Bem que o jornalista e escritor Leandro Narloch¹ poderia escrever sobre os erros politicamente incorretos da História do Piauí, estado que não dá a devida importância à sua memória e cultura, vetores de identidade, evolução e perpetuação de um povo. Esse quadro se agravou a partir do momento em que o Ministério da Educação eliminou a História Regional das provas do ENEM, fazendo do reconhecimento das coisas do Piauí, que era crítico, um quesito quase sem visibilidade. Essa prática globaliza os estudantes, mas empobrece o ensino por não valorizar os assuntos que envolvem particularmente uma região, despreza a literatura considerada local, e isso acompanhado da redução da carga horária para o ensino da disciplina História.

O Piauí, capitania construída com a criação de gado, teve os seus primeiros textos sobre a sua História escrita por forasteiros. Nessa lista: Francisco Adolfo de Varnhagen, José Martins Pereira de Alencastre, e Francisco Augusto Pereira da Costa. É inegável a contribuição de todos, mas faltou a alma nativa e o cheiro da terra nesses livros. Contribuindo para que os piauienses não tenham conhecimento e interesse sobre o seu próprio chão, é o fato do Brasil ser país de não leitores e o Piauí não contar com grandes editoras que facilitem e dê brilho à produção local. Estados como Pernambuco e Minas Gerais de identidade supervalorizada contam com poderosas instituições culturais. Como exemplo, a Fundação Joaquim Nabuco do Recife, produtora dos discos Brasil 500 Anos, filmes encenados por fantoches de mamulengo, embalados por bela ciranda do Quinteto Armorial.

Neste contexto, páginas da História do Piauí são escritas com erros grosseiros, pesquisadas sob a luz de teorias de última hora, repassadas e consolidadas por professores descuidados. Alguns dizem que, em História não há verdade, e sim verdades, lembrando que a verdade não muda de acordo com a nossa capacidade de percebê-la. Devemos também reconhecer que, produzir textos e livros de História é complicado e dispendioso, e para isso, a alma é o tempero que traz o empenho para o pesquisador. Assim, não é sabido se o Piauí teve a prioridade de seu povoamento no Norte, ou no Sul, apesar de trabalhos como o do padre Cláudio Melo. A página da Independência que deveria ser de relevo para a História do estado é colocada em xeque em sites na web, justamente por contar com texto escrito sem a metodologia que esta ciência exige.

No caso da História da Independência se diz que Portugal queria conservar o Norte do Brasil como colônia – os portugueses se voltaram para a Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro, e para lá sim, enviaram generais e tropas lusitanas – para o Piauí, Portugal mandou o sargento Fidié sem tropas; que os parnaibanos fugiram depois de apressadamente proclamarem Dom Pedro I como Imperador do Brasil – os parnaibanos foram buscar no Ceará, recursos para o enfrentamento a Fidié que contava com os corpos militares do Piauí açodadamente organizados em Oeiras; que os parnaibanos agiram por impulso – já em 1817 o governador da província se queixava da adesão dos parnaibanos à Revolução de 1817 em Pernambuco; que a Batalha do Jenipapo ocorrida no 13 de Março de 1823 é a única sangrenta em prol da Independência – no Dicionário das Batalhas Brasileiras, se contam mais de sessenta; que roceiros e vaqueiros enfrentaram Fidié – até março de 1823 já tinham entrado no Piauí milhares de cearenses que na Batalha do Jenipapo foram comandados pelo capitão também cearense Luís Rodrigues Chaves auxiliado pela Cavalaria de Parnaíba e tropas arregimentadas além-serra que chegaram comandadas pelos parnaibanos Leonardo de Carvalho Castelo Branco e José Francisco de Miranda Osório, e outros; que a Batalha do Jenipapo é a batalha da consolidação da unidade nacional – depois desse desastre que ceifou vidas brasileiras, Fidié e seus soldados piauienses atravessaram o Parnaíba, e depois de grandes combates, somente assinaram capitulação a 1º de agosto de 1823, em Caxias, onde a Independência do Brasil foi defendida por tropas cearenses comandadas pelo pernambucano João da Costa Alecrim. Depois de toda refrega, a terra do boi teve que pagar muitos mil réis pelo apoio cearense.

O Piauí não merece tanto descaso com a sua História. É vergonhoso ver o discurso de autoridades, professores, que repetem o que foi escrito sem apuro. Um piauiense que lutou pela Independência do Brasil escreveu a primeira letra do Hino Nacional. Quantos piauienses e brasileiros sabem disso?

¹Leandro Narloch é jornalista e escritor paranaense autor de Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, e outros Guias.

*Diderot Mavignier é historiador e escritor parnaibano, autor dos livros “A Maçonaria e a História da Independência no Piauhy”; “No Piauhy, na terra dos Tremembés” e “Conhecendo História & Geografia do Piauí”.

(Publicado na Revestrés#23 – dezembro de 2015/janeiro de 2016)