Do clamor repentino, a dor: “mãe!”, chamou o menino, mas não completou a frase. Veio em seguida um estrondo, todo mundo nas redondezas ouviu. Eram os dedos do policial no gatilho, a bala alcançando em cheio a cabeça do garoto de 10 anos. O grito da mãe em torno do corpo coberto de sangue correu o mundo. Apertou o coração de muita gente, gerou revolta, virou notícia. Caía a tarde de quinta-feira da Semana Santa, dois de abril de 2015, e em pouco tempo a comoção coletiva pelas vítimas da guerra contra o tráfico no Rio tomava impulso. Só no conjunto de favelas do Alemão, na Zona Norte carioca, já se somavam quatro mortes em dois dias seguidos. A criança na mira da arma foi o estopim, e #SomosTodosComplexo virou o símbolo de um movimento online que cobriu as redes com o preto do luto. No entorno do morro, ruas acesas por uma multidão reunida em protesto; o alarido da indignação preenchia as faixas, os cartazes e as rimas das palavras de ordem.

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Dentro e fora das vielas do Complexo, toda a gente ficou sabendo que uma mulher franzina, cria de um estado distante, perdeu um filho entre um suspiro e um disparo de fuzil. Nem toda a gente sabe ou lembra que seu nome é Terezinha, escrito sem h depois do t e com z no final, como manda a grafia do registro de nascimento. Terezinha Maria de Jesus é empregada doméstica, tem 41 anos e não nasceu e cresceu na favela, como na história de muitos que constroem a vida nos morros do cartão-postal. Aos 17 anos, arrumou a primeira mala, deixou a cidade de Corrente, no sul do Piauí, onde nasceu, e foi cuidar dos filhos dos outros em Brasília. Precisava de dinheiro para sustentar o seu próprio, Leonardo, o primeiro, que aos dois anos ficou nos braços da avó. Na bagagem, além da roupa, a coragem, uma fotografia do pequeno e o pouco entendimento das letras escritas, à altura de quem completou o ensino fundamental.

Eduardo de Jesus Ferreira, o caçula de cinco filhos, nasceu no dia 17 de setembro de 2004, quando a família já morava ali mesmo, no Alemão, mas em outra casa. O encanto que sentia quando ouvia alguém abreviar para “Dudu” o vocativo masculino, fez Terezinha resolver que “ao próximo filho, daria o nome de Eduardo, para poder chamar de Dudu”. A infância ao alcance do mar soava em tudo diferente daquela vivida pelos pais, mas as brincadeiras preferidas eram semelhantes às de qualquer criança do quinto ano: jogar bola, andar de bicicleta e brincar no videogame.

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Depois de um ano vendo Eduardo somente quando fechava os olhos para dormir, que só em sonho a imagem do menino aparecia, Terezinha caminhou morro adentro até a porta da casa em que morava, para onde nunca mais havia voltado desde o rescaldo da tragédia. Era manhã de sábado, exatamente dois de abril. Um grupo de pessoas se aglomerava em frente ao Colégio Estadual Jornalista Tim Lopes, na Estrada do Itararé, para um ato cuja finalidade era levar arte ao beco onde Eduardo foi morto. Terezinha estava à frente. Era a imagem do desconsolo e, ao mesmo tempo, da força. Vestia calça jeans e camisa branca com a foto do filho, adornada por um adesivo com os inscritos “Chega de homicídios”, da campanha Jovem Negro Vivo, da Anistia Internacional. Usava tênis, o cabelo preso, óculos escuros na cabeça e um par de brincos compridos e finos, de tom claro e tamanho mediano.

Passava das 10h da manhã, quando outras mães que enterraram os filhos mortos pela polícia, em diferentes favelas cariocas, começaram a elevar a voz, abrindo o manifesto. Exibiam faixas com as fotos dos meninos, uma delas ironizando os Jogos Olímpicos. “Essa é a Olimpíada do Rio de Janeiro, e é nisso que somos campeãs. Somos campeões de mulheres negras perdendo filho cedo”. Terezinha olhou de lado e disse, baixinho: “Essas são pessoas que têm a mesma ferida que eu tenho”, enquanto se posicionava entre as outras mulheres.

Ana Paula Oliveira, mãe de Johnatha Oliveira, morto por policiais aos 19 anos em Manguinhos, bradava com exaustão: “Eduardo está completando um ano desde que foi assassinado. É que nossos filhos não morreram, eles foram assassinados. As-sas-si-na-dos por quem tinha a obrigação de zelar pelas vidas deles. Criamos nossos filhos na maior dificuldade, sem os serviços básicos do Estado, e mesmo assim criamos, passando por cima de tudo. Nada é pior do que quando põem nossos filhos como criminosos. Só a gente sabe o que é acordar em um sábado de sol como esse e vir para cá. A gente vive despedaçada. Por isso não me calo”. Ana Paula articula a fala com pesar. É uma das mães que mais conhecem de perto a mesma dor da mãe de Eduardo. “Nós conseguimos sorrir porque temos uma à outra”, comentou.

O grupo andava em direção ao Areal, onde ficava a antiga casa de Terezinha, e em poucos minutos o sol a pino já descortinava o suor no rosto de cada um. As kombis subiam a Avenida Itararé buscando e deixando gente. Os mototaxistas desciam as ladeiras às vezes com passageiros, às vezes sem, e a feira da Rua Joaquim de Queiroz, na Grota, por onde seguiam os manifestantes, cumpria o rito de todo sábado pela manhã. Perto do famoso ponto conhecido como Largo do Bulufa, que já foi sinônimo de muita festa para os moradores, Thainã Medeiros, morador do Complexo e um dos organizadores do ato, levantou um coro de reflexão. “Uma área que foi construída para lazer e que hoje está nesse estado”, falou, bem alto. Parados em frente ao coreto do Largo, todos olharam para trás. Diante da parede preenchida por uma infinidade de marcas de tiros, nada mais precisava ser dito.

No alto do coreto, os olhos de um menino observavam o movimento, fitando a faixa dianteira, em preto e amarelo, com a frase “Justiça para Eduardo”. Os ouvidos se concentravam nos gritos que compreendia pouco, puxados de forma intercalada. “Eduardo”, gritava alguém. “Presente!”, respondiam todos. “Johnatha!”, mais alguém. “Presente!”. Era um menino de oito anos a plateia mais atenta, os dois pés enfiados no chinelo de um super-herói infantil, a cabeça entre uma interrogação e outra. O corpo esguio em roupa de homem pequeno. “Essas pessoas são parentes de quem já morreu, não são?”, perguntou. “Onde a mãe daquele menino foi morar? Não quero mais ficar aqui, vou pedir para ela me levar com ela”, prosseguia.

Terezinha tem dormido pouco, e naquele dia havia levantado às 6h. Foi a primeira a chegar em frente à antiga casa. “Na quinta-feira, eu sonhei com o meu Eduardo, como se estivesse entregando o ovo de páscoa dele. Ele disse que estava feliz, que eu não me preocupasse. É por isso que eu não vou chorar. Ele me pediu: não chora, mamãe”, contou, próxima à escada onde o menino foi atingido. Quando calava, Terezinha mirava distante.

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Um olhar profundo, às vezes perdido e sério, foi companhia constante durante boa parte do trajeto. Menos quando chegou a neta, filha de Ana Flávia de Jesus, que seguiu morando no Rio. Nessa hora, tudo mudou. Foi o primeiro e mais explícito momento de delicadeza. A bebê recém-nascida nos braços, pequenina, e um sorriso largo que se apropriava do rosto da avó. Era o primeiro encontro das duas.

Já ali, ao fim da caminhada, as paredes no entorno do local onde Eduardo foi morto começavam a ficar coloridas, num convite à esperança e à alegria. Além das cores, uma placa com o nome “Beco Eduardo de Jesus Ferreira” também foi instalada na esquina da rua, em forma de homenagem. Era como se quisesse dizer: para que a memória de quem teve a vida encerrada de maneira tão brutal não desapareça.

Segundo Thainã Medeiros, a arte no local é uma forma de dar o recado de que aquele é o espaço da vida, não da morte. “O beco do Eduardo era um beco onde uma criança brincava antes de ser marcado como um beco onde uma criança foi morta. Não é a criança na rua que está errada, é a rua ser insegura para ela. Ressignificar o beco com cultura é disputar a memória na favela e dar um outro sentido àquele espaço. A rua é o lugar da arte”, afirmou. Os grafiteiros e artistas eram todos moradores da região, embora o grupo como um todo fosse formado por gente de diversos pontos da cidade. Gente que também doou tinta e tempo. “Nós do Coletivo Papo Reto arrecadamos o material e demos para a galera pintar. Depois ficamos sabendo que outras pessoas, em outras favelas, acharam bacana a ideia e quiseram replicar. Isso é maravilhoso”, lembrou Thainã.

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“Tem hora que eu fico pensando que tudo não passou de um sonho. Mas, infelizmente, durmo, acordo… e nada. Morreu…”, desabafou Terezinha, em entrevista à Revestrés. O corpo de Eduardo foi enterrado em Corrente, no sul do estado, para onde a piauiense vai voltar depois que resolver alguns trâmites do processo do filho no Rio. Cerca de um mês depois da morte, o pai abandonou a família. José Maria Ferreira pegou metade da indenização paga pelo Estado do Rio e voltou para o Ceará, sua terra natal. Depois de muitos meses sem entrar em contato, procurou a esposa há algumas semanas, dizendo que queria reatar. “Com certeza o dinheiro deve ter acabado, aí ele veio me procurar. Mas não quero mais saber, ele que não me ligue mais”, disse Terezinha.

O sol começava a se por na região do Complexo. Dentro de uma das cabines do teleférico, Terezinha seguia para a última parada – a missa dedicada ao filho. O ar já não era tão pesado sobre os seus ombros como no começo do dia. Os raios pintavam de um laranja suave seu semblante sereno. “Deus” era um complemento para toda frase que terminasse com a palavra “sozinha”. “Você veio sozinha?” “Eu e Deus”, dizia. Ninguém que ousasse insinuar que Terezinha fez algo “sozinha” ou que está “sozinha” deixaria de ouvir como resposta, em imediato e altivo: eu e Deus. “Se a gente não tiver fé, a gente não consegue sobreviver, não”, disse. Ao voltar ao assunto do ex-marido, foi questionada: então você está morando sozinha? “Eu e Deus”, retrucou. E rapidamente emendou, revelando o novo romance: “Mas Luiz chega do Piauí na terça-feira!”.