Numa época em que o Piauí era motivo de piadas sem graça nas mídias, três jovens piauienses desconhecidos (Clodo/Climério/Césio), sob a produção de um jovem cearense (Ednardo), resolveram criar um disco que desafiava os postulados estabelecidos pela indústria cultural da música. Contratados da gravadora RCA Victor, Clodo/Climério/Clésio cuidaram de selecionar, entre mais de cem composições, doze faixas inéditas, de suas autorias, algumas de parcerias, que tinham por objetivo mostrar a diversidade da produção deles. 

Ao LP deram o título de “São Piauí”, nome de uma das canções. Uma ousadia, naquelas alturas, essa declaração de orgulho do estado de onde vinham. A “santificação” do Piauí, que a crítica estranhara, não existia; na verdade, queria dizer, na canção, que era a união de São Paulo com o Piauí. E essa música que dava título ao disco era a última – outra ousadia. Havia ainda a participação de Robertinho do Recife, de Heraldo do Monte, de Amelinha, de Ife – outras junções inesperadas. 

Não bastasse isso, na capa, ao invés da cara dos três, uma lamparina trepada numa árvore. Ouve-se uma alusão às flautas andinas, em “Cantiga”, – e uma crônica amorosa de Teresina antiga, em “Palha de Arroz”. Os futuros sucessos nacionais, na voz de Raimundo Fagner, “Cebola Cortada” e “Conflito” já constavam lá. As lembranças das festas populares impregnavam os arranjos de “A Noite Amanhã o Dia”. Não havia a famosa “música de trabalho” e, na apresentação de contracapa, Ednardo explicava que “são três, mas não é um trio” – e, imagino, os divulgadores da gravadora não sabiam o que fazer com aquele produto. 

Ao optarem decididamente pela qualidade das canções e dos arranjos – e ao rejeitarem os ditames do mercado da época, Clodo/Climério/Clésio fizeram um disco que, hoje, quarenta anos depois, é considerado um clássico da música popular brasileira.