Por Samária Andrade | Foto: André Gonçalves

“Eu roubei o lustre!” – ele confessa a traquinagem no momento em que nos parece mais feliz. “Psicologicamente eu não saberia explicar porque fiz isso”.

Paulo Henrique Couto Machado, 55 anos, é escritor, advogado, defensor público, historiador, poeta, contista e cronista. O episódio a que ele se refere diz respeito à venda da casa da família no ano de 1975. O antigo casarão, à rua Senador Teodoro Pacheco, 1193, é hoje um estacionamento. Foi lá, junto aos avós, que Paulo nasceu e morou até os 20 anos. Quando o crescimento do centro comercial de Teresina e as dificuldades financeiras da família se juntaram, a venda da casa se tornou inevitável. O jovem ficou tão angustiado que foi o último a deixar o local. Fechou a porta. Voltou a abrir. Num ímpeto, arrancou o lustre da sala e partiu em sua motocicleta.

Há quem duvide que ele tenha feito isso. Tudo bem. Deve haver quem duvide que ele teve 20 anos. Parece que sempre foi sério, sóbrio, discreto, tímido, inteligente. Tem traços serenos, mas não é. É inquieto por dentro. E também corajoso. Paulo Machado surpreende porque é muitos. Filho de uma costureira e um vendedor de caldo de cana na Praça Saraiva, muito cedo demostrou gosto pela leitura. Passou a ser presenteado com livros pelos avós e tios. Casou-se apenas aos 40 anos e não teve filhos biológicos, mas considera-se pai das “meninas” de sua “companheira” – como ele se refere.

Começou a escrever aos 17 anos. “Foi quando comecei a adquirir consciência política”. Ganhou alguns concursos de contos e passou a acreditar no que fazia. Escreveu em jornais, publicou livros de maneira coletiva e, em 1978, julgou-se pronto: às vésperas de completar 22 anos lançou “Tá pronto, seu lobo?” O livro de poemas com tiragem de mil exemplares – publicado com o dinheiro que ganhou nos concursos literários e com as aulas de português que ministrava em domicílio – foi outro ato de coragem. Pergunto se dá pra viver de escrever. Ele diz que não. “Mas não dá pra viver sem escrever”.

Paulo fez três anos de Medicina na Universidade Federal do Piauí. Depois abandonou esse curso e formou-se em Direito. Especializou-se em Direito Agrário e usou conhecimento e paixão para escrever “As trilhas da morte”, publicado em 2002. Trata-se de uma denúncia sobre a escravização e aniquilamento cultural que os povos indígenas sofreram no Piauí. “O mais cruento extermínio de nações indígenas da América do Sul”, afirma.

No livro, Paulo Machado não poupa ninguém. Conta a história da posse de terras no Piauí desde a chamada colonização até a década de 1980. Fala de empresários, grileiros, homens de “justiça”, políticos, imprensa, publicitários. Imagino que tenha tido grande repercussão. Ele nega. “Fizeram um pacto de silêncio. Mas eu dei minha contribuição”.

Paulo continua escrevendo muito e publicando pouco. Pesquisador incansável, é frequentador do Arquivo Público do Piauí e das lan-houses próximas à casa onde mora, no bairro Cabral. Defensor Público há 25 anos, atualmente está à disposição do Tribunal de Contas do Piauí. Pergunto se, no trabalho, as pessoas conhecem o Paulo escritor, o poeta, o inquieto por dentro. Ele dá-se conta de que não. Depois se apressa em completar que não culpa os colegas de trabalho. “Me sinto como duas pessoas”.

Ele é muito mais. Foi o que pensamos, sentados na varanda de sua casa, de onde não ousamos passar, apesar de intuirmos, para nossa felicidade, que ele gostou da gente. Pergunto se há algum lugar da casa parecido com ele em que possamos fotografá-lo. O escritor diz o “não” mais longo e triste daquele fim de tarde.

Como já dividimos um segredo e muitas histórias, Paulo se sente à vontade para ir buscar o lustre. Mostra-o feliz e conta que nunca instalou a peça em nenhuma casa onde morou, mas que ela o acompanha desde aquele dia em que ficou sem chão.

Quando nos despedimos, Paulo faz mais uma revelação: diz que pensou que nossa conversa seria de outro jeito, que nunca falou tanto de si. Eu, menos corajosa, não lhe revelo o que descobri: ele roubou o lustre porque o lustre é a sua casa.

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Texto publicado originalmente na revista Teresina, editada por Simone Castro e Igor Carvalho. Não há nota sobre a data de publicação, mas estima-se que tenha sido no ano de 2011. Agora, publicamos esse texto em Revestrés, por ocasião da edição 24 do Salão do Livro do Piauí (SALIPI), que faz homenagem ao autor.