“Se eu cair, antes de me ajudar, tire uma foto”. O pedido é de Paulo Evandro, que se esforça para caber dentro de um vestido justo e longo, talvez uns dois números menores que o dele. Em Gazelle, o figurino parece ótimo – apropriado para ir a maior fashion week do mundo, em Nova York.

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(Foto: Sergio Caddah)

 

Paulo e Gazelle são pessoas diferentes em um mesmo corpo. “Na verdade, Paulo é uma pessoa calma, às vezes tímido, porém bem seguro de si. Gazelle é a sua extensão artística completamente triplicada para o plano surreal”, quem explica é o seu próprio autor: criador e criatura dividem uma mente inquieta e sensível. “Se encontram em frente ao espelho, onde a verdade nunca se esconde”.

Aos 45 anos, o comissário de bordo brasileiro virou figura central em um documentário de 93 minutos, dirigido por Cesar Terranova. Em 2010, quando estudava produção de documentário na New York Film Academy, Cesar queria conhecer o responsável pela Gazelland, uma revista underground que descobriu na internet, quando morava na Polinesia Francesa. “Eu fiquei encantado pela mistura de arte, noite, fashion e fotografia contemporânea e comprei todas as edições disponíveis online”, lembra o documentarista. “Que surpresa descobrir que a pessoa por trás daquele universo era um brasileiro e que, portanto, talvez eu tivesse alguma chance de me aproximar pra um possível documentário”.

(Foto: Sergio Caddah)

(Foto: Sergio Caddah)

Através de uma amiga em comum no facebook, os dois se adicionaram, trocaram mensagens e marcaram um café. Começaram a filmar naquele mesmo ano, a princípio, para um pequeno curta, um dos projetos de Cesar na NYFA. “Mas a história da revista acabou dando espaço a história de Paulo Gazelle, revelando um personagem intrigante e cheio de vida”, diz Terranova. “E aqui estamos, cinco anos depois”.

Gazelle – The Love Issue teve sua première mundial no Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, que ocorreu em São Paulo, em novembro de 2014. Chegou levando o prêmio de Melhor Longa Nacional, desbancando títulos como “Favela Gay”, de Rodrigo Felha, e “Cassia”, de Paulo Henrique Fontenelle, que retrata a vida da cantora Cassia Eller – nada mal para um diretor principiante e um protagonista fora dos padrões.

Se fictício, talvez, Paulo não fosse um personagem tão fascinante quanto o real. Ele nasceu em Teresina, filho de Maria Marlene Borges e Francisco Vieira Araújo. O casal se conheceu no Rio de Janeiro, quando faziam faculdade: ela, engenheira agrônoma, ele, veterinário.

Paulo, o primeiro de três irmãos, estudou em colégios católicos e saiu de casa ainda jovem – foi morar no Rio de Janeiro levando na mala um sonho: ser comissário de bordo. “Eu sempre achei que moraria em Londres”, diz. “Mas no Rio, onde morei por uns cinco anos, apareceu uma oportunidade de ir para os Estados Unidos e não deixei passar”, relembra. “Eu tinha 22 anos quando cheguei em solo americano”.

Quando entrou para a aviação, Nova York virou seu endereço – entre a vida ponte aérea que levava. “Depois de voar por muitos anos, comecei a trabalhar na porta do clube Crobar ja produzido de Gazelle”. O apelido, revela no documentário, foi inventado por um amigo brasileiro que dizia “você anda parecendo uma gazela”. Na cidade que nunca dorme, Gazelle dizia quem podia ou não entrar na boate.

Nos anos 1990, Gazelle elevou o termo “Club Kids” para “Freak Chics”, ao se referir a criaturas da noite, que já não carregavam somente uma fantasia, mas sim um conceito por trás de seus trajes. A notoriedade veio com seu fotolog (numa era pré Instagram) e o começo da publicação Gazelland, em maio de 2005. A revista estendeu sua performance para o design criativo, a fotografia, a produção visual, com documentação de artistas das comunidades gay de Londres, Nova York e São Paulo.

(Foto: Sergio Caddah)

(Foto: Sergio Caddah)

A moda sempre foi a ferramenta para as mensagens de Gazelle – figura certa nos eventos sociais, que nunca repete um look e frequenta a noite com desenvoltura – apresenta-se com classe, conhece todo mundo, mas é bom não bancar a íntima. “Desde pequeno, sempre estive rodeado de estética e moda”, comenta Paulo. A memória da infância e juventude o traz de volta a Teresina, ao casarão onde a família recebia amigos. Toda a efervescência das artes visuais, arquitetura, moda e carnaval naquele início dos anos 1980 na capital piauiense frequentou a sua casa: Hostyano Machado, Otacílio Fortes, Osmir Pierot, Maria Hilda Monteiro. “E também todo o ambiente sofisticado da família Ramalho, a qual fomos vizinhos por toda a vida”, comenta o intérprete de Gazelle. “Julia Ramalho era uma das minhas referências visuais mais absurdas daquela época”, relembra. “Estava sempre impecável a qualquer hora do dia, entrando ou saindo de seu Landau branco ou de um Ford Del Rey cor salmão”.

Montado embaixo de camadas e camadas de roupas, chapéus exóticos e muita make, o eu profundo de Paulo, apaixonado, sensível e frágil, só consegue mesmo ser capturado pelas lentes de Cesar. “Sua sensibilidade bateu com a minha”, acredita o protagonista. “Cesar teve o respeito e cuidado para que o que fosse mostrado na tela fosse absolutamente real perante toda a complexidade”, admite com admiração. “Ele me entendeu como pessoa”.

No último abril, Gazelle – The Love Issue foi exibido pela primeira vez em Teresina, no Teatro do Boi, dentro da programação da Parada de Cinema. Sala lotada e na plateia uma telespectadora especial: Marlene, a mãe de Paulo, foi acompanhada do filho Carlos Eduardo e da nora para ver o Paulo Evandro (é assim que ela faz questão de chamá-lo) na telona. Emocionada, não escondeu a admiração. “Tenho uma relação ótima com o meu filho e sei tudo sobre ele, mas nunca imaginei que sua vida desse um filme porque não fazia ideia da extensão de sua arte”, diz a criadora do look usado por Gazelle na Parada Gay de 2007. “Eu viajei daqui levando uma saia imensa para ele”.

Marlene define o filme como uma produção bela e triste. “Gostei de todo o filme, mas alguns trechos me tocaram mais como a parte em que meu filho diz que tudo que ele ama vai embora”, pausa, antes de completar. “Eu nunca soube que a venda da nossa casa mexeu tanto com ele”, diz, três anos após a família decidir desfazer-se do imóvel com quatro suítes onde os três irmãos cresceram na zona Leste de Teresina. Para ela, a produção é fiel ao mostrar Paulo como uma pessoa solitária, às vezes triste, que no entanto não disfarça a alegria e a vontade de viver. “Porque isso ele sempre foi: dono de si”, orgulha-se. “Ninguém freia ele”.

 

(Foto: Sergio Caddah)

(Foto: Sergio Caddah)

A morte do amor

Love Issue era o nome da edição da Gazelland que Paulo acabou não publicando até o começo das filmagens do documentário. “Eu estava fazendo algo sobre amor e todos estavam falando sobre coisas que amam. E eu fazendo algo que eu amo mas, não estava amando”, diz em um dos diálogos mostrados no filme. Paulo Gazelle tinha um namorado que morreu. Tinha um tesão por uma revista que acabou antes da última publicação. Tinha uma casa em Teresina que amava. Tinha saúde.

Em outro momento vemos nosso personagem principal no médico, anos após constatar que era soropositivo – ele precisava tomar medicamentos pois sua saúde debilitou-se. Na construção do filme, é a quebra do glamour, fundamental para capturar a essência de Paulo. “O diagnóstico do HIV trouxe à minha vida uma apreciação maior a tudo”, diz o mentor de Gazelle. “E também o entendimento de que eu errei. Eu achava que era invencível”.

O desejo de Paulo era mostrar que, por trás de todo o brilho, purpurina e glamour de sua vida, há também a máxima de aproveitar cada momento como se fosse o último. “Que o filme servisse para mostrar que devemos valorizar as pessoas que amamos, porque elas podem não estar mais lá daqui a pouco, e posso falar porque vivi isso”. Paulo foi casado por sete anos com Eric, que morreu em 2006, no dia do aniversário de casamento deles. “Com ele foi-se todos os momentos em que eu poderia ter demonstrado e dito para ele o quanto ele foi importante para mim. É tarde, mas, de alguma forma, o filme me dá a oportunidade de fazê-lo”.

Circulando

Filmado até o carnaval de 2013, no Rio de Janeiro, Gazelle – The Love Issue passa por Paris, Barcelona, Milano, São Paulo, Teresina e Polinesia – onde Gazelle executa uma performance na Laguna da Ilha de Moorea, próximo ao Tahiti.

Toda a produção levou quase cinco anos. “Foram testados todos os limites, estilos e formatos para que a mensagem fosse o mais universal possível”, diz Cesar Terranova, que recebeu elogios da crítica especializada sobre a técnica nada invasiva que utiliza nas filmagens. O estilo quase invisível do diretor interfere o mínimo possível na narrativa do personagem, deixando espaço para a história principal.

Outra preocupação, aliás, foi não deixar que a mensagem principal do filme fosse camuflada por questões como a noite, o preconceito, a vida gay ou o HIV – para o diretor, o foco estava mais na luta pessoal de cada indivíduo – representado na excêntrica figura de Paulo – contra as adversidades que o destino lhe reserva. “Paulo é um artista, um comissário de bordo, um criador, uma referência artística na comunidade de Nova York e acontece de ele também ser gay”, observa o diretor, acrescentando que o trabalho com Gazelle sempre falou além das barreiras e guetos onde ele é aceito. “Trazer isso para o filme foi o maior desafio”.

Após passar por Indonésia, Canadá, Texas, Holanda, e Ohio, em maio, o filme será exibido no Festival Internacional de Filmes de Saint Tropez, na França, onde concorre nas categorias de Melhor Documentário, Melhor Edição e Melhor Produção. Em julho, estará na programação do Festival Internacional de Madrid.

 

(Publicada na Revestrés#19)