queriam estar juntos, ouvir uns aos outros, pensar possíveis saídas para aquele Brasil que se apresentava. Apostavam na descentralização de ações, em promover eventos, mobilizar pessoas e discutir o país, principalmente por meio da cultura, da política e da comunicação.
A casa coletiva de Brasília, à época no Núcleo Bandeirantes, era uma das cinco moradias partilhadas pela Mídia NINJA no Brasil. Ali não tinha luxo. Alguns móveis eram herdados de outras casas. Mas havia certo charme no sobrado alugado de dois pisos e um quintal arborizado. Na parede da sala, um cronograma de revezamento de atividades indicava as exigências da vida coletiva. Ele apontava o que cada um deveria fazer no dia a dia, além das atividades de cobertura da NINJA: preparar comida, recolher lixo, lavar banheiros, cuidar das crianças – consideradas filhos coletivos.
Marielle, além de cocriadora da Mídia NINJA, havia se tornado uma espécie de orientadora não formalizada, contando com respeito e carinho dos ninjas. Formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), nasceu em Cuiabá, e estava entre as chamadas ninjas fixas – que vivem nas casas coletivas da organização.
Mas o que eu faço ali? Pesquisando para o doutorado em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB), vi a chamada da atividade e me inscrevi como pesquisadora. A inscrição foi negada. Insisti e me inscrevi de novo, desta vez como jornalista da Revista Revestrés. Inscrição aceita. Não significa que eu tenha driblado os ninjas. Quando cheguei para a atividade, ainda no credenciamento, a primeira pergunta que me dirigiram foi: “Você está aqui como pesquisadora ou como jornalista?” Um tanto temerosa, respondi: “Os dois”. Fui aceita na atividade.
Depois, já na roda de conversa, tudo o que eu queria era a oportunidade de uma metodologia de observação direta, anotando com discrição, tentando não tirar a espontaneidade do grupo. A pergunta de Marielle me tirou da suposta invisibilidade. Minha primeira reação foi de susto – fui descoberta! Os ninjas faziam convocatórias para atividades abertas nas casas coletivas, mas, desconfiados, não abriam os espaços a todo mundo, dando preferência a ativistas, produtores culturais e jornalistas independentes. Eu disse que era pesquisadora em comunicação e fazia doutorado na UnB. Quando disse que era do Piauí, professora de universidade pública, jornalista de cultura, acho que fui identificada como uma “fora do eixo”. A partir dali ficamos mais à vontade.
Nos anos seguintes, continuei pesquisando os ninjas, indo a atividades, coberturas, acompanhando publicações. Marielle continuou um tanto norte do grupo. Até que no dia 29 de abril de 2025, diagnosticada há poucos meses com um câncer no estômago, ela faleceu, em São Paulo. Deixava um percurso marcado por ativismo cultural, defesa dos povos indígenas e de políticas públicas para a comunicação de grupos independentes. Passado um ano de sua despedida, neste abril de 2026, os ninjas voltaram às redes sociais em publicações quase discretas, mas emocionadas. Quando esteve em tratamento, Marielle não aceitou manifestações chorosas dos amigos. Repetia um poema de sua autoria: “Luta é igual a mato/ Você pode cortar, sacar, tentar tirar/ Mas ele volta a crescer em liberdade/ A esperança é uma moça teimosa/ que insiste organicamente/ em se renovar com a gente/ ou apesar da gente/ Só uma coisa é certa/ O mato voltará a crescer com o tempo”.
Cerca de dois anos após aquela imersão na casa coletiva de Brasília, em 2019, entrevistei Marielle para a mesma pesquisa. O que eu faço aqui, agora, é voltar a essa entrevista para, pela primeira vez, torná-la pública, num entendimento de que o pensamento dessa comunicadora articulada e articuladora excede o limite da pesquisa. Compenetrada de muitas responsabilidades, Marielle pensou o Brasil, a comunicação, a cultura, os grupos independentes, a política, o movimento social, as relações entre centro e periferia, num momento histórico de grande ebulição no Brasil, quando alguns dos fenômenos, como as plataformas digitais, ensaiavam sua ampliação.
Segue a entrevista, excluindo apenas passagens que dizem respeito estritamente à pesquisa ou editando trechos por necessidade de clareza.*

Marielle Ramires, em cobertura. Foto: Mídia NINJA
Samária Andrade: Conte como foi seu ingresso no Fora do Eixo (rede de coletivos culturais) e na Mídia NINJA?
Marielle Ramires: Eu fazia faculdade de Comunicação na UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso) e a gente tinha um grupo de pessoas ligadas ao Centro Acadêmico de Comunicação. Ali a gente começou um encontro com estudantes de outras faculdades, em Cuiabá. Foi quando conhecemos o Pablo Capilé. Junto a um grupo de pessoas, ele tinha feito o primeiro festival de músicas autorais de Cuiabá, Festival Calango, em 2001. Eu participei como público. Já nessa época, eles chamaram um cara de uma grande gravadora pra conhecer o Festival e os artistas. E esse cara falou: “Legal, mas vocês precisam desenvolver uma cena pra conseguir criar um processo permanente de formação e aperfeiçoamento. Ou vão fazer uma coisa isolada”. Pablo, que é um articulador de pessoas e de rede desde sempre, começa a promover uma aproximação entre diferentes universidades e centros acadêmicos. Tem início ali um processo longo que envolveu encontro regional de Comunicação, idas pra encontros nacionais. Pablo se aproxima de Lenissa (Lenza) e de outras pessoas que se juntaram quando a gente veio a fundar nosso primeiro coletivo de cultura. Naquele momento entendemos que o movimento estudantil não iria atender as expectativas que estavam sendo criadas por nós, que eram mais no campo da cultura do que do movimento estudantil. Eles fundam primeiro a produtora de áudio e vídeo, em 2002, que se torna um coletivo, e começam a pensar o fomento da cultura independente no estado de Mato Grosso. Eu tava terminando minha faculdade de Comunicação e, com um companheiro e dois amigos, fundamos um coletivo chamado Empório da Notícia, com site cobrindo eventos da área cultural. Cuiabá vivia um cenário crescente, com o Espaço Cubo (espaço cultural que serve de berço ao movimento Fora do Eixo e este, por sua vez, à Mídia NINJA), vários movimentos, um calendário de atividades, bandas profissionais e outras iniciando. E começamos a frequentar fóruns de cultura da cidade e a pensar políticas públicas. Era uma ação que envolvia desde o diálogo com poder público a frentes mercadológicas, pensando numa cena autoral de música e também de audiovisual. No segundo Festival Calango, em 2003, eles chamam a gente pra assumir a assessoria de comunicação. Nesse momento o Espaço Cubo começa a pensar em desenvolvimento da cena local e abrimos várias frentes de trabalho: estúdios de gravação, blogs, newsletters, um diálogo forte com a imprensa. O festival Calango de 2003 teve articulação regional, a gente convidou bandas, produtores, jornalistas. E em Goiânia, especialmente, tinha uma cena de música independente que era referência. Nessa época o Brasil já tinha festivais de música independente, alguns consolidados, como o Abril pro Rock, em Pernambuco, que tinha lançado Nação Zumbi. Vale dizer que naquele momento – começo dos anos dois mil – a internet tava despontando com força para um público maior no país e a gente tinha o fenômeno do Napster, quando chega a possibilidade de você baixar música.
Samária – Com a chegada do Napster (criado em 1999, nos Estados Unidos, pioneiro no compartilhamento de arquivos de música gratuitos de usuário para usuário), como ficou a produção musical no Brasil naquele momento e como vocês reagiram?
Marielle – As pessoas começam a baixar música e isso muda o mercado no Brasil e no mundo. Então, quando você tem a possibilidade de gravar e distribuir seus trabalhos a custos muito menores, o show passa a ser um instrumento de visibilidade e, principalmente, de sustentabilidade, e ganha muita importância. Já não era mais o “disco de ouro” e tiragens de milhões. Os números tinham se reduzido muito e isso tinha um impacto forte do ponto de vista de mercado mesmo. Então era um momento propício para o que a gente tava fazendo: divulgar artistas e fazer shows. Esse contexto é importante para compreender a construção de nossa tecnologia, que começa muito no campo da cultura. Sem esse processo não teria a Mídia NINJA. Em 2005 a gente volta a fazer o trabalho de assessoria de comunicação no (festival) Calango e esse já foi um festival muito grande, o primeiro em Cuiabá inserido num circuito nacional. Ali começa a discussão de duas grandes frentes para o que a gente veio a fazer: a primeira, a criação de uma Associação Brasileira de Festivais Independentes, pensando a articulação de um cenário de festivais; e a segunda, a criação de grandes centros de mídia independente, com capacidade de dar visibilidade a toda uma produção realizada no Brasil profundo, projetando artistas com trabalhos incríveis e que não tinham espaço nos grandes centros e grandes veículos de comunicação. De 2001 – ano do primeiro Calango – a 2005, a articulação começa pela cena local, passa pela regional e culmina num circuito nacional, com shows também fora do Brasil. E a gente se articulou com coletivos de vários locais brasileiros que eram “fora do eixo”, como Uberlândia, com o Talles Lopes; Rio Branco, no Acre, com o Daniel Zen; Londrina e vários outros locais. No começo de 2006 a gente faz um grande festival de música chamado Grito Rock – que já acontecia desde 2003, em Cuiabá, realizado pelo Espaço Cubo, mas a partir de 2006 a gente passa a fazer em várias cidades, em rede. Ali a gente funda o Circuito Fora do Eixo, uma rede que tinha como princípio a articulação dos circuitos culturais de música independente e que pensava a partir de três pilares: a articulação de pessoas – artistas, produtores, jornalistas; a distribuição de produtos culturais; e a comunicação através daquilo que a gente chamava produção de conteúdo.
A gente tinha a filosofia do vamos fazer juntos, superar dificuldades pras coisas acontecerem, porque as realidades do Brasil profundo são muito difíceis. A gente começa com quatro coletivos e chega, em 2010, com 200, espalhados pelo Brasil, conectados em rede.
Samária – Pensar a Comunicação fez parte desse processo desde o início?
Marielle – A comunicação sempre foi essencial. Grande parte de nós éramos comunicadores e a gente sempre entendeu a comunicação como frente estruturante. Em 2006, a convite do Pablo e Lenissa, eu entro pro Caixa Coletivo e pra coordenar a comunicação do Espaço Cubo. Estávamos contando as histórias do que a gente tava fazendo e a cidade se alimentando daquilo. Então havia uma interação muito grande, um debate permanente. Ao mesmo tempo, começamos a fazer webrádios, webtvs, o audiovisual muito forte. O Espaço Cubo começa a lançar artistas de renome nacional. Em Cuiabá tinha o Vanguart e o Macaco Bong, duas grandes referências. Em 2008, o Macaco Bong foi CD do ano pela revista Rolling Stone. Um ano antes tinha sido Caetano Veloso e Djavan. O disco do Macaco Bong se chamava “Artista Igual Pedreiro”, numa compreensão de que o artista se envolve na produção, gravação, distribuição, discutindo autonomia e novas tecnologias. A gente brincava com a canção de Geraldo Vandré, Caminhando e Cantando, e dizia que a gente era caminhando, cantando e carregando caixa, porque tinha muito a filosofia do vamos fazer juntos, superar dificuldades pras coisas acontecerem, porque as realidades do Brasil profundo são muito difíceis. Em Cuiabá, capital de Mato Grosso, a gente tinha o maior produtor de soja do mundo e uma visão de cultura deficitária, um cenário difícil de desenvolver. Ao mesmo tempo a gente nunca parou, seguiu trabalhando e entendendo que era necessário inventar soluções, criar tecnologias sociais. Foi assim que, em 2004, a gente lançou uma moeda social chamada Cubo Card. Ali a gente entendeu que tinha uma série de frentes de trabalho e de mercado e que existiam trocas para além da monetária. A banda precisava de cachê, ao mesmo tempo precisava de local pra ensaiar, precisava gravar, divulgar, e aqueles serviços poderiam ser trocados, como uma moeda. A gente entendeu que, com essas trocas, também se movimentava uma economia poderosa. Na cena independente, a galera sempre entendeu a broderagem como parceria: “meu brother tá ali, ajudando a fazer meu evento”. De 2006, quando a gente lança o Fora do Eixo, até 2010, tivemos um ciclo com várias mutações: bandas circulando, festivais realizados, articulações de redes. A gente começa com quatro coletivos e chega, em 2010, com 200, espalhados pelo Brasil, conectados em rede, pensando em políticas pra conciliar circulação, distribuição e produção. Pensando, por exemplo, redes de midiativismo. A gente começa a ganhar editais de mídias livres, a fazer transmissões de festivais ao vivo. E tinha toda uma produção estética no campo da comunicação, trabalhando linguagens diversas, mas principalmente a partir da imagem. No nosso dia a dia a gente já tinha uma produção de excelência em audiovisual, fotografia, design – isso sempre esteve presente no nosso trabalho.

Foto: Mídia NINJA
Samária – E como foi montar a primeira casa coletiva?
Marielle – Em 2010, circulando pelo Brasil, a gente começa a encontrar muitos fora do eixo no eixo. Começamos a entender que o Fora do Eixo não se tratava só de uma perspectiva geográfica, já que em São Paulo e no Rio também tem bolsões de miséria e pobreza. Então existem concentrações dentro do próprio centro. E a gente começa a entender que é importante disputar os centros também. Em 2011 a gente se muda pra São Paulo e abre a primeira casa coletiva como é hoje, com a gente vivendo junto e partilhando tudo (partilham de despesas aos equipamentos e até roupas e camas). Hoje, tô aqui no Rio e a casa coletiva funciona com o princípio do caixa coletivo. Quer dizer: ninguém tem salário, todos os recursos que a gente recebe vão para um caixa coletivo e, a partir daí, a gente faz a gestão dos nossos recursos, das contas a pagar, das necessidades. Essa experiência começa em São Paulo, em 2011, quando a gente vai morar ali entre o Cambuci e a Liberdade.
Samária – Eram quantas pessoas?
Marielle – Não sei dizer na ponta da língua, quase 20, umas 16 – eu arrisco dizer. A gente sempre foi muito rotativo também. Mas a gente já chegou muito potente em São Paulo, com uma rede forte de coletivos conectados, 500 festivais sendo produzidos!
Samária – Qual o seu papel na Mídia NINJA?
Marielle – A gente tem quatro eixos interligados. Um de economia, que é o nosso banco, que cuida da moeda social até os caixas coletivos. Tudo o que a gente aprende é um processo de aprender e ensinar, uma formação livre, então um segundo eixo é a ideia de uma universidade livre. Um terceiro eixo é a comunicação, por meio da Mídia NINJA, que veio da frente de comunicação do Fora do Eixo. O quarto eixo é pensar políticas de redes, articulação política, relação com o poder público – que a gente chama de Partido. Em 2011, eu trabalho muito forte na articulação política, pensando a relação com o Estado, políticas de rede, projetos. Hoje continuo muito vinculada a essa parte. Em 2013 a gente vive um grande ciclo, que é quando começa a Mídia NINJA, mas a gente começou a cobrir rua antes disso, em 2011. Quando a gente chegou em São Paulo, as ruas da cidade estavam efervescentes, então a gente já começa a cobrir movimentos, marchas. A gente participa de uma Marcha da Maconha que foi fortemente reprimida. Ali a gente se encontra com coletivos que faziam movimento de rua. Com a repressão, a gente viu que precisava fazer alguma coisa, e pensa em fazer uma outra marcha. No início pensamos que podia ser pela regulamentação de armas não letais e a gente falou: “poxa, esse nome não cabe num tuíte” (risos). E a gente fez a “Marcha da Liberdade”, em parceria com outros coletivos. Fizemos primeiro em São Paulo e depois em várias cidades do país, em rede, estimulando coletivos a puxarem suas próprias marchas. Ali a gente começa um diálogo forte com os coletivos. Em São Paulo houve mesmo um reencontro das pessoas com as ruas. Nas eleições de 2012, (Celso) Russomanno (PRB) tava em primeiro lugar nas pesquisas como candidato a prefeito de São Paulo. Aparecem algumas denúncias contra ele na imprensa, ele se indispõe com jornalistas, comete algumas grosserias e a gente começa a campanha Amor sim, Russomanno Não. Ele cai para décimo lugar e, no segundo turno, ficam Haddad (PT) e Serra (PSDB). E a gente lança o Existe amor em SP e faz um grande festival na Praça Roosevelt, com Crioulo, Emicida, Gaby Amarantos. E Haddad ganha a eleição – claro que não é só por conta disso, mas teve ali uma narrativa que foi contagiante e ajuda a impulsionar também. E quando Haddad é eleito, fala no discurso de posse: “existe amor em SP”.
Quando estoura as ruas no Brasil, em Junho de 2013, a gente já tava lá, com todos aqueles movimentos, dialogando de dentro.
Samária – Com base nessas experiências vocês constroem a Mídia NINJA?
Marielle – No começo de 2013 a gente funda a Mídia NINJA no Fórum Social Mundial da Tunísia (norte da África). A gente já vinha, com Bruno Torturra e outros jornalistas, conversando sobre fundar um movimento de comunicação que desse conta de cobrir aquele momento. A gente abre uma página no Facebook e começa a fazer coberturas. Quando estoura as ruas no Brasil, em Junho de 2013, a gente já tava lá, com todos aqueles movimentos, dialogando de dentro. O MPL (Movimento Passe Livre) organiza a marcha pelo passe livre no transporte público e a gente tava ali, cobrindo. A gente tava na hora certa, no momento certo, mostrando uma outra versão, ao vivo, em baixa resolução. A imprensa dizia “vândalos destroem” e as pessoas falavam: “peraí, a imagem tá mostrando outra coisa”. A gente fez transmissão ao vivo enorme, bombando, o TwitCasting começando – até então não tinha ferramentas tão sofisticadas, e leves, e você usava pelo celular! O Jorge Pontual, correspondente da Globo, faz um tuíte que diz: “Eu não paro de assistir até a bateria do NINJA acabar”. Foi tudo um boom muito forte. Ao mesmo tempo, a gente também sofre uma sabatina muito grande. Um momento importante foi quando Bruno (Torturra) e Pablo (Capilé) são entrevistados no Roda Viva (TV Cultura). Foi incrível, ficou todo mundo “o que é aquilo?!” As pessoas pensavam que estariam ali dois meninos, dois bobos, e eles chegam com uma leitura sofisticada sobre o momento que a gente vivia. Depois daquilo a Mídia NINJA foi muito questionada. Desde que a gente veio pra São Paulo, as pessoas falavam: São Paulo é uma esfinge, ou vocês decifram ou ela devora vocês. E a gente brincava que podiam ocorrer duas coisas: se a gente desse errado era porque éramos mesmo um monte de caipiras do interior, e se a gente desse certo, iam dizer que a gente tava fazendo alguma coisa errada. Então, na sequência do Roda Viva, a gente sofre uma saraivada, questionaram também o nosso modo de vida coletiva. (Começamos a ouvir barulho de crianças chorando e Marielle diz: “Desculpa, um acidente doméstico, as crianças tão brigando por causa de brinquedo. Acontece”. Depois de um breve intervalo, retomamos).
Samária – Sobre a repercussão após o Roda Viva, o programa deu visibilidade e, ao mesmo tempo, vocês foram alvo de suspeitas e ataques…
Marielle – Sim, nem esquerda nem direita entendiam a gente. Uma parte da esquerda, mais sectária, achava que a gente era hipercapitalista. E a direita achava que a gente era comunista: mora em casa coletiva, tudo com cara de hippie. Hoje alguns sociólogos classificam que era um movimento social de novo tipo que tava surgindo no Brasil. Nesse percurso, a gente se encontrou com uma parte imensa da esquerda, que inclusive nos acolheu naquele momento. A gente teve nota favorável do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), da UJS (União da Juventude Socialista), que saíram em nossa defesa.
Samária – O nascimento das crianças não era algo planejado por vocês?
Marielle – É incrível. Ah, você tem que conhecer as crianças! Não era planejado. Aconteceu. E, ao mesmo tempo, quando aconteceu todo mundo festejou. É um processo muito distribuído. Eu fico pensando: as mães que são solas ou só a mãe e o pai, não sei como conseguem, porque a criação coletiva é como uma teia indígena, sabe? Tem um monte de gente junto, se cuidando, e as mães conseguem voltar rápido, se quiserem, a trabalhar, a socializar.
Um momento importante foi quando Bruno (Torturra) e Pablo (Capilé) são entrevistados no Roda Viva (TV Cultura). Pensavam que estariam ali dois meninos e eles chegam com uma leitura sofisticada sobre o momento que a gente vivia. Depois daquilo a Mídia NINJA foi muito questionada.
Samária – Ficou visível também uma desconfiança em relação ao modelo de comunicação que vocês apresentavam?
Marielle – Exatamente. A gente foi amplamente discutido. Hoje vejo que parte das críticas foram feitas com pouca capacidade, pouca generosidade, porque sabiam que era algo novo, mas não procuraram entender o que era. Falaram que fazíamos autoexploração… uma coisa doida! Mas foi muito pedagógico, porque a gente também começou a se discutir mais, a buscar entender as visões que se tinha sobre. E, naquele momento, a gente se encontrou com outros movimentos sociais já tradicionais e importantes no Brasil. A gente começa a ter uma relação forte também com os movimentos estudantis. E discutimos questões políticas. Avaliamos que Dilma, em 2014, tinha tido um trabalho ruim no campo da cultura em seu primeiro mandato, com uma ministra (Ana de Hollanda) que teve visão antagônica à de Gilberto Gil e Juca Ferreira – quando a gente se sentiu alimentados por um processo em que a cultura ganhou uma importância que até então não tinha.
Samária – Como vocês avaliaram o Ministério da Cultura de Gilberto Gil? (Na gestão de Gilberto Gil como ministro da Cultura foi criado o projeto Pontos de Cultura, para estimular atividades artísticas e culturais em comunidades. Como parte do projeto, foram distribuídos kits multimídia que, por sua vez, ajudaram a fomentar iniciativas de comunicação de tipo independente).
Marielle – O Gil compreendia a cultura em sua perspectiva econômica, simbólica e cidadã. Ele achava que o Brasil era um corpo cultural enorme, que precisava ser massageado, e a cultura possibilitava reavivar o velho e atiçar o novo, o encontro da tradição com a invenção. Era uma visão antropológica, sensível e, eu diria, até futurista. Ele entendia a importância da abrangência de políticas públicas para contemplar o que a cultura brasileira produzia. Ainda hoje o que Gil trouxe é contemporâneo; e também Juca (Ferreira), que num primeiro momento foi secretário-executivo e depois assumiu o ministério. Foi uma visão que pensou nos Pontos de Cultura, em programas de mídias livres, em desenvolver políticas públicas para isso. Paralelamente àquilo, a gente se articulava em redes. Com Ana de Hollanda, isso muda. Gil pensava software livre e ela pensava software proprietário. Ela tira o Creative Commons (licença que permite cópia e compartilhamento de conteúdos com menos restrições que o tradicional) e aquilo teve uma reação forte da classe cultural, que considerou que eram medidas de desconstrução das políticas de cultura até então adotadas (nesse momento as plataformas digitais ainda não tinham a dimensão que ganharam). Quando o segundo turno se dá, entre Aécio e Dilma, a gente apoia Dilma. O Juca (Ferreira) assume a coordenação de cultura da campanha. Em 2015, quando Dilma assume a presidência, uma parte de nós – eu, inclusive – vai para o Ministério da Cultura. O trabalho era full time, um fluxo grande, a gente muito dedicado a pensar políticas públicas para cultura, mídias livres.
Samária – E a relação do Governo Dilma com a Comunicação?
Marielle – Dilma viveu, desde o começo de 2015, uma crise política. Não governou ou governou pouco. Teve Eduardo Cunha, as pautas bombas, um período duro. O MinC foi considerado um oásis dentro desse contexto. O Thomas Traumann era secretário de Comunicação de Dilma e, quando sai, faz uma carta com autocrítica em que avalia que a crise com o setor de cultura afastou Dilma de sua base digital, que eram pessoas do mesmo campo na disputa de mundo.
O Thomas Traumann era secretário de Comunicação de Dilma e, quando sai, faz uma carta com autocrítica em que avalia que a crise com o setor de cultura afastou Dilma de sua base digital, que eram pessoas do mesmo campo na disputa de mundo.
Samária – Sobre as casas coletivas para viver e trabalhar, que papel você considera que elas cumpram?
Marielle – Sem casa coletiva não teria o que a gente faz, elas são a base estruturante. O caixa coletivo dá organicidade ao que a gente vive, estrutura economicamente o processo, além de baratear muito os custos de produção, porque as pessoas, morando juntas, é bem mais barato que cada um em uma casa. Então tem um processo de aprendizado econômico que é incrível. Você aprende a viver de outra maneira, a viabilizar sua produção pensando outras lógicas, a partir das vivências da casa coletiva, da troca, do encontro, enfim do fazer e superar dificuldades. Então tem uma filosofia que permeia esse processo e também possibilita a articulação de rede permanente. Hoje a gente tem parceria dos indígenas aos sem-teto; dos agricultores familiares, galera da agroecologia ao pessoal do hip hop; da yoga aos hackers e youtubers. Você tem a possibilidade de encontro de repertórios e de inteligências que é absolutamente plural e isso é uma das grandes potências que a gente tem.
Samária – O lado econômico é mais fácil de mensurar. E do ponto de vista subjetivo, as casas ajudam o grupo a se manter engajado?
Marielle – A casa coletiva coloca você em conjunto com outras pessoas e te desafia de modo permanente do ponto de vista humano. É um processo de aperfeiçoamento cognitivo, intelectual. Você é o tempo inteiro estimulado a conseguir compreender, se conectar com o repertório que outras pessoas trazem. Além de tudo você se desafia a aperfeiçoar uma inteligência emocional, que é fundamental no processo da vida, né? Se você passa por aqui (casa coletiva) sai com uma capacidade de lidar com gente que é muito superior àquela que você chegou. Você tá morando com um monte de pessoas que acabam sendo a sua família, mas ao mesmo tempo tem que racionalizar as relações. Você não vai sair batendo porta, não tem isso numa casa coletiva. É um processo dialógico, você conversa muito e coloca questões em discussão de maneira racionalizante. É uma puta escola, uma vivência poderosa que possibilita processos de criação potentes. Ao mesmo tempo, a gente opta em viver a vida que leva porque estamos mais preocupados em conseguir construir um mundo que a gente acredita do que necessariamente em conseguir sobreviver. Pensar em construir processos de igualdade, fraternidade, justiça social, em coletivização de produção, em ser feliz coletivamente. Isso tudo muda muito a lógica.
Samária – Que impactos você considera que a Mídia NINJA tem sobre o jornalismo e sobre a política?
Marielle – Sobre o jornalismo a Mídia NINJA vira uma referência no que diz respeito às maneiras de contar uma história. A Ivana (Bentes) fala que passou a ter ninjismo: com poucos recursos, você consegue contar grandes histórias. Com um celular na mão, você pode tá mostrando uma perspectiva do que tá acontecendo. Acho que isso é uma das grandes marcas que a gente tem. E tem a maneira de cobrir também essas histórias. A gente abriu o Estudantes Ninja (subplataforma) e em três dias tinha 500 pessoas em um chat fazendo cobertura colaborativa. Acho que a gente é referência de jornalismo cidadão, colaborativo, de maneiras de fazer juntos com pouquíssimos recursos e as pessoas se inspirando a contar aquelas histórias coletivamente. Acho que essa é uma contribuição que a gente tem no jornalismo brasileiro. Do ponto de vista da política, acho que até recentemente, mesmo pessoas dos movimentos sociais não entendiam bem a importância das redes (sociais digitais). A gente falava: não é só rua, é rua e rede. E a comunicação e a disputa narrativa são muito importantes do ponto de vista político. Hoje a gente vê uma rede de midiativismo forte no Brasil. Ainda em 2014 ela mostrou uma força grande na vitória de Dilma. Uma parte dessa vitória aconteceu porque as comunidades tavam conectadas em rede, de modo estruturado, conseguindo reagir. Beleza que a TV fez diferença, mas aquela diferencinha de votos da Dilma pro Aécio, quem fez foram as redes (sociais digitais). Ao mesmo tempo a gente viu a força com que Bolsonaro veio. Eles entenderam bem o papel que as redes ganharam. Para o campo progressista da esquerda ficou muito mais evidente a necessidade de investir nesse espaço.
A gente falava: não é só rua, é rua e rede (social digital). A comunicação e a disputa narrativa são muito importantes do ponto de vista político. Hoje a gente vê uma rede de midiativismo forte no Brasil. Ao mesmo tempo, viu a força com que Bolsonaro veio. Eles entenderam bem o papel que as redes ganharam.
Samária – Você é formada em jornalismo. A sua vida é muito diferente da vida de um jornalista de mídia empresarial? E você teria vontade de trabalhar numa mídia convencional?
Marielle – Jamais, jamais eu quero trabalhar em mídia convencional. Minha vida é muito diferente. Acho que a possibilidade de ter uma liberdade muito grande, vivendo em casas coletivas e em movimento. Acho que também com uma capacidade de invenção que dificilmente as pessoas têm em outros lugares, veículos. Conversando com um jornalista esses dias, ele me disse: “eu sempre busquei um local pra trabalhar onde pudesse criar, inventar, não ter chefe, e conseguir contar uma história e nã nã nã…”, e tudo o que ele tava falando é a vida que a gente tem! Oxalá eu consiga viver sempre do que a gente fez até hoje, criando, inventando, sentindo liberdade. Nós somos muito livres! A gente tá fazendo uma coisa do jeito que acha correto fazer, e não tem um chefe, um poder econômico que vá nos direcionar. A gente sempre prezou pela autonomia. Óbvio que a gente busca parcerias, mas a autonomia é uma das principais questões que regem o que a gente faz.

Foto: Mídia NINJA
Samária – Você sente essa liberdade mesmo com o volume de trabalho grande que têm?
Marielle – Trabalhamos muito, o tempo todo, mas a gente fala que a adesão é livre, consciente e esclarecida. E você sente muito tesão nisso, né? Não é um processo de trabalho alienado. Depois da entrevista no Roda Viva, falaram que a gente fazia trabalho escravo. Isso é fala de quem não conhece o nosso modo. Às vezes, as pessoas acham que trabalho é ficar oito horas todo dia numa empresa e no fim de semana tomar uma cerveja. A gente pode tomar uma cerveja numa segunda, numa terça, e pode viajar, e a gente é muito desterritorializado, circula o tempo todo, e ao mesmo tempo a gente trabalha muito, sim. E sente muito tesão por aquilo que faz. Pra gente não tem uma separação trabalho e vida. É um trabalho que possibilita a vida, é revigorante, a gente sempre procura fazer coisas diferentes, não é uma coisa única, linear. Pra gente trabalho é vida.
Samária – Você acha que a pessoa Marielle mudou depois que ingressou no Fora do Eixo e Mídia NINJA?
Marielle – Muito, muito, muito, muito, muito. E também amadureci ao longo desse tempo, né, como pessoa mesmo. Eu começo lá atrás, com o Empório da Notícia, tinha 22 anos. Hoje tenho 39. Ao mesmo tempo a vivência coletiva é muito pedagógica, ela te ensina a ser mais lúcido, mais consciente, mais simples, a ver a vida em perspectivas mais interessantes. A vida coletiva vai levando a gente pra lugares que, às vezes, parece mais um processo de monge budista que de ativista (risos) – claro, eu tô falando da minha vivência. Você vai avançando do ponto de vista humano, vai aprendendo a ser uma pessoa mais generosa. Eu tenho aprendido.
Samária – Que tipo de futuro você imagina pra Mídia NINJA?
Marielle – Quando a gente começou no Fora do Eixo, nem imaginava que existiria a Mídia NINJA. A gente tá encontrando muita gente criativa e inventiva e o que a gente tá fazendo é histórico. Quando a gente viveu o Fora do Eixo, sabia que tava acontecendo uma coisa muito potente, mas não fazia ideia de onde ia dar. Acho que daqui a 20 anos vão olhar pra trás e compreender melhor o que foi feito, mas o momento que a gente tá vivendo é épico – tô falando de maneira geral e sem falsa modéstia. Você inventar uma plataforma que consegue estimular mais pessoas a se empoderarem da própria vida, contar a própria história, e conseguir, conectada em rede, fazer a disputa do mundo que você acredita. Você olha pra realidade e fala: é possível, sim, ser transformada, não é uma coisa imutável. Porque, ao longo da vida, falam pra gente: “daqui a pouco você vai amadurecer e a vida vai lhe ensinar”… E a gente tem feito muita coisa grande.
Samária – Você tem preocupação quanto à carreira profissional?
Marielle (faz uma pausa e depois responde) – A carreira já é isso que a gente tá fazendo. O que a gente tá fazendo é a carreira que a gente tem. Não tem uma preocupação de “ai, agora, vamos fazer uma carreira”. A Mídia NINJA e o Fora do Eixo são currículos excepcionais. A vida tem mostrado isso. Entre quem passou pela gente, tem gente na Al Jazeera (canal árabe de TV e internet), morando em Paris, no México. São pessoas que, caso saiam daqui, vão pros melhores lugares, porque saem com um currículo excepcional.
A gente tem um ciclo desfavorável no mundo, com recrudescimento das forças conservadoras, então a gente precisa contar as pequenas histórias, circular o Brasil profundo, encontrar os heróis locais, ouvi-los, saber o que eles estão pensando, conhecer as vitórias dos territórios. Tem muita gente que tá a fim de tá na luta.
Samária – Além da Mídia NINJA, vocês lançam outras subplataformas e novos espaços de comunicação (Estudantes NINJA, Planeta Ella etc). É possível articular todas essas frentes?
Marielle – O Estudantes NINJA tem uma rede incrível, um chat com 500 pessoas cobrindo o Brasil todo. A partir dali a gente faz reuniões e oficinas online e dinamiza redes. Nas coberturas colaborativas tem gente que manda material do país inteiro e de fora do Brasil. A gente tem trabalhado na perspectiva de várias outras redes pensando exatamente nesse novo momento que a gente tá vivendo. Até 2018 vivemos um ciclo de vários acontecimentos. Teve o assassinato de Marielle (Franco), o Ele Não – que foi um movimento de cidadania importante porque o Brasil é o quinto país que mais mata suas mulheres, um dos que mais estupra, um país super machista e, ao mesmo tempo, a gente teve as mulheres num grito de emancipação. A gente participou da campanha de Boulos e Sônia (Guajajara, ambos PSOL) à presidência do Brasil, sentimos a pulsação das redes, uma necessidade de ir pras ruas. Então as pessoas não iam simplesmente entregar o Brasil nas mãos de Bolsonaro e que ele faça o que quiser. As pessoas vão fazer a luta. A gente começa 2019 com Bolsonaro presidente, muita gente derrotada e doente. E a gente abriu uma casa na Bahia, com uma programação incrível, entendendo que o verão era um momento de reenergização, na terra da possibilidade que ainda é Salvador, o Nordeste, o público autônomo do Nordeste. Circulamos 500 cidades do Brasil em um ano. A gente acha que é hora de contar as pequenas vitórias. Vamos estar nas grandes batalhas e também precisamos mostrar que o Brasil é possível. Jessé Souza, na Elite do Atraso, fala que a elite intelectual brasileira sempre ignorou uma parte importante da história. A gente não quer ignorar essas histórias. E o país tá em disputa. A gente tem um ciclo desfavorável no mundo, com recrudescimento das forças conservadoras, obscurantismo, então a gente precisa contar as pequenas histórias, circular o Brasil profundo, encontrar os heróis locais, ouvi-los, saber o que eles estão pensando, conhecer as vitórias dos territórios. Tem gente fazendo coisas todo dia, muitas vezes sem a ajuda do Estado. Então é contar essas histórias e, ao mesmo tempo, conectar essas pessoas. Você ganha colocando um indígena com uma pessoa do hip-hop, tem muito repertório ali que pode se conectar, muitas janelas podem se abrir nesses encontros. É buscar soluções pra problemas que estão colocados e, às vezes, muita gente fica perdida, sem saber o que fazer. E encontros promovem novos lugares que oxigenam todo mundo. Tem muita gente que tá a fim de tá na luta.

Foto: Mídia NINJA
Samária – Quando Bolsonaro assumiu a presidência, achei que vocês iam refluir, por conta do discurso de criminalização dos movimentos sociais. Como você percebe isso?
Marielle – Muita gente falou cuidado, calma, espera. Mas a gente não vai se autocensurar, não vamos ficar com medo. A gente não tem que esperar nada, tem que ir pra cima, sabe? E também não é de uma maneira tola, kamikaze. É mostrando que a gente precisa se manter contando as histórias do Brasil. E, acima de tudo, precisamos viver. A Eliane Brum escreveu no El País uma reflexão sobre como tava vendo a onda do bolsonarismo e concluiu: a gente precisa rir, tirar onda, se a gente ficar no clima da agenda tóxica dele, vai entrar em depressão. Buscar a alegria é um modo de oxigenar a luta também. Essa é a nossa vida. Não tem subterfúgios, mas também não significa andar em linha reta. A gente entende que é fundamental fazer a disputa estética da política também em lugares diferentes dos que a gente sempre caminha, pra sair da bolha. E fazer a disputa com a vida que a gente quer pra todo mundo: pessoas podendo ser felizes, com leveza, uma vida boa. E uma vida feliz não significa uma vida de concentração de riqueza. É o contrário: quanto mais distribuída a riqueza, mais pessoas conectadas, solidárias, generosas, melhor pra todo mundo.
Samária – E se alguém falar que esse discurso é muito utópico, o que você responde?
Marielle – Ainda bem que existem pessoas utópicas! O Brasil só evoluiu porque tinha pessoas que, historicamente, foram consideradas utópicas. Depois de um tempo aquilo deixava de ser utópico e passava a ser realidade. Tem gente que quer concentrar tudo – riqueza, poder, educação, cultura, comunicação – e tem gente que vai lutar pra desconcentrar. A gente precisa ter gente organizada, que trabalhe pra desconcentrar, pra que mais gente consiga ter acesso. Nossa luta é essa. A gente faz o trabalho de comunicação com a Mídia NINJA e também de outras maneiras, com o Fora do Eixo, pensando em moedas sociais, caixa coletivo, casa coletiva, filhos coletivos. A gente entende que é possível transformar a realidade e você transforma a realidade lutando. Não tem outra maneira, ninguém vai dar de graça as coisas que a gente precisa.
A gente entende que é possível transformar a realidade e você transforma a realidade lutando. Não tem outra maneira, ninguém vai dar de graça as coisas que a gente precisa.
***
Essa entrevista foi realizada originalmente no dia 24 de junho de 2019 para a pesquisa que deu origem à tese de doutorado “Comovidos: engajamentos e emoções na Mídia NINJA”, produzida por Samária Andrade e orientada por Fábio Henrique Pereira no PPGCOM (Programa de Pós-Graduação em Comunicação) da Universidade de Brasília – UnB.
Link para a tese completa:
http://repositorio.unb.br/handle/10482/39463