Quando um homem letrista conhecido compõe uma canção cuja voz poética é uma personagem feminina, tende-se a atribuir ao poeta uma competência quase mítica de compreensão da chamada alma feminina. Essa leitura, hoje deslocada, pede cautela. As vozes das mulheres são plurais, atravessadas por experiências e fissuras que dificilmente se deixam capturar por um único dispositivo discursivo, seja literário ou de outra ordem.

 

Nós, homens, pertencemos a um gênero historicamente organizado em torno de privilégios, pactos, círculos de proteção e práticas que não dominam apenas a palavra, mas também o poder e o controle sobre corpos, gestos e pensamentos. Essa cultura patriarcal, reconhecida e nomeada por Luciana Tiscoski, é a prisão que nós mesmos construímos e que, em “Área de broca”, implode, conto a conto. O livro de Tiscoski, publicado pela editora Nave, em 2021, a despeito de sua arte e engenho peculiar, não é leitura para deleite. Tampouco objetiva uma experiência pedagógica no sentido literário do termo. A leitura de Área de broca oscila, para mim, entre um eco de Hilda Hilst, atravessado por algo de Artaud, e uma narrativa íntima que em certos momentos roça Clarice Lispector. O que parece começar como desbunde, no conto “Kakadu”, vai se adensando até deixar um gosto amargo persistente em “Les Nymphéas”. O livro não oferece conforto, nem alívio. Expressa confronto. Diferentemente do cancioneiro de compositores machos, Tiscoski não corre o risco de parecer pretensiosa ao desvelar a alma masculina. Ela o faz com muita propriedade, criando uma percepção cristalina de que homem é um bicho que ainda está longe de conviver respeitosamente com mulheres. E sem essa de “ah, mas nem todos os homens”, como apregoam alguns resolvidinhos.

As vozes das mulheres são plurais, atravessadas por experiências e fissuras que dificilmente se deixam capturar por um único dispositivo discursivo, seja literário ou de outra ordem.

Luciana Tiscoski entende com precisão o que faz do corpo da mulher um objeto do olhar masculino. E não retroalimenta esse olhar. Pelo contrário, recoloca os homens em seu devido lugar, mas não de forma complacente. Diante deles, instala um espelho bem iluminado, forçando o homem leitor a perceber que o lugar que ocupa produz medo e dor nas mulheres. Tiscoski nos decifra e nos devora, não para anular o que somos, mas para evidenciar que, agora, são elas que pautam a conversa e o debate. Assim é no livro. Assim talvez seja em algumas salas e praças. Ainda assim, a força bruta do macho segue produzindo dor, medo, morte e solidão. Não há saída sem escuta ativa e transformação. Mas não há esperança ingênua no livro. Há vida nua e crua.

Convém dizer com clareza: não é a literatura de Tiscoski que é cruel. Cruel é o homem que ocupa o centro de sua narrativa. É essa crueldade que o livro nos obriga a ver e que nos envergonha, ou deveria envergonhar a todos. A crueldade de comer com os olhos, humilhar, amedrontar, descartar, objetificar a mulher é uma crueldade que não cessa de retornar e que dói a cada passagem. O olhar cobiçoso é uma prática masculina recorrente e geradora de desconforto. Dito assim, parece óbvio. Mas o óbvio permanece interdito. A narrativa de Tiscoski rompe esse interdito e atravessa a alma dos homens que insistem em mandar calar as mulheres.

Tudo isso é escrito em um ritmo que produz imagens e sentidos muito precisos, ainda que vertiginosos. Ações e pensamentos se encadeiam com rigor nos contos. A extensão concisa, os pontos finais bem colocados, também dizem algo. Para bom entendedor, pingo é letra.

Nós, homens, pertencemos a um gênero historicamente organizado em torno de privilégios, pactos, círculos de proteção e práticas que não dominam apenas a palavra, mas também o poder e o controle sobre corpos, gestos e pensamentos.

Há ainda um aspecto decisivo em sua escrita. Nunca me interessou o gesto requentado de atravessar um espaço estrangeiro como quem produz o relato de um turista sofisticado, muito culto e cheio de si no letramento do mundo civilizado. Prefiro quem entra nos becos, conversa, se expõe à experiência com pessoas de carne e osso. A escrita de Tiscoski ganha força justamente aí. Quando Paris surge como espaço narrativo, não é o óbvio que está em cena. Sua narrativa se aproxima mais da matéria que se faz carne, como Olímpia, que de mármore passa a ser um corpo desejante, em seu conto “H, o colecionador”. Das “Passagens”, primeira parte do seu livro, onde seus personagens ora mergulham ora tentam escapar de suas patéticas subjetividades narcísicas, a narrativa vai tropeçando em buracos até cair em “Animalia”, segunda parte de Área de broca, também o título do conto que abre essa parte do livro, a qual nos conta, pelos olhares de insetos, toupeiras e cobras, os pecados que os noticiários preferem calar. Nos contos “Área de broca”, “Kinbaku” e “Liturgia ofídica”, são os bichos que testemunham a miséria humana. É quase um Kafka às avessas, só que ainda mais estranho que um humano transformado em bicho, porque nos contos de Tiscoski a via nua do homem é que está sob o juízo dos bichos.

Luciana Tiscoski instala um espelho bem iluminado, forçando o homem leitor a perceber que o lugar que ocupa produz medo e dor nas mulheres. Ela nos decifra e nos devora, não para anular o que somos, mas para evidenciar que, agora, são elas que pautam a conversa e o debate.

E como se não bastasse atravessar o purgatório e o fosso escuro do mundo, os contos abrem-se à glossolalia de mulheres com seus corações expostos na última parte do livro “Travessia-despedida”. Pulula e ulula, nos últimos contos, uma pletora de vozes que vem de longe, e vem caindo torrencialmente no conto “Chuvas”. Atravessam o conto “Morte de Virgílio nonada” as pessoas de Pessoa, filósofos do dasein e outros mequetrefes mais, em um tipo de happening beckettiano, até chegarem à “Construção do templo por mulheres públicas” onde dão de cara com santas e putas fazendo o seu legítimo sarau. Viva las muchachas! Confessa-se o desencanto com o heroísmo piegas do romantismo de Vitor Hugo e o elogio do mar de Mallarmé no conto “Sob a influência do câncer fleumático”. Ao final, deparamo-nos com a vertigem do museu das velhas novidades, no espanto ao ver os dedos de Caravaggio nos flancos de Jesus, em contraste com a nitidez das ruas quentes, casas e igrejas sob o céu claro da cidade.

Não é a literatura de Tiscoski que é cruel. Cruel é o homem que ocupa o centro de sua narrativa. É essa crueldade que o livro nos obriga a ver e que nos envergonha, ou deveria envergonhar a todos.

Em “Área de broca” o todo é um buraco imenso no qual vertiginosamente despencamos todos, primeiro a cabeça oca dos personagens masculinos que se encantam por vulvas no lugar de mulheres, que se aproximam de corpos sem querer saber nomes, histórias ou existências, preferindo rótulos. Esse vazio masculino é exposto sem anestesia. “Área de broca” nos empurra ao abismo. Cabe a nós, leitores, aprender a viver com os escombros da derradeira desconstrução a que somos chamados. Ao terminar a leitura de “Área de broca”, reverbera o desejo de que a fúria, a violência e a frieza dos homens cessem e deem lugar a vozes como a de Luciana Tiscoski.

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Luan Koroll é professor, escritor e músico. Licenciado em Letras – Português e Pedagogia. Mestre em Literatura e doutorando pela UFSC, publica poesia e crítica literária. É autor do livro de poesia Sobressalto (Viseu, 2025). Leciona como professor de Língua Portuguesa e Literatura, desde 2018, na rede estadual de Santa Catarina e no Colégio Marista São Luís. No teatro, escreve e atua em peças de formas animadas. Como músico, canta e toca em rodas de samba e choro e compõe canções da MPB.

 

TISCOSKI, Luciana. Área de broca. Florianópolis, SC: Editora Nave, 2021. 103 p.