Por Manoel Soares | Fotos: Victor Martins
Fazer rock em Teresina, hoje, é exercício para os fortes. Fazer rock autoral, sem concessões fáceis, exige algo a mais: obstinação, método e uma dose considerável de talento. No show realizado em 23 de setembro de 2026, pelo projeto Boca da Noite, no Espaço Osório Jr., a Artificial Complex provou possuir os três.

Érico Ferry com Bruna Oliveira, que acrescentou textura à sonoridade e equilíbrio à performance
A apresentação foi uma das melhores já realizadas pela banda e, sem exagero, uma das mais marcantes que o público do projeto pôde presenciar. Não apenas pela qualidade do repertório, mas pela coragem da escolha: das dez composições executadas, apenas “Na Sacada” e “Devaneio” já haviam aparecido anteriormente no repertório ao vivo.
O restante do set foi praticamente uma estreia coletiva.
Abrir uma apresentação com repertório desconhecido é sempre uma aposta perigosa. O público não dispõe da familiaridade que transforma refrões em comunhão instantânea. Não existem memórias afetivas às quais recorrer, tampouco a segurança de sucessos já testados. Cada música precisa conquistar seu espaço enquanto acontece. A Artificial Complex aceitou o risco e fez dele a principal força da noite.
A apresentação foi uma das mais marcantes que o público do projeto pôde presenciar. Não apenas pela qualidade do repertório, mas pela coragem da escolha: das dez composições, apenas duas já haviam aparecido no repertório ao vivo. O restante do set foi praticamente uma estreia coletiva.
O set começou com “Inícios”, seguida por “Flowers”, “Na Sacada”, “Summers”, “Devaneio”, “Bad Sounds”, “Homesick Summer”, “Love” e “Ashtray”. Ao final, “Closer”, do Nine Inch Nails, encerrou a apresentação como uma espécie de assinatura estética. Não exatamente uma explicação, mas uma pista deixada no local do crime.
“Na Sacada”, ainda pertencente ao período em que a banda se chamava Fryer, representa uma ponte com o primeiro disco. “Devaneio”, lançada como single, era a outra composição já conhecida. Em torno delas surgiu um corpo de músicas novas, apresentado não como esboço ou laboratório público, mas como obra pensada para o palco.
Esse detalhe importa.
É comum confundir espontaneidade com despreparo, especialmente em cenas musicais nas quais artistas muitas vezes sobem ao palco sem roteiro, dramaturgia ou ensaio direcionado ao espetáculo. A Artificial Complex seguiu pelo caminho oposto. Cada elemento parecia submetido a uma ideia central, da ordem das canções às transições responsáveis por ligar uma faixa à seguinte.
Essas ligações criaram uma camada sonora contínua durante a apresentação, evitando os silêncios constrangedores que frequentemente quebram o clima de um show. Em vez de músicas isoladas, havia uma narrativa sonora. O palco não precisava recomeçar a cada poucos minutos. O espetáculo simplesmente avançava.
Érico Ferry falou pouco e manteve uma presença discreta. Não havia espaço para discursos longos ou tentativas artificiais de animar a plateia. Diante de tantas músicas apresentadas ao público pela primeira vez, era necessário privilegiar a precisão.
A postura da banda acompanhou essa concepção. Érico Ferry falou pouco e manteve uma presença discreta. Não havia espaço para discursos longos ou tentativas artificiais de animar a plateia. A escolha parecia consciente: diante de tantas músicas apresentadas ao público pela primeira vez, era necessário privilegiar a precisão.

Érico Ferry: precisão não significa frieza
E precisão não significa frieza.
A Artificial Complex tocou com a concentração de quem sabia estar se equilibrando sobre uma corda esticada. As canções ainda não possuíam a memória muscular adquirida depois de dezenas de apresentações. Mesmo assim, foram executadas com segurança, unidade e evidente preocupação com a experiência do público. A discrição, nesse contexto, não diminuiu o show. Deu-lhe foco.
Um núcleo que resiste
A história recente da Artificial Complex tem sido atravessada por mudanças de formação. Ainda assim, seu núcleo permanece intacto. Érico Ferry continua sendo o compositor, letrista, guitarrista e vocalista, além de funcionar como centro gravitacional do projeto.
Para a apresentação no Boca da Noite, uma nova guitarrista foi incorporada às pressas. Sua participação, no entanto, esteve longe de soar emergencial. Com eficiência discreta e presença charmosa, Bruna Oliveira acrescentou textura à sonoridade e equilíbrio à performance.
A opção por utilizar uma drum machine também se revelou acertada. Em vez de testar um baterista de última hora e colocar em risco a coesão do repertório, a banda incorporou a programação eletrônica à arquitetura do show. A máquina não apareceu como remendo. Funcionou como elemento estético e deu às músicas uma pulsação compatível com o universo da Artificial Complex.
Em bandas ligadas ao pós-punk, à música industrial, ao synthpop e às regiões mais sombrias do rock alternativo, a rigidez eletrônica pode possuir tanta expressividade quanto uma bateria acústica. O que determina sua força não é a presença de um corpo batendo nos tambores, mas a inteligência com que o pulso é empregado. No Boca da Noite, a escolha reforçou o caráter urbano, noturno e meticuloso das composições.
As guitarras deixaram de disputar espaço com os teclados e passaram a conversar com eles. Em vez de uma massa sonora indiferenciada, ouviu-se um arranjo de tensões, contrastes e complementaridades. A Artificial Complex compreende que peso não depende apenas de volume.
Já o baixo de Izidio serviu como musculatura. Poderoso, mas não excessivo, trouxe profundidade e movimento às músicas. Em “Bad Sounds”, ganhou um groove particularmente saboroso, próximo de uma levada funk, sem romper a atmosfera construída por guitarras e os ótimos sons extraídos dos sintetizadores do discreto e preciso Luiz Uchôa.
Essa combinação está cada vez mais afinada. As guitarras deixaram de disputar espaço com os teclados e passaram a conversar com eles. Em vez de uma massa sonora indiferenciada, ouviu-se um arranjo de tensões, contrastes e complementaridades. A Artificial Complex compreende que peso não depende apenas de volume. Às vezes, uma linha de sintetizador bem posicionada pode ser mais ameaçadora do que uma parede de amplificadores.
Pop para depois do fim da festa

Artificial Complex: peso não depende apenas de volume
É difícil definir as músicas da Artificial Complex. Não porque sejam esquisitas, herméticas ou de audição penosa. Muito pelo contrário. A dificuldade nasce da quantidade de elementos absorvidos e da naturalidade com que eles aparecem reorganizados.
Existe experimentação, mas também uma veia pop evidente. Não o pop tratado como fórmula industrial, e sim aquele sentido melódico que permite a uma canção permanecer na cabeça sem precisar implorar por atenção. É um talento menos comum do que parece.
“Devaneio” e “Homesick Summer” possuem estruturas e melodias capazes de circular pelas melhores rádios de pop-rock do mundo. Eu falei do mundo, sim! São músicas acessíveis sem serem óbvias, sofisticadas sem exibicionismo. Entram com facilidade, mas deixam detalhes suficientes para recompensar novas audições.
“Flowers” e “Bad Sounds”, por sua vez, poderiam atravessar o Atlântico e encontrar acolhida imediata entre o público pós-punk londrino. Há nelas o rigor rítmico, a atmosfera e o senso de urgência que marcaram diferentes renascimentos do gênero. Ainda assim, não parecem exercícios de reprodução histórica.
Existe experimentação, mas também uma veia pop evidente. Não o pop tratado como fórmula industrial, e sim aquele sentido melódico que permite a uma canção permanecer na cabeça sem precisar implorar por atenção. É um talento menos comum do que parece.
As influências estão presentes. The Cure, David Bowie, Nine Inch Nails, Interpol, White Lies, Depeche Mode e Molchat Doma formam parte do mapa possível. Outras referências certamente poderiam ser identificadas, dependendo do ouvido e da discoteca de quem escuta.
Mas influência não é sinônimo de cópia.
A Artificial Complex absorve essas linguagens, mistura seus códigos e devolve tudo com personalidade. As referências não aparecem como fantasias vestidas para uma noite temática. Estão metabolizadas. Fazem parte de uma musicalidade que reconhece sua linhagem, mas não aceita viver à sombra dela.
Esse talvez seja o maior mérito de Érico Ferry como compositor. Ele conhece os territórios pelos quais transita, mas não se limita a reproduzir suas paisagens. Suas canções possuem a melancolia elegante do pós-punk, a tensão mecânica da música industrial, a sensualidade escura da synthpop e a clareza estrutural do bom pop-rock. Ainda assim, pertencem à Artificial Complex.
A versão de “Closer”, apresentada no encerramento, tornou explícita uma influência que já circulava pelo ambiente. A composição do Nine Inch Nails surgiu como ponto final coerente, não como cover incluído para conquistar simpatia. Depois de um repertório quase inteiramente novo, a canção funcionou como uma chave estética oferecida ao público. Uma forma de reconhecer uma ascendência sem se ajoelhar diante dela.
O respeito de uma plateia surpreendida
A reação do público acompanhou a progressão do show. A cada música, admiração, surpresa e respeito tornavam-se mais evidentes. Não era apenas entusiasmo diante de uma banda conhecida. Havia a sensação de descoberta.
A Artificial Complex não costuma frequentar os palcos com regularidade, e essa ausência contribuiu para o impacto da apresentação. Em vez da acomodação de quem repete semanalmente o mesmo espetáculo, havia intensidade concentrada. O palco parecia receber uma banda que sabia não possuir oportunidades a desperdiçar.
O resultado foi uma noite cuja importância ultrapassou o repertório apresentado. O público assistiu a um grupo em processo de transformação, enfrentando mudanças de formação e limitações práticas sem permitir que elas determinassem a qualidade artística.
A drum machine, a nova guitarrista, as transições planejadas, o baixo de Izídio, a combinação de guitarras e sintetizadores e a liderança de Érico Ferry convergiram para o mesmo objetivo. Nada parecia lançado ao acaso. E, no rock, o acaso costuma receber crédito demais por resultados que somente o trabalho é capaz de produzir.
Foi um ponto a ser comemorado em uma cena que possui talento, mas nem sempre trata o palco como espaço de construção narrativa. Um show não é apenas uma sucessão de músicas. É uma obra temporária, condenada a desaparecer assim que as luzes se apagam. Por isso mesmo, exige forma, ritmo e intenção. A Artificial Complex entendeu essa responsabilidade.
A apresentação também colocou em evidência uma questão maior. O profissionalismo não deveria ser tratado como luxo ou exceção, embora frequentemente seja percebido dessa forma. Preparar um roteiro, ensaiar para as características específicas do espetáculo e pensar na experiência da plateia são partes fundamentais do trabalho artístico.
A Artificial Complex fez isso sem transformar cuidado em rigidez. O show respirou. Houve emoção, tensão e surpresa. A diferença é que todas essas sensações estavam amparadas por uma estrutura sólida.
Foi um ponto a ser comemorado em uma cena que possui talento, mas nem sempre trata o palco como espaço de construção narrativa. Um show não é apenas uma sucessão de músicas. É uma obra temporária, condenada a desaparecer assim que as luzes se apagam. Por isso mesmo, exige forma, ritmo e intenção.
Naquela noite, a Artificial Complex entendeu perfeitamente essa responsabilidade.
Fazer rock em Teresina permanece sendo tarefa para os fortes. Talvez também seja trabalho para os obstinados, para aqueles que insistem em criar mesmo quando as condições recomendariam recuo. Érico Ferry parece pertencer a essa espécie.
Não porque ignore o peso das referências, mas porque consegue carregá-las sem ser esmagado por elas. Em um gênero que raramente perdoa a mediocridade, a Artificial Complex apresentou uma música universal, criativa e profundamente pessoal.
Ao final de “Closer”, ficou a impressão de que o público havia testemunhado algo maior do que um bom show. Era uma banda reafirmando sua existência, reorganizando as próprias peças diante de todos e encontrando, no risco, uma nova forma de grandeza. Também fui testemunha. Me foi dito euforicamente por um dos maiores conhecedores do assunto, Erick Miranda: “Eu vivi pra ver Nine Inch Nails sendo tocado no Boca da Noite”.
Algumas apresentações terminam quando o último acorde desaparece.
Outras continuam dentro de quem estava presente.
Aquela pertenceu ao segundo tipo.
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Manoel Soares atua há mais de três décadas na comunicação visual e audiovisual. É publicitário, fotógrafo, diretor de vídeo, professor de fotografia e, hoje, DJ e produtor dos programas Sonória e Sonória – Black Edition. Em um movimento de permanente reinvenção, cursa Jornalismo. Antes de qualquer coisa, porém, é movido pela música. Ele ouve, faz e vive música.