Parece haver uma relação de influência recíproca entre poesia e filosofia, muito embora nem sempre aceita por parte dessa última, cuja expressão mais geral é a própria experiência do pensamento em seu movimento criador. Enquanto constituintes da memória original do mundo e da realidade, como afirma Gerd Bornheim, poesia e filosofia se interpenetram, numa dialética que retroalimenta a ambas as formas de saber, ora predominando o teor racional da experiência vivida, ora a própria concretude que a experiência poética instaura através de sua linguagem.

Tal é o caso do poeta Mário Faustino com o filósofo Friedrich Nietzsche. Embora seja mais comum destacar a influência de outros autores, especialmente Ezra Pound e Jorge de Lima, na poesia faustiniana, existem diversas chaves de leitura que nos permite aproximá-la da filosofia nietzschiana, como sugerem Benedito Nunes em A poesia de Mário Faustino e Alfredo Bosi em História concisa da literatura brasileira. Especificamente no poema que dá título ao seu único livro publicado em vida, e com o qual nos ocuparemos aqui, O homem e sua hora, além de uma constelação de mitos dionisíacos, é a presença do niilismo como uma espécie de fio condutor do poema que denota essa influência de Nietzsche na poesia faustiniana.

Para Nietzsche, niilismo significa simplesmente “que os valores supremos desvalorizem-se”, valores cuja origem remete ao processo de avaliação moral da existência, iniciado com a dicotomia platônica verdade/aparência, culminando, no cristianismo, com a criação de Deus e de tais valores superiores, os quais negam a vida temporal e projetam o sentido da existência humana num mundo-além, verdadeiro, eterno e imutável. Com a radicalização do niilismo na modernidade, provocada pela constatação da “morte de Deus” enquanto doador de sentido ao mundo, instaura-se o espírito de incerteza, dúvida e hesitação diante do esgotamento e falta de sentido da existência humana.

Os primeiros versos d´O homem e sua hora já denotam esse estado de crise apontado por Nietzsche: “Que século, este século – que ano/Mais-que-bissexto, este/[…]Esta é outra estação, é quando os frutos/Apodrecem e com eles quem os come./Eis a quinta estação, quando um mês tomba,/O decimo-terceiro, o Mais-Que-Agosto,/Como este dia é mais que sexta-feira/E a Hora mais que sexta e roxa”. À semelhança do filósofo, o poeta também pressente o processo de esgotamento, de falta de sentido que se abate sobre espírito humano: “Tudo se acumula/Contra nós, no horizonte. As velas que ontem/acedemos ou brancas enfunamos/O vento apaga e empurra para o abismo/As cidades que erguemos, nós e nossos/Serenos ascendentes se arruínam/[..]Vê, em torno/de mesas tortas jogam meus sonâmbulos/meus líderes, meus deuses

Mais que o reconhecimento do “espírito” de uma determinada época, o poema expressa o próprio caráter processual do niilismo, tal como Nietzsche o compreende, apontando inclusive sua gênese platônico-cristã: “Eros defunto e desalado. Eros!/Eras tão ledo enquanto não pregava/No cume do obelisco de teu falo/Uma cruz, um talento de ouro, um preço,/Um prêmio, uma sanção… Desaba a noite,/A noite tomba, Iésus, e no céu/Da tarde, de onde os revoos de mil pombas/Soltas pelo desejo de teu reino.

A própria lógica do niilismo, marcado pela experiência histórica de esvaziamento dos horizontes de sentidos, comporta um transcurso e aponta para um acabamento. Essa completude do niilismo, que se desencadeia sob o signo da dissolução dos valores superiores, implica uma autoconsciência do ser humano sobre si e sobre a sua nova situação após a morte de Deus: “Todo este caos, Homem, para dizer-te/Não seres deus nem rei nem sol nem sino/Dos animais, das pedras – ou dizer-te/Ser débil cana o cetro que não podes/Quebrar, ser de ervas más o diadema/Que não podes cortar com teus cabelos!”.

Fenômeno ambíguo, na ótica nietzschiana, a completude do niilismo não ocorre somente como dissolução passiva, ele pode ser também um sinal de força, de intensificação do poder do espírito. Assim, a radicalização moderna do niilismo implica uma decisão: aceitar e experimentar este hóspede sinistro que é o niilismo em si mesmo, para poder esgotá-lo e ultrapassá-lo. É nesse sentido que o poeta, em consonância com a distinção nietzschiana entre niilismo passivo e niilismo ativo, nos apresenta duas alternativas possíveis: “E é aqui/A cruz onde o caminho se divide/Em dois atalhos: um para o Mosaico/Tártaro espesso, o outro para o lúcido/Heleno Elísio, nosso reino livre/E nosso verbo, nossa dança e chama”.

O poeta escolhe, obviamente, o caminho da afirmação da existência através de novas fontes de criação: “Aqui devo deixar-te, Herói. Retiro-me/Para uma ilha, Chipre, onde nascido/Outrora fui, onde erguerei não uma/Turris ebúrnea, torre inversa, torre/Subterrânea, defesa contra as pombas/Cobálticas, colombas de outro Espírito/[…]Pigmálio, talharei a nova estátua:/Estátua de marfim, cândida estátua,/Mulher primeira, fêmea de ar, de terra,/De água, de fogo”. Da mesma maneira que ocorre no niilismo ativo, em que o filósofo transforma esse fenômeno numa espécie de martelo que destrói ativamente, o poeta assume a tarefa de construir, sob o caos originário, um novo sentido à existência através desse instrumento quase divino que é a poesia: “Phanos, imagens de beleza, chagas/Na memória dos homens… pede a Hermes/Ideias que asas gerem nos tendões/Das palavras certeiras – logos, logos/Carregando de força os sons vazios – /Dá-lhe tu mesmo, Fabro, o mel, a voz/ Densa, eficaz, dourada, melopaica”.

Num mundo marcado pela experiência concreta de falência das grandes narrativas que mobilizaram a humanidade nos últimos séculos, a poesia de Mário Faustino e seus ecos nietzschianos nos ajuda na difícil, porém necessária, tarefa de assumir ativamente o niilismo como “a mais divina de todas as formas de pensar”, como condição para se chegar à suprema afirmação da existência, para além do sinistro e bárbaro tempo em que vivemos.

*José Elielton de Sousa é doutor em filosofia pela (PUCRS) e professor de filosofia da (UFPI)

(Publicado na Revestrés#29 – Fevereiro/Março 2017)