Cabelo de índio, olhos de índio, mas a barriga não é tão de índio assim “para decepção das pessoas”, brinca Daniel Munduruku. Ele carrega, dos ancestrais, traços da fisionomia de um povo intitulado na sociedade como “índio”. Mas afirma que a palavra não diz o que ele é: diz sobre o que as pessoas acham que ele é. 

De origem munduruku, o indígena busca contar a história de seu povo, numa tentativa de aproximação entre as culturas. A saída de sua aldeia em Belém, no Pará, foi marcada pela decisão de abrir mão da vida comunitária em sua cultura “para poder fazer frente, para poder estudar e me formar”, diz. Hoje, autor de 52 livros voltados para o público infanto-juvenil, é um dos maiores escritores da literatura indígena no Brasil, além de educador e contador de histórias. 

Foto-colagem: Maurício Pokemon

Para chegar aos títulos acadêmicos e ter um trabalho reconhecido, conta que teve que percorrer todos os caminhos que o sistema diz que é preciso fazer. “Hoje sou ouvido, tenho reprodução naquilo que faço e escrevo, exatamente em função de ter entrado nesse sistema acadêmico, ter desenvolvido uma fala alicerçada, tanto de saber ancestral quanto no saber acadêmico”, pondera o doutor em Educação pela USP.  

Os discursos criados pelas elites portuguesas que comandavam o país sempre foram mais potentes e acabaram convencendo a sociedade de que as populações indígenas são atrasadas

Com sua literatura, tem intenção de exercer função educativa. Lamenta que o Brasil tenha uma dívida histórica muito grande com os povos indígenas por ter grandes dificuldades em tratar sua aproximação com a sociedade brasileira, e por encará-los como uma espécie de atraso cultural. “Tenho buscado que essa aproximação seja possível, que a gente consiga apresentar para as crianças e os jovens uma cultura indígena que não é estranha, que não é esquisita, não é extraterrestre, mas, sobretudo, é uma cultura humana”, considera. 

Os povos munduruku estão presentes em três estados do Brasil: Mato Grosso, Amazonas e Pará. Hoje, no país, existem 305 povos indígenas diferentes se comunicando em 274 línguas, segundo Daniel Munduruku. Sobre o pensamento de alguns setores da sociedade de que eles atrapalham o progresso do Brasil, ele afirma que isso vem da ideia de que “ser índio é estar no passado, é não estar no presente, é não ser contemporâneo”. 

Ao contar histórias e escrever para crianças e jovens, entende que eles são mais abertos para conhecer e aprender sobre a cultura indígena que os adultos, que já tem uma visão estereotipada e preconceituosa. Suas primeiras obras surgiram das muitas perguntas que as crianças faziam sobre como era a vida dos indígenas na aldeia. Para ele, mostrar essa história a partir da visão do indígena é muito importante para repercutir os saberes dos primeiros habitantes do país na sociedade. 

 

A última fronteira a ser conquistada

O trabalho de Munduruku na literatura representa também a luta dos povos indígenas pelo seu lugar de fala. Para ele, a história contada pelo “homem branco” deixou para os povos indígenas os rodapés dos livros. “Foi criada uma visão romantizada das populações, criou-se uma imagem que foi sendo reproduzida e atravessou o tempo de forma equivocada”, diz. “O índio comemorado no dia 19 de abril é uma festa para o folclore”. 

Quiseram fazer com que os indígenas deixassem de existir, e não conseguiram. Agora querem colocar em prática o que as polícias militares não conseguiram nos anos 1960 e 1970”.

Munduruku argumenta que os discursos criados pelas elites portuguesas que comandavam o país sempre foram mais potentes, e acabaram convencendo a sociedade de que as populações indígenas são atrasadas. “Um puro equívoco, não do povo brasileiro, mas daquelas elites que sempre quiseram comandar”, condena. 

Quase 520 anos depois os povos indígenas ainda travam lutas por territórios e direitos. “Os povos indígenas estão sendo perseguidos, massacrados, às vezes fisicamente, às vezes moralmente e às vezes territorialmente, como é o caso das invasões, das políticas que estão sendo desenvolvidas para permitir a exploração mineral em terra indígena. A mais recente é a que permite o plantio de cana-de-açúcar na Amazônia”, conta. Ele diz que, desde o começo de 2019, quando o governo de extrema-direita assumiu, passou-se a defender que as terras indígenas são a última fronteira a ser conquistada. “Isso vem acontecendo desde os anos 1960, quando os militares assumiram e quiseram fazer com que os indígenas deixassem de existir, e não conseguiram; mas agora, com a mesma vitalidade suja de governo, querem colocar em prática o que as polícias militares não conseguiram nos anos 1960 e 1970”, menciona. Ainda afirma que existe essa proposta porque os indígenas representam “a última reserva moral que o Brasil ainda possui e que faz enfrentamento”. As histórias contadas na literatura indígena são hoje, para o escritor, uma das melhores formas de aproximar as culturas e a diversidade de povos. 

E para que todos os brasileiros possam ser vistos de forma igual, apesar de suas diferenças. 

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