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19/06/2021
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O veneno (ainda está) no prato

Quais as opções para uma alimentação sem agrotóxicos?

Em 2020 o Brasil bateu, pelo quinto ano consecutivo, o recorde de liberação de agrotóxicos, com 493 substâncias registradas. De 2000 a 2020, foram 4.051 venenos de uso agrícola liberados no país, de acordo com o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento 1. O Brasil também é considerado campeão mundial no uso de agrotóxicos e isso se reflete nos alimentos que levamos para casa.  

A mais recente edição do Programa Nacional de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) – pesquisa nacional feita em vegetais comercializados no varejo nas capitais brasileiras –, divulgada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), apresentou dados de 2017-2018. De acordo com esse estudo, em 51% dos alimentos analisados havia resíduos de agrotóxicos e, desses, 23% estavam em situação de irregularidade, quando é identificada substância proibida no Brasil (caso de agrotóxicos contrabandeados), substância encontrada em alimento no qual não está autorizada a sua aplicação ou limite de resíduos acima do permitido. Também foi identificado que em 2,9% dos casos de irregularidades havia mais de uma inconformidade. 

 Os sintomas são diversos: depressão, fraqueza muscular, insônia, alterações hormonais, infertilidade, malformações congênitas, aborto, câncer.

Desde 2019, nenhum resultado do Programa foi apresentado. Isso significa uma perda importante de dados sobre a produção agrícola no País e deixa os consumidores sem informações sobre o que ingerem a cada garfada. É importante saber que o consumo de alimentos com agrotóxicos pode levar à intoxicação crônica, resultado da ingestão dessas substâncias químicas por períodos prolongados. Os efeitos crônicos aparecem após meses ou anos de exposição a um ou a vários produtos tóxicos. Os sintomas são diversos como depressão, fraqueza muscular, insônia, alterações hormonais, infertilidade, malformações congênitas, aborto, câncer etc.  

Alternativas alimentares existem e estão, praticamente, em todas as cidades brasileiras: comida de verdade, produzida sem agrotóxico, sem fertilizantes químicos, comercializada em feiras e lojas de produtos orgânicos ou agroecológicos. E, ao contrário do que se pensa, esses produtos nem sempre são mais caros do que seus similares convencionais.  

Nas feiras da agricultura familiar, onde a comercialização é direta, sem atravessadores, pode-se encontrar alimentos frescos, produzidos localmente, e comumente com preços muito próximos aos comercializados nas feiras convencionais – às vezes até mais baratos. Um estudo realizado pelo Centro Sabiá mostrou que os produtos encontrados nas feiras agroecológicas do Recife em 2016 eram, em média, 19% mais baratos do que os convencionais ofertados nos mercados populares e 56% mais baratos que nos supermercados2 

O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) elaborou o Mapa das Feiras Orgânicas, que apresenta a localização e informações sobre mais de 490 pontos de comercialização de produtos orgânicos em todas as capitais brasileiras e muitas cidades do interior. O sistema online Agroecologia em Rede também identifica centenas de experiências em agroecologia, incluindo pontos de comercialização. 

Comer é também um ato político. Ao escolhermos alimentos agroecológicos cuidamos da nossa saúde, mas também ajudamos o desenvolvimento de sistemas de produção que promovam a saúde coletiva, a autonomia de agricultoras/es familiares e populações tradicionais, a conservação dos recursos naturais e a justiça social. 

1 https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/insumos-agropecuarios/insumos-agricolas/agrotoxicos/informacoes-tecnicas 

2 Artigo: A importância das feiras agroecológicas para as cidades (Por Davi Fantuzzi), disponível em: https://www.centrosabia.org.br/noticia/artigo-a-importancia-das-feiras-agroecologicas-para-as-cidades – Acesso em 25/02/2021. 

Viviane Brochardt  é jornalista, Doutora em Comunicação pela UnB, Pesquisadora em Direito à informação e sobre Agrotóxicos.

Flávia Londres é agrônoma, mestra em Práticas em Desenvolvimento Sustentável e autora, entre outros, do livro Agrotóxicos no Brasil: um guia para a ação em defesa da vida.

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