Piranhão, o festival de cinema de nome engraçado (numa alusão a Piauí e Maranhão), teve uma mostra atualizada do que se produz em audiovisual na região, a exibição histórica de filmes piauienses produzidos em super-8 na década de 1970 e deixou uma questão em discussão: os editais de cultura estão dando conta, de modo justo, da produção cultural? Em geral, o tema não tem sido debatido publicamente por produtores de cultura e imprensa. Por outro lado, nas coxias culturais, tem sido assunto recorrente.

III Mostra Piranhão de Cinema, no MIS, em Teresina: o Piauí tem “cinemas”

Na III Mostra Piranhão de Cinema o tema ganhou espaço na mesa “Políticas Públicas para o Setor do Audiovisual”, na qual tomei parte, ao lado dos produtores de audiovisual Keyti Souza e Augusto Santiago, e de Augusto César, da PREX-UFPI (Universidade Federal do Piauí). Em nossas falas, uma questão convergente: é preciso pensar em continuidade para as produções culturais. Mas como pensar em continuidade quando o financiamento à produção de cultura tem ocorrido, principalmente, de forma pontual, por meio de editais? As considerações que partilho aqui têm como fundamento reflexões advindas da economia política crítica do jornalismo, da comunicação e da cultura, e as relações de poder que, muitas vezes, finge-se não existirem.

A Mostra Piranhão 2025 aconteceu de 7 a 9 de novembro no Museu da Imagem e do Som de Teresina (MIS), que cedeu espaço aos realizadores – grupo de amigos produtores de audiovisual, em grande parte egressos do curso de Jornalismo da UFPI, reunidos em torno da produtora Cocais Filmes. A terceira edição poderia ser um indicativo do sucesso da iniciativa, mas torna-se, também, um exemplo da armadilha a que podem conduzir os editais. Ela aconteceu sem qualquer apoio de edital ou financiamento. Foi realizada com boa vontade, trabalho voluntário e as colaborações que conseguiram obter – que raramente chegam a aportes financeiros. Isso nos coloca de frente com a questão das políticas públicas e da continuidade das produções culturais. A permanência – ou a falta dela – inquieta não só produtores do audiovisual, mas das diversas áreas da cultura.

Os editais ganharam nova dimensão pós pandemia de Covid-19 e pós governo desastroso de Bolsonaro, inimigo manifesto da cultura. Naquele momento, foram uma solução para se enfrentar um contexto dramático. Agora, eles precisam ser discutidos em seus resultados e caminhos possíveis (em tempos de negacionismos e ataques a cultura, é importante registrar: essa não é uma fala contra os editais, mas a favor de uma avaliação crítica que pode levar, inclusive, à sua ampliação).

A capacidade de recuperação do segmento cultural pode ser atestada pela diversidade de eventos que temos visto florescer. Ela também está – para ficar na área de interesse da Mostra Piranhão – na quantidade de filmes que têm sido produzidos, com as mais diversas linguagens, formatos e vindos dos mais diferentes locais. Sim, nós temos cinema! Melhor: nós temos “cinemas”.

A Piranhão, que já vinha apresentando uma seleção diversa de filmes produzidos especialmente no Piauí e Maranhão, alargou a fronteira e recebeu também produções de outros locais das regiões Nordeste e Norte do Brasil. São filmes que, em geral, estão ausentes dos circuitos mais badalados, mas que encontram nesse tipo de exibição a oportunidade para discutir linguagens, reconhecer pares, descobrir parcerias e tentar encontrar públicos. A Mostra Piranhão, por exemplo, faz parcerias que permitem a disponibilidade dos filmes em plataformas alternativas aos grandes circuitos (ainda que utilizando as plataformas digitais das big techs, o que nos leva à discussão do quão seriam alternativas. Mas isso é pauta para outro texto).

Os gestores culturais, quando têm marcado presença nos eventos, escolhem os de maior público. Ou fazem uma rápida passagem, em geral acompanhados de um videomaker que garanta boas imagens para as redes sociais digitais. Qual a última vez (e talvez a primeira) que você viu um gestor cultural sentar e acompanhar um espetáculo ou uma discussão cultural?

Foi curioso – e histórico – que, nesta edição, a Piranhão tenha exibido filmes piauienses produzidos em super-8 na década de 1970. As produções, reunidas sob o título “Cinema Marginal Piauiense”, foram recuperados pela Cinelimite, organização sem fins lucrativos com sede em São Paulo, dedicada à exibição, digitalização e distribuição do chamado cinema brasileiro de repertório – uma vasta coleção de filmes nacionais que funcionam como fontes de conhecimento sociocultural, histórico e crítico, ajudando a refletir uma identidade nacional. Entre as iniciativas da Cinelimite está a pesquisa e recuperação de materiais filmados em décadas anteriores em todos os estados brasileiros, utilizando diferentes recursos, como o caso do Super-8.

“Festa Junina no Hospital Areolino de Abreu” (1973), por Edmar Oliveira, estudante de medicina e plantonista: um documento do surpreendente caráter festivo e a dureza de práticas psiquiátricas da época.

No Piauí, até agora, foram recuperados 18 curtas-metragens produzidos por uma turma que experimentou o audiovisual permitido pela então nova tecnologia doméstica da Kodak, longe dos grandes estúdios. Fala-se que a produção piauiense é muito maior e é possível que se chegue a 90 filmes recuperados. Entre os produtores de super-8 no Piauí estão artistas, jornalistas, cineastas e agitadores culturais, influenciados pela Tropicália e pelo cinema marginal brasileiro. Registram-se nomes como Torquato Neto, Arnaldo Albuquerque, Antônio Noronha, Edmar Oliveira, Carlos Galvão, Durvalino Couto, Dogno Içaiano, Xico Pereira, Lindemberg Pirajá e muitos outros, revelando uma produção intensa. Entre os trabalhos há preciosidades, como “Festa Junina no Hospital Areolino de Abreu” (1973), filmado por Edmar Oliveira quando era estudante de medicina e plantonista no Hospital Psiquiátrico Areolino de Abreu, em Teresina. Se o filme abre mão de um roteiro formal, por outro lado, em 13 minutos, documenta uma época, acompanhando uma festa junina dentro de um hospital psiquiátrico e revelando tanto um surpreendente caráter festivo quanto a dureza de práticas médicas da época.

Ter acesso a esses filmes, desconhecidos para a maioria dos piauienses, além de tudo, mostra que os jovens produtores de cinema do Piauí, ainda quando não o saibam, não fazem algo que surgiu “do nada”, mas podem (re)conhecer todo um trabalho anterior, de pessoas que experimentaram e produziram, testando linguagens e reinventando enredos locais. E mais: muitos destes produtores estão por aqui, podendo dialogar com as novas gerações. Continuar a ignorar esse passado seria, sim, uma perda sem recuperação.

Somente pela seleção de filmes atuais e diversos e pela exibição dos super-8 dos anos 1970 – mostrando que o Piauí hoje, como ontem, produz filmes -, a Mostra Piranhão já seria valiosa. Mas ela também foi cuidadosa no material de divulgação e sinalização. E deu um passo a mais: abriu espaço para discutir as políticas públicas para a cultura. Realizada num domingo pela manhã, a atividade não atraiu muitos interessados – diferente das exibições dos filmes. Os organizadores afirmaram que gestores culturais e responsáveis pelas instituições de cultura do município e do estado foram convidados à discussão. Mas estes não comparecerem. A produtora Keyti Souza foi precisa: “A gente fala muito em formar público, mas precisamos falar em formar gestores de cultura”.

É bom que se diga que estes, quando têm marcado presença nos eventos culturais, escolhem os de maior público. Ou fazem uma rápida passagem, apenas de registro, em geral acompanhados de um videomaker que garanta boas imagens para as redes sociais digitais. Qual a última vez (e talvez a primeira) que você viu um gestor cultural sentar e acompanhar um espetáculo ou uma discussão cultural?

Editais de cultura têm se convertido em forma de desresponsabilizar o Estado de suas funções e transferir enormes responsabilidades aos artistas, produtores, criadores. Estes estão saindo da posição de artistas, produtores culturais, jornalistas de cultura, para empreendedores, administradores, gestores de um mercado instável, em momento de grandes mudanças.

Se quisermos sair do modelo “vai fazendo”, como fizeram nossos amigos do super-8 nos anos 1970, precisamos pensar criticamente sobre tudo isso. E um ponto inicial é que as políticas públicas para a cultura precisam ser encaradas de modo abrangente, envolvendo toda a “cena”. Ou seja: os recursos não podem ficar restritos – como hoje – a se produzir “um filme”, “uma música”, “um clipe”, “um livro” – inclusive sem remunerar a maioria dos artistas e produtores envolvidos, uma vez que os recursos se esgotam no “produto”.

Além disso, esses recursos devem também ultrapassar a produção e se entender a toda a cadeia produtiva que vai fazer com que aquele trabalho cultural chegue às pessoas. Isso vai incluir, por exemplo, distribuição e divulgação – áreas essenciais -, geralmente ausentes dos editais, como se distribuir e comunicar não fizessem parte da produção de arte. Sem ter como distribuir e como comunicar, o artista para na produção. E, em grande parte dos casos, para na produção pontual, esporádica.

Saudados como saída de emergência, os editais de cultura têm se convertido em uma forma de desresponsabilizar o Estado de suas funções e transferir enormes responsabilidades aos artistas, produtores, criadores. Estes, por sua vez, estão saindo da posição de artistas, produtores culturais, jornalistas de cultura, para empreendedores, administradores, gestores de um mercado instável, em momento de grandes mudanças e com recursos disputados.

Artistas e produtores de cultura, por seu lado, têm aceitado o desmaio do Estado, como se toda a responsabilidade que coubesse a este fosse simplesmente lançar os tais editais. Por medo de reclamar ou na esperança de ganhar o próximo recurso, evitam o conflito. Enquanto isso, com alguma frequência, brigam entre si.

O geógrafo e jornalista Milton Santos, ao observar o comportamento do Estado frente ao neoliberalismo, falou sobre um “desmaio do Estado”, quando este abre mão de seu papel de mediador social. E, propositadamente enfraquecido, reorienta suas ações para funções gerenciais e de apoio ao mercado, enquanto disfarça-se de organizador neutro e distante. Ou finge-se de morto.

Os artistas e produtores de cultura, por seu lado, têm aceitado o desmaio do Estado, como se toda a responsabilidade que coubesse a este fosse simplesmente lançar os tais editais. Por medo de reclamar ou na esperança de ganhar o próximo recurso, os artistas evitam o conflito. Enquanto isso, com alguma frequência, brigam entre si. Isso fica evidente em resultados de edital divulgados, quando ganhadores são quase “denunciados” pelos que ficaram de fora. Nestes tempos, as avalições críticas mais sérias também têm ficado subsumidas. Ou por receio de se fazer coro aos negacionistas da cultura ou porque são reclamações feitas de modo genérico e à voz miúda – miúda o suficiente para não serem ouvidas pelo mesmo Estado, que pode excluí-los de um próximo benefício.

Aos artistas, ainda tem se cobrado outra tarefa: que aprendam tudo do universo burocrático dos editais. O tempo que dedicariam aos afazeres artísticos deve ser dividido, também, com a habilidade de saber fazer um “bom” projeto e de cair em campo à cata dos recursos dos patrocinadores – muitas vezes em condições desiguais. Se a isso se recusarem, podem receber a pecha de incompetentes e desarticulados. Quase que se ouve: “quem não sabe ganhar edital não merece ser artista”.

E a imprensa? Esta também está desmaiada. O jornalismo cultural tem ficado longe das discussões de questões importantes e tem se dedicado a artistas de maior público ou patrocinados pelos mesmo anunciantes que interessam aos veículos. Ou, ainda, reproduzido os releases já prontinhos, sem conflitos, sem estresse nem trabalho a mais. E também sem jornalismo.

E reclamar na imprensa? Esta também está desmaiada, talvez com receio de perder financiamentos num tempo em que os anunciantes estão mais raros. O jornalismo cultural tem ficado longe das discussões de questões importantes e tem se dedicado a artistas de maior público ou patrocinados pelos mesmo anunciantes que interessam aos veículos. Ou, ainda, reproduzido os releases já prontinhos, sem conflitos, sem estresse nem trabalho a mais. E também sem jornalismo.

Discutir criticamente todos esses pontos é começar a vislumbrar caminhos que, de fato, contribuam com a produção cultural, com a cultura, com os artistas, com o jornalismo de cultura, com a formação, com a educação – enfim, com a sociedade, afinal cultura não é algo decorativo, mas é constitutiva de quem somos, fazemos e como estamos no mundo.

Para que a cultura seja pensada em termos de permanência, é importante ainda que se diga que produção cultural não é sinônimo de público garantido e nem sempre fornece a imagem mais instagramável aos gestores de cultura.

Permanência em cultura é a possibilidade de aprimorar o que se faz. E sem distribuição e sem conhecimento sobre o que se faz, não se tem cena cultural. E, sem cena cultural corre-se o risco do eterno amadorismo.

Para a beleza e grandeza desse desafio, artistas e jornalistas desmaiados não vão acordar o Estado de seu desmaio conveniente.

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Samária Andrade é jornalista, Doutora em Comunicação pela UnB, professora do PPGCOM UFPI (Universidade Federal do Piauí) e da Graduação em Jornalismo na UESPI (Universidade Estadual do Piauí). É Coordenadora do grupo de pesquisa Trampo – Trabalho e mídia: teoria e práxis noticiosa (UESPI/CNPq) e membro do Grupo de Pesquisa COMUM (UFPI/CNPq).