(Ilustração: Lysmark Lial)

                        (Ilustração: Lysmark Lial)

O Viaduto de Santa Tereza, na mineira Belo Horizonte, está completamente pichado. Centenas de palavras sobrepostas não formam se quer um poema (no) concreto. Certamente não era essa a intenção da primeira e mais célebre pessoa a interagir com o monumento. No final da década de 1920, ao caminhar em direção à sua casa no bairro Floresta, o jovem Carlos Drummond de Andrade escalava os altos arcos que compunham o recém-inaugurado viaduto.

Drummond seguiu com seu ritual de escaladas urbanas pelo menos até os 30 anos de idade, sempre convidando algum colega de escrita para acompanhá-lo nesse passeio mais próximo das nuvens. No livro “O Desatino da Rapaziada – Jornalistas e Escritores em Minas Gerais”, o autor Humberto Werneck conta que, em 1932, Orlando Magalhães de Carvalho, futuro professor da Faculdade de Direito e reitor da UFMG, e o escritor modernista Guilhermino César subiram os arcos na companhia do poeta. Na oportunidade, o romancista Cyro dos Anjos preferiu não se arriscar e gritava lá embaixo para os amigos: “Mas vocês têm família, não façam isso!”.

Outra história descrita por Werneck em seu livro diz respeito a uma noite em que Carlos Drummond, quando já se encontrava no cume do arco do Viaduto, recebeu voz de prisão de um policial. Drummond prontamente o desafiou a ir até o alto lhe deter. O homem da lei ponderou e achou melhor relaxar a prisão.

Mas, afinal, o que motivara o poeta mineiro e sua turma a realizar esse ato um tanto perigoso, visto que os arcos marcam cerca de 14 metros de altura? Em “Confissões de Minas”, Drummond escreveu: “Havia um excesso de boa educação no ar de Minas Gerais e os moços precisavam deseducar-se”. Seria, portanto, um ato de contraposição à mesmice da capital mineira? Ao indagar Mário Werneck a respeito, ele acredita que de certa forma sim.

“A Belo Horizonte do jovem Drummond era uma cidade provinciana, com pouco mais de 50 mil habitantes. E, claro, não pesava apenas a demografia: na primeira metade do século XX, entrando um pouco pela segunda, eram bem ralas as opções de vida e lazer que a capital mineira oferecia à moçada. Além disso, a sociedade era rigidamente católica e conservadora. Todo aquele abafamento existencial e moral com certeza convidava os jovens menos conformistas a reagir com molecagens”, pondera Werneck.

De subversão ao rito de passagem

Com o passar dos anos, escalar os arcos do Viaduto de Santa Tereza acabou perdendo o caráter de ato gratuito para se tornar, informalmente, uma espécie de ritual de passagem para os aspirantes à literatura. A chamada geração de 45 foi a próxima a imitar a turma de Carlos Drummond. Agora era a vez de Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Peregrino se equilibrarem pela estreita faixa de concreto com menos de um metro de largura. E, desta vez, quem fazia o papel de desesperado, suplicando que descessem, era João Etienne Filho. A façanha foi descrita por Sabino em seu “Encontro Marcado”.

Pé atrás, como um bom mineiro que sou, jogo no ar se tais peripécias urbanas não seriam apenas folclore e recebo de Humberto Werneck a seguinte resposta. “Não tenho motivos para duvidar da veracidade das estripulias das turmas do Drummond e do Fernando Sabino nos arcos do Viaduto de Santa Teresa. Os dois escreveram a respeito. Pedro Nava também. Muitos outros, como Cyro dos Anjos, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino, contavam histórias. Seria legal se houvesse algum registro fotográfico, mas seria esperar demais de um tempo em que a fotografia era menos difundida do que hoje”, ressalta Werneck.

Aliás, Werneck fez parte da geração Suplemento, nos anos 60, a terceira a seguir o rito de escalar o Viaduto de Santa Teresa. “Não faltou quem macaqueasse as turmas do Drummond e do Fernando Sabino, inclusive subindo nos arcos do viaduto. Eu fui um deles, morto de pavor. Que eu saiba, ninguém escreveu sobre isso”, diz o escritor, jornalista e “alpinista” Humberto Werneck.

(Foto: Vítor Coutinho)

(Foto: Vítor Coutinho)

Surge um monumento cultural

Inaugurado em 1929, o Viaduto Santa Teresa foi projetado pelo engenheiro Emílio Baumgart, um expoente entre os profissionais das estruturas de concreto armado no Brasil, que atuou junto ao grupo modernista carioca, formado por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. A obra foi assunto muito debatido na época, principalmente a construção dos dois arcos parabólicos, com 52m de vão, 14m de altura e que consumiu 700 metros cúbicos de concreto. Tombado como patrimônio cultural, o Viaduto de Santa Tereza é considerado até hoje uma das mais importantes obras de arte de engenharia urbana do estado de Minas Gerais.

O Viaduto de Santa Teresa liga o centro comercial de Belo Horizonte a bairros boêmios como Santa Teresa e Floresta e por ele passava a linha do extinto bonde de Belo Horizonte. Além disso, seu entorno envolve locais frequentados pelas gerações literárias de Carlos Drummond nos anos 20 e de Fernando Sabino nos 40, como a rua da Bahia, na qual fica uma das extremidades do Viaduto, e a Praça da Liberdade.

Quem conta um pouco mais a respeito é Humberto Werneck. “Nos dois quarteirões da rua da Bahia entre a avenida Afonso Pena e a avenida Augusto de Lima, havia um concentrado de vida boêmia e literária, com bares, cafés, livrarias, cinemas e redações de jornais. Já a Praça da Liberdade, onde ficavam o palácio do governo e as secretarias estaduais, era um lugar bonito, tranquilo e seguro para papear noite adentro. A turma de Drummond batia ponto ali. A de Fernando Sabino – o famoso quarteto que Mário de Andrade, encantado, chamou de “Os Vintanistas”, integrado também por Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino – também se apropriou da Praça da Liberdade, em cujos bancos, de madrugada, os quatro se entregavam, às vezes, a graves papos filosóficos, praticando aquilo que um deles, o Hélio, futuro psicanalista, chamou de “puxar angústia”.

Minas não há mais

“Com a chave na mão / quer abrir a porta, / não existe porta; / quer morrer no mar, / mas o mar secou; / quer ir para Minas, / Minas não há mais. / José, e agora?”. Essa estrofe do famoso poema “José”, de Carlos Drummond de Andrade, resume um pouco a melancólica sensação de que literatura não há mais sobre o Viaduto de Santa Tereza. Atualmente, a única manifestação cultural no local é o Duelo de MCs, realizado em um espaço montado embaixo do viaduto. Muito pouco se comparada à sua importância histórica.

Graduado em letras pela UFMG, Lúcio Coelho Costa, é autor do estudo “Interação sociedade-espaço urbano no contexto cultural em Belo Horizonte”. Em seu texto, Lúcio afirma que o espaço sob o viaduto não tem um aproveitamento total de seu potencial enquanto local voltado para atividades literárias. “Foi projetado um Largo dos Poetas, que nunca foi realizado”, aponta.

Lúcio acredita que o que mais falta no Viaduto de Santa Tereza é a existência de eventos que valorizem sua tradição histórico-literária e que possam vir a valorizar também a produção e a recepção da literatura contemporânea.
“Não são realizados saraus, shows multimídia, apresentações de videopoemas, lançamentos ou feiras de livros, eventos que poderiam contribuir para uma possível difusão da literatura. Mesmo não sendo um produto da cultura de massa, a literatura precisa encontrar formas alternativas de atingir o público”, diz Lúcio.

 

(Publicada na edição #04, setembro/outubro de 2012)