Por Pedro Henrique Santos Queiroz

Estamos em alguma sala do Congresso Nacional em Brasília. O ano é 1978. O dia, 16 de fevereiro, uma quinta-feira. O presidente do Senado, Petrônio Portella, recebe o líder metalúrgico Luís Inácio da Silva, o Lula. Vemos a ambos de perfil: o senador arenista do Piauí e o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema estão frente a frente. Petrônio faz um gesto largo, com o braço estendido para trás e a mão direita aberta, como quem diz “entre, fique à vontade”. A postura corporal de Lula, no entanto, não é a de alguém que esteja à vontade: seus olhos miram para baixo e o paletó de brim cinza que segura com a mão esquerda mantida à altura do peito como um cabide parece servir como anteparo de defesa visando manter o interlocutor a uma certa distância. Petrônio veste um terno azul-marinho descrito com o adjetivo “irrepreensível” por um repórter da revista IstoÉ que presenciou o encontro. Lula, por sua vez, veste uma camisa listrada de manga comprida. Atrás de Lula, semi encoberto por sua sombra, há um homem de terno. Trata-se de Maurício Soares de Almeida, advogado do Sindicato, a quem Lula havia trazido consigo por motivos de “não quero ter depois a minha palavra contra a dele [Petrônio]. Prefiro conversar a três”. Atrás de Maurício, ao fundo, um homem alto, de barba e óculos escuros, cuja identidade desconhecemos (algum repórter, talvez? Um funcionário de gabinete?). A composição do cenário é dada pelas mesas de escritório que estão em segundo plano cobertas por papéis, pastas, aparelhos telefônicos e fios.  

Petrônio Portella, então presidente do Senado, recebe o líder metalúrgico Luís Inácio da Silva, o Lula. O senador arenista do Piauí faz um gesto largo, com o braço estendido para trás e a mão direita aberta, como quem diz “entre, fique à vontade”. A postura corporal de Lula, no entanto, não é a de alguém que esteja à vontade. | Foto: Luís Humberto

A imagem é do fotógrafo Luís Humberto e foi publicada pela primeira vez em matéria da revista Veja em sua edição de 22 de fevereiro de 1978. A mesma fotografia seria reutilizada por Veja na edição de 16 de janeiro de 1980 em matéria retrospectiva sobre a carreira de Petrônio Portella por ocasião de sua morte no dia 6 daquele mês e ano.  

Logo após essa breve recepção presenciada por repórteres de vários veículos de imprensa, Lula, Petrônio e Maurício seguiram para uma reunião a portas fechadas que durou 95 minutos. O encontro se dava no contexto de uma série de reuniões que Petrônio vinha tendo com representantes da sociedade civil desde setembro de 1977 com o intuito de retomar o rumo de “distensão” do regime pretendido pelo governo do general Ernesto Geisel. Desde então, Petrônio já havia recebido, para citar apenas alguns nomes, Dom Aluísio Lorscheider, presidente da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Raimundo Faoro, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e Domício Veloso, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Dois dias antes do encontro com Lula, Petrônio recebera uma comitiva formada por 26 sindicalistas paulistas liderados pelo arenista Jorge Maluly Netto, secretário do trabalho do Estado de São Paulo. Que Lula tenha sido recebido sozinho era, portanto, um sinal de prestígio. 

Lula e Petrônio estavam em momentos muito distintos de suas trajetórias. Petrônio tinha 53 anos e era um político experiente no auge de sua carreira. Representante de um dos Estados mais pobres da federação e opositor do golpe de 1964 num primeiro momento, chegara sete anos depois da instauração do regime à presidência do Senado, tendo sido também líder da bancada do governo e presidente do partido oficialista (ARENA). Lula, por sua vez, tinha então 33 anos e, embora já chamasse a atenção por algumas iniciativas inovadoras levadas à cabo pelo sindicato que dirigia (mobilização efetiva das bases, denúncia da política de arrocho salarial e propostas de revisão radical do modelo burocrático de representação), ainda não desabrochara como o orador capaz de fascinar multidões e negociador habilidoso que teria seu “batismo de fogo” no ciclo de grandes greves que estourariam no ABC paulista a partir de maio daquele ano de 1978. 

Durante o encontro com Petrônio, Lula restringiu sua fala ao script dos três pontos de um documento previamente elaborado e distribuído naquela ocasião à imprensa: 1) autonomia e liberdade sindical (o programa de abertura política ficaria incompleto se não acabasse com os mecanismos de controle dos sindicatos pelo governo); 2) contratos coletivos de trabalho (necessidade de livre negociação entre empregados e patrões, sem decreto unilateral pelo governo dos índices de reajuste salarial) e 3) fundo de garantia (reclamação quanto ao aumento da rotatividade de mão de obra e ao mal uso dos recursos do fundo em investimentos que não atendiam as prioridades da classe trabalhadora).  

Ambos saíram contentes do encontro. Em conversa com repórteres, Petrônio destacou aquela como mais uma demonstração de que o governo estaria aberto ao diálogo com todos os setores. Enquanto Lula se deu por satisfeito com o compromisso assumido por Petrônio de levar adiante suas reivindicações ao conhecimento do presidente Geisel. 

A reunião entre Petrônio e Lula não produziu nenhuma repercussão importante que alterasse significativamente os rumos da abertura política. O que ficou dessa tarde de fevereiro 1978 em Brasília foi apenas esse registro do encontro insólito entre dois grandes vultos da história política recente.  

Pedro Henrique Santos Queiroz é Doutor em Ciências Sociais e Mestre em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente reside em Picos (PI) e atua como professor substituto do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Publicado na Revestrés#47. 

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