Senhora Helena

Acabo de chegar de Veneza. Fui passar duas semanas, e acabo de chegar à minha morada. Dois anos, quatro meses e setenta e oito dias fora da minha pequena caverna. Qual não foi minha surpresa ao encontrar, na empoeirada caixa de correios, esses dezenove envelopes verdes. Não há quase nada no mundo que me surpreenda mais, especialmente depois dessa longa estada em Veneza onde vi coisas que nem imagina, senhora Helena. Vi coisas absolutamente inacreditáveis, e o mais incrível que todas as coisas eram dentro de mim. Mas chegar e encontrar dezenove envelopes verdes vindos da senhora não fazia parte de minhas convicções.  E, confesso: os malditos quatro andares de escadarias que me sugerem o Himalaia me foram leves como quase nunca.
Pensei que me houvesse esquecido. Não fui elegante em não me comunicar com a senhora nem dar sinais de vida, senhora Helena. Mas não dei sinais de vida por uma grande dúvida sobre se, em mim, havia alguma. Pensei mesmo que o tempo a faria se esquecer deste homem magro e eternamente de pés úmidos que, não de muito em muito tempo, reclama da vida. Pensei que se esqueceria de mim, porque eu mesmo fiz força para me esquecer de mim e, por isso, fiquei em Veneza por tanto tempo.
Aluguei um pequeno cômodo no Dorsoduro (não sei se conhece bem Veneza, enfim, é um bairro silencioso, sem as pavorosas hordas de turistas, e onde o canal não cheira a peixe mas, sim, a lágrima), coloquei ali uma pequena mesa para apoiar meu permanente copo d´água e meus remédios (uma cápsula vermelho e branca, uma bolinha branca e uma bombinha que preciso chupar e aspirar seu pozinho mágico a cada hora e meia), uma pequenina cama de solteiro e seu colchão e uma cadeira, de madeira escura e onde me balançava dia a dia, olhando o canaletozinho que me era visível pela janela. Ali em Veneza não tinha o meu único amigo Micko, o polaco, eslovaco ou coisa que o valha que tenho aqui em Paris como meu vizinho (já lhe falei dele, não sei se o recorda), nem a boulangerie de minha preferência. Então fazia minha única refeição diária, meu desjejum, em um hotel perto de minha moradia, o Tiziano. É um hotel grande, um edifício imponente e onde o que mais havia de comum comigo era a idade, já que foi construído no século XV, como eu, e que sempre tem à mesa do café um pequeno jarro com uma flor branca. Meu desjejum era sempre ali, e durava cerca de duas horas, todo dia. Não que eu coma muito, senhora Helena, sabes já que sou magro. E, como disse, o desjejum era minha única refeição. Nunca sentia fome, e as frutas e pãezinhos me bastavam. Mas da mesa podia observar a entrada do hotel e um pedaço do canal. E via as pessoas, senhora Helena, sem que pudesse ser visto por elas. E essa era a minha televisão: observar as pessoas entrando e saindo do Tiziano, e observar as pessoas andando para lá e para cá, uma gôndola ou uma lancha eventual. E perceber e pensar em como as pessoas são tão diferentes, apesar de absolutamente idênticas, senhora Helena. Não sei se assim o pensa, mas cada pessoa é absolutamente diferente e absolutamente igual a todas. Ali vi japoneses, brasileiros, franceses, italianos, chineses, o que há no mundo passa por Veneza e ali eu os via, todos os dias, iguais, iguais, diferentes, diferentes. Um fala mais, outro fala menos, um anda a passos rápidos, outra a passos lentos, uma sorri pouco, outro é um sorriso cercado de incertezas por todos os lados. Felizmente, como disse, ali não chegavam milhares de turistas e, sim, alguns poucos, minimamente civilizados, o que me dava oportunidade de observá-los com alguma demora. Divago, retorno então a meus hábitos.
Que eram apenas esses: o café no Tiziano, a subida para casa, a cadeira de balanço, os remédios, a janela que dá para o canal e, ia me esquecendo, a garrafa verde de água mineral que me lembrava os seus envelopes verdes, os quais, imaginava, nunca mais veria. Do desjejum para casa, onde me colocava à janela, de onde via também as pessoas, todas elas, iguais e tão diferentes, esperando ver uma em especial, já sabes quem, a única pessoa diferente e desigual das demais nesse mundo. Da janela só saía para cair na estreita cama, dormir um pouco e recomeçar no dia seguinte.
Pensei, senhora Helena, que nunca mais me escreveria, assim como pensava que nunca mais voltaria a este apartamento que, confesso, hoje cheira a pó e mofo. Dois anos, quatro meses e setenta e oito dias deixam marcas, odores e rugas, nas coisas, nas memórias e nas pessoas. Não sei se há como tirar isso do corpo, mas das coisas penso em chamar Iulianna, a mocinha que mora no apartamento logo abaixo do meu, para tirar. Não sei nem se ainda mora aqui, mas enfim. O tempo irá me fazer voltar para essa casa, onde acabo de entrar mas tenho dúvidas se saí algum dia.
Espero que me perdoe e comigo tenha paciência, já que tenho tanto a contar e tanto a fazer aqui, o que me impede se seguir agora nessa missiva. Espero não estar sendo mais uma vez invasivo e a incomodando com minha imprudência, afirmo que bastante eventual, em lhe retornar depois de tanto tempo como um mal agradecido qualquer. O que me deixou um pouco mais confiante em escrevê-la novamente foram as datas dos Correios nos envelopes, aliás, que curioso, abri um a um e estavam todos vazios, exceção feita ao último, onde encontrei sua carta, com data da segunda-feira última. O que mostra que os Correios andam um pouco mais eficientes, afinal hoje é sexta-feira e já tenho cá a sua carta.

Senhora Helena, lhe escrevo mais para a semana. Estou deveras cansado, e preciso organizar o confuso que há dentro de mim, ao menos o suficiente para lhe ser minimamente agradável como missivista.

 

Com um abraço,

H

 

P.S.: Lhe envio em anexo uma foto de mim, feita por uma turista finlandesa que passou duas semanas tomando café na mesa ao lado da minha. Um dia ela chegou, sorriu e me entregou esse retrato, e nunca mais a vi. Perceba que é excelente fotógrafa e me enxerga exatamente como sou. Queria compartilhá-la com a senhora, como sinal de respeito e pedido de desculpas.

 

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