Nunca tanta música coube em tão pouco espaço. Em tempos digitais, milhares de canções são guardadas em um único reprodutor de MP3. Se pensarmos a passo de Curupira, há 15 anos era preciso espaço em um canto da sala para acomodar CDs com pouco mais de 15 faixas cada, há 25 anos era preciso espaço na estante para alojar discos com seis faixas em cada lado e há 120 anos era preciso um bom espaço para acomodar uma orquestra a tocar uma única sinfonia por vez.

Sabe-se lá que formas mágicas o futuro nos reserva para guardarmos nossas músicas, mas um dado importante é preciso ser ressaltado nessa simplória linha do tempo traçada no primeiro parágrafo: a mídia que durante mais tempo abrigou todas as criações musicais foi o disco. Criado em 1870 pelo alemão Emile Berliner, o disco de 78 rotações foi substituído em 1948 pelo de 33 rotações, feito por um material conhecido como vinil.

Durante mais de um século foram essas bolachas que, na base da agulhada, embalaram nossos romances, festas, melancolias e alegrias. São elas, portanto, que preservam grande parte dos registros da música moderna. No entanto, o vinil não possui a mesma mobilidade do CD ou o fácil poder Gremlin de se multiplicar como o MP3. Portanto, se os discos se perdem, se perdem também parte da cultura de uma região ou país.

Foi justamente movido pela vontade de evitar que tal desastre cultural acontecesse que o paulistano Edu Pampani (50 anos) criou a Discoteca Pública. Situada no tradicional bairro Floresta, em Belo Horizonte (MG), o espaço conta com um acervo que já chega a 14 mil discos, todos de música brasileira. “Eu era proprietário de uma loja de discos em Salvador na década de 1990 e comecei a notar que colecionadores estrangeiros estavam levando toda a história da nossa música para fora do país. Foi aí que resolvi criar esse acervo”, conta Edu, que carrega grudado na camisa um boton com a clássica frase “Disco é Cultura”.

Em 2002, Edu se mudou para Belo Horizonte e, por meio de Projeto de Lei Estadual de Incentivo a Cultura, inaugurou a Discoteca Pública em 2005. Desde então, quem deseja fazer audições das preciosidades ali catalogadas, basta visitar o local de segunda a sexta-feira, das 10h as 19h. É possível encontrar desde discos cobiçados por colecionadores como A Banda Tropicalista do Duprat, do maestro Rogério Duprat com participação dos Mutantes, e Krishnanda, de Pedro Santos, até artistas populares como Odair Jose.

A ideia de Edu é ambiciosa e digna de um super-herói: reunir na Discoteca todos os exemplares de álbuns lançados por artistas brasileiros entre 1950 e 1990. O que nos faz pensar que talvez seu boton seja na verdade um escudo e os dizeres ali escritos o lema de uma liga da justiça.

Por que comprar vinil? 

Quem pode perfeitamente se juntar a Edu nessa missão de salvamento é o jornalista Murilo Fiúza (41 anos). Dono de uma coleção pessoal de mais de três mil discos, ele acomoda todos no escritório da sua casa, no Rio de Janeiro. Cerca de 80% são álbuns de artistas brasileiros, com destaques para as produções de Bossa Nova e Rock Nacional dos anos 1970. Murilo também foi tocado pelo fato das peças nacionais estarem atravessando a fronteira e se perdendo para sempre de nosso conhecimento. “Penso um dia doar meu acervo para alguma instituição que possa cuidar dela e disponibilizar para outras pessoas”, afirma.

Ao ser indagado sobre os motivos que ainda levam algumas pessoas a comprar LPs, Murilo destaca o modo diferente como as pessoas escutam música em cada época. “Antes, os artistas formulavam propostas para o lado A e o lado B de um vinil. Um exemplo é o disco Matita Perê, do Tom Jobim, que tem um lado instrumental e outro cantado. Atualmente, com o MP3, as pessoas colocam no shuffle e pulam de artistas e álbuns a cada canção. Quem compra um disco de vinil gosta de acompanhar essa proposta que foi criada”. Murilo ainda cita o valor artístico das capas do vinil, que realmente ficaram limitadas a um pequeno espaço com o advento do CD e praticamente esquecidas no caso do MP3.

Outro ponto que sempre desperta uma discussão digna de clássico de futebol é a comparação entre o som do vinil e o do CD. Edu Pampani entra de sola e já afirma que não tem dessa. “São apenas sons diferentes, que agradam a gostos diferentes. Não existe melhor ou pior”. Mas isso não é o que pensa o body piercer belo-horizontino Sydney Cardoso (34 anos). Para ele, se a pessoa tiver um bom aparelho de som, o vinil proporciona melhor riqueza de detalhes, como possibilidade de identificar mais facilmente cada um dos instrumentos de uma canção.

Sydney começou sua coleção de discos ainda adolescente. E se não tem a quantidade enorme de álbuns de Edu e Murilo, ele se destaca pelas bolachas de artistas internacionais. Os grandes tesouros de sua coleção, inclusive, são um disco autografado do Litlle Richards e um 78 rotações do Bill Haley – ambos herdados de seu pai. “Hoje seleciono mais os discos que vou adquirir, até por conta de espaço, mas antes comprava de tudo, já escolhi disco só pela capa, sem capa, já rolou de vir disco trocado do que eu queria”, conta mais um defensor da história da música.

Mercado brasileiro 

Encontrar dados concretos sobre a venda de LPs no Brasil é mais difícil que achar uma edição original do Tim Maia Racional por um preço camarada. Por isso, só é possível trabalhar com alguns parâmetros como, por exemplo, a tendência observada nos Estados Unidos de aumento anual de 40% nas vendas. São números maiores se comparados com o crescimento na comercialização de MP3, mercado consideravelmente mais novo.

Entre a chuva de BH e o Muro de Berlim

Como o assunto é raridade, porque não resenhar uma criação de quase quatro décadas? Portanto, é hora de dizer, como quem descobre a roda, que “Heroes”, de David Bowie, é uma música perfeita. Atualmente, a escuto sucessivamente, em casa no vinil ou enquanto caminho pelas ruas de Belo Horizonte por MP3. Outro dia, aliás, só notei que estava sob uma forte chuva quando fui voltar a faixa no Ipod e o aparelho encharcou. Estava tão entretido naquela guitarra lentamente viajante e na letra sobre amores impossíveis que simplesmente ignorei a água despencando sobre minha cabeça. Heroes é do disco de mesmo nome, que por sua vez faz parte da trilogia de Berlim. Assim são conhecidos os três álbuns que Bowie gravou na época em que morava na capital alemã, entre 1977 e 1979: Low, Heroes e Lodger. Na verdade, somente o álbum Heroes foi totalmente gravado por lá, sob a influência dos novos sons locais, como a banda eletrônica Kraftwerk. A letra de Heroes é inspirada na imaginária história de dois amantes que se encontram próximo ao Muro de Berlim. A letra, ora encorajadora – “We can be Heroes, just for one day” – também se desmancha em melancolia – “We’re nothing, and nothing will help us / Maybe we’re lying, then you better not stay”. É a velha história dos amantes que não podem ficar juntos, mas são rei e rainha, bebem a todo tempo, deixam a vergonha do outro lado do muro e podem nadar como golfinhos. Assim como eu nado nessa chuva que não quer parar.

 

(Publicada na edição #08, maio/junho de 2013)