“Aqui não tinha água, não tinha comida, não tinha casa pra morar”. O relato da avó parece conduzir a neta a uma viagem no tempo, levando-a a um passado de miséria que ela não conheceu – mas que parece estar sempre à espreita, em um país marcado pela desigualdade.
A cena está nos primeiros minutos do filme “A fabulosa máquina do tempo” (2026), dirigido por Eliza Capai e todo filmado em Guaribas. A cidade, no sudoeste do Piauí, tem pouco mais de quatro mil habitantes e ficou conhecida nacionalmente ao ser vitrine, em 2003, do programa Fome Zero, no primeiro governo Lula. Àquela altura, o município registrava um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do país – não havia água, não havia comida e as crianças morriam de fome antes de completar um ano de vida.
Mais de duas décadas depois, meninas como Alice, Ana Vitória, Sophia, Manu, Joice e Larissa, todas entre 7 e 11 anos, são o novo retrato de Guaribas. Graças a políticas públicas de enfrentamento à extrema pobreza, elas nasceram em realidades muito diferentes das enfrentadas por suas mães e avós. Com água na torneira, comida no prato e a possibilidade de ir à escola, as crianças tiveram outra necessidade garantida: o direito de sonhar. E foi essa mudança subjetiva nas aspirações dessas meninas que o olhar sensível da cineasta Eliza captou.

Manu, uma das protagonistas do filme | Foto: Carol Quintanilha
O filme é resultado de muitos encontros de Eliza com Guaribas. Jornalista, foi ao município pela primeira vez em 2013 para apurar uma reportagem. O Brasil estava às vésperas de sair do Mapa da Fome pela primeira vez e ela percebeu que uma transformação estava em curso. “Saí em 2013 com a certeza de que voltaria para entender como seria a passagem de tempo em Guaribas”, diz em entrevista a Revestrés.
Eliza decide, então, contar essa história – a história da saída da miséria e da extrema pobreza – de uma forma diferente: a partir do olhar das próprias personagens. Munidas de câmera, luz e muita imaginação, as meninas mostram seu cotidiano, brincam de encenar, entrevistam suas mães e contam uma história, que podia ser de muita dor e sofrimento, de maneira lúdica e alegre. O filme também traz um recorte de gênero: nenhum homem aparece durante os 70 minutos da projeção. Foi uma escolha proposital da diretora. As crianças são meninas que começam a contestar o machismo estrutural frequente na realidade onde vivem.
O documentário estreou em fevereiro deste ano, no Festival Internacional de Cinema de Berlim, com a presença de Eliza e três das crianças. “Era a primeira vez que elas andavam de avião, a primeira vez de muitas experiências”, conta a diretora, para quem a estreia em Berlim abriu uma boa janela de exibição. A mais importante delas, no entanto, aconteceu em maio, na praça central de Guaribas – um cinema a céu aberto foi montado para que a população pudesse se ver na tela. “Foi a primeira sessão de cinema da cidade”, conta a diretora. “Estavam todas as meninas, familiares, vizinhos, amigos e elas puderam se ver de fora e se achar fascinantes”.
O filme enfrentou dificuldades para estrear em Teresina, a capital do Piauí. Em contato com os cinemas locais, a produção não conseguiu horários para a exibição do documentário – algo que gerou repercussão e debate sobre o espaço para produções regionais e nacionais nas grandes salas. “A fabulosa máquina do tempo” ganhou apenas uma exibição no Sesc Cajuína, no final do mês de julho, organizada às pressas. Com sessão lotada, muitas pessoas acomodaram-se como deu e, além do filme, acompanharam o debate com a diretora e duas crianças, Ana Vitória e Manu. O filme terá outra sessão no dia 9 de outubro na programação da 9° Parada de Cinema, no MIS.
Premiado em diversos festivais nacionais e internacionais, “A fabulosa máquina do tempo” chegou a ficar entre os seis filmes pré-selecionados para representar o Brasil no Oscar 2027. Apesar de não receber a indicação, o filme continua acontecendo e levando a importantes discussões. Num país prestes a ir às urnas em um dos pleitos mais difíceis dos últimos tempos, ver esse pedaço de Brasil nas telas pode ser fundamental para compreender o que está em jogo. “Eu sinto o filme como uma forma de discutir política no lugar sincero dela”.
Quando e como você conheceu Guaribas?
Em 2013 li o livro “Vozes do Bolsa Família – Autonomia, Dinheiro e Cidadania” (Unesp, 2013), um estudo dos primeiros anos de implantação do programa que falava como, nos lares mais empobrecidos do Brasil, começava um movimento de gênero, pelo fato da mulher ser a única pessoa da casa a receber algum dinheiro todo mês. E então eu vou, através de uma bolsa de jornalismo investigativo da Agência Pública, para Guaribas, que 10 anos antes tinha sido a cidade-piloto do Fome Zero – que, mais tarde, viraria o Bolsa Família. Esse é meu primeiro contato com Guaribas. Daí surge uma investigação, e o curta Severinas (2014), que vai também pro site da Pública, e depois eu realizo o No devagar depressa dos tempos (2014), já para festivais.
O que lhe chamou atenção e como surgiu a ideia para o filme?
Nessa primeira viagem, em 2013, me chamam atenção algumas respostas das mulheres e das filhas dessas mulheres que entrevistei. Eu escutei muito a frase “Eu vivi a escravidão”. Eram mulheres com menos de 30 anos que diziam ter vivido sem comida, muitas vezes só com uma muda de roupa, numa vida de muita miséria, que me diziam que, quando meninas, sonhavam em ter “um marido bom que lhe desse valor”. Ou seja, o próprio valor, o sonho delas, só poderia vir através do olhar do homem. Me chama muito a atenção que, ao contrário das mães, as filhas dessas mulheres eram meninas muito saudáveis, que tinham acesso à escola, a internet, faziam três refeições por dia, e os sonhos delas, quando perguntadas, eram sonhos de autonomia: boa parte dizia que não queria casar, que não queria ter filhos, e queriam ser advogadas, professoras, médicas. Era muito provável que essas meninas casassem, tivessem filhos, mas o simples fato dessa mudança subjetiva de sonho, já me parecia algo muito poderoso. Saí em 2013 com a certeza de que voltaria para entender o que estaria acontecendo e como seria a passagem de tempo em Guaribas.
Os sonhos dessas meninas eram sonhos de autonomia. Era muito provável que elas casassem, tivessem filhos, mas o simples fato dessa mudança subjetiva de sonho, já me parecia algo muito poderoso
Você contou em outra oportunidade que realizou oficinas com as meninas, para que elas pudessem entrevistar suas próprias mães. Como foi esse processo e o que ele traz de especial para o filme?
Quando conheço as meninas de Guaribas, em 2021, a gente começa a escrever projetos para conseguir realizar o filme. Neles, a proposta de oficinas de audiovisual, que era uma forma de ser uma contrapartida social, poder deixar alguma coisa com as meninas, algo que poderia beneficiá-las e, ao mesmo tempo, dividir o nosso amor por fazer cinema. Por outro lado, era uma forma de conhecê-las e começar a entender como a gente contaria a saída da miséria e o início do rompimento com o machismo estrutural pelo olhar delas. No desenho inicial eram cinco aulas focadas nas principais formas de fazer audiovisual documental. A gente começava com entrevistas, como escolher que história contar, como fazer um roteiro. A partir desse contato com esse pensar e fazer audiovisual, a gente vai entrando na ludicidade delas – e várias coisas que estão no filme surgem desses exercícios. Na aula de entrevistas, por exemplo, o dever de casa era entrevistar pessoas mais velhas: mães, pais, avós, e levar para a sala de aula. Aquela cena da Ana Vitória, em que ela conta que o pai dela e o pai da Sophia passaram fome… Isso nasce desse exercício, da devolutiva do dever de casa. A partir disso é que a gente vai com essas meninas gravar as entrevistas com as mães. Eu estava ali em um duplo papel: como diretora, e como professora delas, auxiliando-as a conduzir as entrevistas. Da mesma forma, os teatrinhos, a cena da igreja, do casamento, das fofoqueiras e da cobra, surgem dos exercícios das oficinas. Eu levava material de arquivo que tinha filmado em 2013 e, a partir disso, elas tinham que responder a essas situações com cenas. Era muito curioso porque, em geral, eram materiais que falavam desse machismo estrutural e, nas respostas, elas questionavam – de uma forma infantil, muito lúdica, mas muito pungente.

Exibição do filme na praça central de Guaribas, em maio | Foto: Divulgação
Nas oficinas surgiram materiais que falavam de machismo estrutural e, nas respostas, as meninas questionavam – de uma forma infantil, muito lúdica, mas muito pungente.
Após as viagens para exibição do filme pelo Brasil e fora do país, como está sua relação hoje com as crianças? Pode contar alguma passagem interessante dessa experiência?
Sinto que esse filme continua sendo feito. Quando a gente recebeu a notícia do Festival de Berlim – que era meu sonho de estreia, porque é uma janela muito grande para exibições em muitos festivais -, eu pensei: “as meninas tem que ir!”. Claro que seria impossível para um documentário independente viabilizar a ida de todas, são 14 crianças. Mas a gente conseguiu viabilizar a ida de três delas e de uma das mães. E é uma logística muito complexa – a cidade mais perto para tirar passaporte fica a oito horas de Guaribas. Era a primeira vez que elas andavam de avião, a primeira vez de muitas experiências. Era ainda o inverno mais rigoroso das últimas décadas em Berlim, então elas saem de uma realidade de sertão para um frio de neve. Eu fiz algumas aulas de inglês com elas antes, online, e falei que lá ia estar muito frio. “O que vocês acham que é muito frio?”, perguntei e elas falaram: “15 graus”, e lá ia estar menos 15! (risos). A gente imagina até onde a gente tem referência, né? Então foi esse lugar de abrir a percepção. E foi muito bonito quando elas entram pela primeira vez num cinema lotado, com mais de mil pessoas para verem um filme sobre elas. A recepção em Berlim foi muito calorosa. As pessoas rindo muito, teve aplauso no meio do filme, e elas ficaram muito emocionadas. Elas foram ganhando muita confiança nelas mesmas e entendendo que o que elas tinham pra falar era muito interessante e a recepção era muito positiva. E a gente continua viajando com elas. Algumas já foram para Goiás, outras para Recife – foi a primeira vez que viram o mar, a primeira vez que Ana Vitória entrou em um cinema e debateu. No dia seguinte a gente já estava em Brasília e foi uma sessão muito emocionante, porque tinham ministros lá, e tinham mulheres com histórias muito parecidas com a delas e que hoje ocupam espaços de poder – teve uma “máquina do tempo” dessas mulheres, que se viram no filme como as meninas; e das meninas entenderem quem elas podem se tornar. A gente torce e faz o maior esforço para que todas consigam ter pelo menos uma experiência de viagem.
Na sessão tinham mulheres com histórias parecidas com a delas e que hoje ocupam espaços de poder – teve uma “máquina do tempo” dessas mulheres, que se viram no filme como as meninas; e das meninas entenderem quem elas podem se tornar.

Eliza com as crianças na exibição em Guaribas | Foto: Divulgação
Na exibição do filme no Sesc de Teresina você contou sobre a dificuldade de estreá-lo no Piauí. Como foi esse contato com os cinemas locais e o que você acha que seria possível fazer para resolver este impasse?
Quando a gente montou a pré-estreia comercial do filme, queria fazer uma caravana com todas as meninas por vários cinemas e, economicamente, não tinha essa possibilidade. Com o curto orçamento que a gente tinha, tivemos que fazer escolhas. Existia sempre a escolha muito clara de privilegiar as sessões do Nordeste. Pensamos também que Brasília era importante, por ser o lugar onde se fazem as políticas públicas, tanto as registradas no filme, como o Bolsa Família, quanto as políticas para cinema independente, e esse é um filme que vem disso. O único lugar que tínhamos certeza que haveria exibição era Teresina, por ser a capital do estado onde filmamos. É uma história do Piauí. A gente fez contato, como fizemos com vários outros cinemas, e não foi possível realizar uma sessão. Inclusive a gente já estava com passagem comprada. Ficamos muito em choque quando o cinema não programou o filme, aí a gente pensou: tudo bem, vamos tentar uma única sessão de pré-estreia, podia ser qualquer horário no fim de semana. E foi dito que não poderia ser dado nenhum horário. Fiquei pessoalmente muito frustrada. Aí teve todo um trabalho da distribuição e da campanha de impacto, junto com a produção local. Conseguimos o Sesc Cajuína. E fui pra essa sessão achando que seria um fiasco, pela falta de tempo de organizar. Fiquei muito surpresa que não só estava lotada como permitiram a entrada de cadeiras extras, além da lotação. Foi muito calorosa a forma como a audiência recebeu o filme. E depois de um post que eu fiz contando essa história, um tanto incrédula do filme não estar entrando em cartaz em Teresina, a mídia do Piauí se articulou para falar sobre isso, porque não é um problema exclusivo do nosso filme. Escutei de vários produtores e realizadores locais essa dificuldade para exibir no próprio estado. Isso gerou uma mobilização. A gente quer muito passar em Teresina porque o que eu vi no Sesc foi as pessoas se reconhecendo na tela, relembrando a própria infância, de realidade dura por um lado e de sonhos grandes, por outro. Isso é algo que transforma nossa autoestima enquanto sociedade, enquanto cultura. É impossível competir com um “Homem-Aranha” em audiência, mas a gente não ter horários – e bons horários, vale dizer – como você pode falar que documentário não dá audiência? Não há ajuda da distribuição para que exista uma possibilidade do documentário dar certo em salas de cinema. Eu espero que o filme entre em cartaz em Teresina e que entre com algum bom horário.

Sessão lotara para exibição em Teresina | Foto: Mariele Rangel
Ser a favor ou contra o Bolsa Família significa você desejar que aquelas crianças estejam na escola, estudando e comendo, ou você preferir que elas estejam passando fome e no trabalho infantil.
Você fez um filme sensível e político sem, no entanto, colocar isso explicitamente. Isso estava em mente o tempo todo?
Acredito que todo filme é político, toda obra de arte é política, toda ação é política. A gente pode ter consciência sobre isso ou não, mas estar no mundo é um ato político. E eu, como documentarista que trabalha questões sociais e de gênero, busco, cada vez mais, ter consciência sobre o que estou falando, sobre quais debates quero levantar. Vejo os debates que se tem sobre o Bolsa Família a partir de um lugar profundamente desinformado e polarizado. Eu gravo em 2013, vejo pessoas que saíram da fome e, quando volto em 2021, reencontro essas pessoas de volta àquela situação – o Brasil estava de novo no Mapa da Fome, com os cortes de benefícios que houve nos governos Temer e Bolsonaro. Em “A fabulosa máquina do tempo” existe um desejo de fazer um debate honesto sobre o que significam políticas públicas. Ser a favor ou contra o Bolsa Família significa você desejar que aquelas crianças estejam na escola, estudando e comendo, ou você preferir que essas crianças estejam passando fome e no trabalho infantil. Distribuição de renda é sobre isso. O filme não cita o Bolsa Família em nenhum momento até os créditos – e isso foi muito discutido. A gente entendeu que era importante falar que o filme surge disso. Todas as meninas que o protagonizam recebem o benefício. Se entra um governo que corta o Bolsa Família, algumas daquelas meninas vão voltar pra miséria! É isso que significa.

Eliza, Manu e Ana Vitória na sessão com debate em Teresina | Foto: Mariele Rangel
Estamos às vésperas de uma eleição presidencial e as pesquisas apontam empate técnico no primeiro turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. O que espera para os próximos anos de Brasil?
Eu, como pessoa, cineasta, jornalista, não tem como não me posicionar politicamente. O que sei da campanha do Flávio é que na proposta de governo dele nem existe citação ao Bolsa Família – a gente viu o que o pai dele fez com o programa, as reduções, os cortes, a criminalização. Como se o problema do Brasil fossem pessoas que ganham menos que um salário mínimo para sair da miséria e não tantos outros problemas, como grandes fortunas sem serem taxadas, pensões de militares, que eles se beneficiam pessoalmente, tantos escândalos de corrupção nos quais o próprio Flávio está envolvido. Quando você vê pessoas que saem da miséria por projeto de um partido e depois voltam pra fome por falta de projeto de outro partido, e agora isso está sendo colocado numa situação muito tensa de empate técnico, isso me desespera. Para mim é muito claro que a gente vive uma guerra de narrativas empobrecedoras, cujo objetivo é fazer com que a gente odeie a política e não consiga entender o que, de fato, está em jogo. E o que está em jogo são pessoas terem o direito mínimo à cidadania ou uma situação de barbárie, onde se normaliza crimes muito crueis, como roubos de aposentadoria, assassinato de lideranças, lavagem de dinheiro e políticas internacionais para boicotar o nosso próprio país em nome de um grupo muito pequeno de pessoas, extremamente gananciosas e criminosas. Eu sinto o filme como uma forma de discutir política no lugar sincero dela. E meu voto é Lula.
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