Baco entra no palco com a plateia em chamas. Uma parte ali presente está pela primeira vez em um evento de hip-hop. Vozes, suor, corações urgentes querendo saltar, tomados por sentimento forte de revolta, crescente a cada rima. Entre as rodas de punk, as interações e as provocações do artista com o público ao longo da noite, é possível sentir o estado de transe. Todos estão sob o efeito Bluesman. 

Baco Exu do Blues é Diogo Alvaro Ferreira Moncorvo, um rapper baiano com 23 anos recém-completados, que teve sua vida totalmente alterada em um curtíssimo período de tempo. Em apenas dois anos, o artista alcançou um espaço importante na música, conquistando cada vez mais ouvintes dentro e fora do hip-hop e sendo convidado a participar de shows em festivais Brasil afora, programas de televisão e sendo notado por artistas como Beyoncé. Os fãs seguem na expectativa de um feat. Também foi classificado pelo Afropunk, portal norte-americano de cultura negra, como “um dos artistas de hip-hop mais inovadores do Brasil nos últimos anos”. 

 

“Quando eu comecei queria ser entendido, só”, conta. “Eu era MC de Batalha e queria que as pessoas compreendessem o que eu era, coisa que eu não conseguia explicar e nem demonstrar falando”. Baco se envolveu com a música para tentar tratar seu problema de dicção, mas acabou saindo do anonimato, mudando de cidade e de ritmo de vida. 

Sua primeira faixa, Sulicídio, lançada em 2016 junto com o recifense Diomedes Chinaski, despontou de forma inesperada e fervorosa. A música, como ela mesmo diz, é um rap sujo proibidão. Agressiva, inflamada, ameaçadora. Seu impacto foi tão grande que fez o cenário do rap desviar seus olhares do eixo Rio-SP, e voltar a atenção para os bruxos lendários do Nordeste. Além disso, muitos rappers do Sudeste começaram a produzir respostas para a faixa. Hoje, ela não é mais tocada por Baco, ainda que seja sempre a primeira pedida nos shows.

“A minha preocupação era fazer as pessoas notarem uma região. Ela se encaixa naquele momento e eu acho que esse momento passou. Agora é hora de esquecer um pouco Sulicídio e dar espaço para uma coisa nova aparecer, quebrar esse novo sistema no cenário do rap nacional.”, avalia Baco.

Ao olhar para tudo que aconteceu, ele só consegue dizer: “Foi doido”. O trabalho desenfreado não cede espaço para autoavaliações. Se parar para pensar, perde o fôlego. “Cara, eu tento não pensar muito nisso, eu tento focar no meu trabalho e seguir” conta, no camarim, poucos minutos antes de subir ao palco.

Baco pensa e faz tudo de forma muito intensa. Não sabe ser outro. Seu trabalho é repleto de significados e referências que vão de Van Gogh, Jorge Luís Borges, Kanye West, Jay-Z e até Exaltassamba, nos samples usados e nas rimas que atravessam as letras. O nome artístico, por exemplo, carrega três pesos: Baco é o deus dos excessos, do vinho. Exu é o orixá que abre caminhos. E Blues é um ritmo criado por afro-americanos no sul dos Estados Unidos.

Os dois CDs lançados são provocativos desde a capa: o primeiro é inspirado no trabalho do fotógrafo baiano Mario Cravo Neto, e traz um trocadilho visual em que o título “Esú” é destacado dentro da palavra “Jesus”, deixando sobressaltar apenas uma diferença entre as entidades: duas letras. A ideia

não é fazer uma comparação, mas uma provocação. O segundo disco traz foto, de João Wainer, destacando um homem negro tocando guitarra no pátio do Carandiru, presídio de São Paulo (SP), desativado em 2002.

Em Exú (2017), Baco fala, principalmente, sobre religião e a força do ser humano. No novo disco, esforça-se para trazer uma produção mais bem trabalhada, uma obra sobre poder, autoestima do homem negro que questiona os estereótipos existentes sobre o negro. Já o álbum Bluesman (2018) levanta uma bandeira que acolhe as minorias.“Ela [a bandeira] só fala: se você é diferente, lute para ser quem você é, não para o que esperam que você seja. É isso que te faz bluesman”.

Em cada faixa produzida, também fala muito de si. Da luta contra a depressão, de relação com a fama, seus problemas e seus desejos mais intensos. E quando traz à tona questões relacionadas a saúde mental dos negros, Baco também fala de racismo.

“Se você parar para pesquisar um pouco, não somos ensinados a lidar e entender o racismo e o que ele pode causar. Temos poucos psicólogos preparados para lidar com pessoas que sofrem de problemas de saúde mental gerados pelo racismo”, critica. “Eu não me consulto e não tenho ajuda justamente por isso. Porque eu não consigo encontrar uma pessoa que estivesse pronta para debater sobre o que eu estava sentindo e o que eu senti a minha vida inteira. Então, o que eu fiz foi achar alguma forma, pela minha arte, de conseguir abraçar as pessoas de uma forma que ninguém conseguiu me abraçar”, desabafa.

Seu protagonismo na música e sua visibilidade, no entanto, causam estranhamento. “Agora que o meu trabalho está sendo popularizado, você vê diversas formas em que as pessoas estranham o meu aparecimento como rapper, como negro, com uma identidade africana dentro do meu nome”. Com o novo CD, algumas pessoas afirmam, com fervor, que Baco teria perdido sua essência e sua agressividade. Outros disseram que Bluesman “oferta um produto ao gosto hipster e da classe média branca”.

Quanto a isso, Baco argumenta: “Quando eu vejo alguém tentando diminuir meu trabalho, eu vejo alguém tentando diminuir o trabalho de um preto em ascensão”. E finaliza: “Você imagina que isso é muito complicado, o conceito piegas que as pessoas têm de quererem que um negro sempre se mantenha em um lugar de miserável, saca? O disco me coloca em vários lugares, mas não no de miserável”. Quando Baco faz dinheiro e canta seus próprios conflitos, está afirmando: o lugar do preto é no topo.

Publicada na Revestrés#39- janeiro-fevereiro de 2019.