“A verdade é que poesia é inútil”. Assim diz Gregório Duvivier, ainda nos primeiros minutos do seu monólogo “O céu da Língua”. “Nunca estive em um avião em que alguém se levantou e disse: tem algum poeta nesse voo?”, e a plateia – que perdeu o acento no ditongo no último acordo ortográfico – ri, pensando se as palavras são mesmo imprescindíveis para sobreviver.

Gregório em cena no espetáculo: “As metáforas estão onipresentes” (Foto: Annelize Tozetto)

O espetáculo, que está rodando o Nordeste e passou por Teresina nos dias 20 e 21 de julho, teve apresentações lotadas no Brasil e no exterior. Conquistou importantes prêmios (Bibi Ferreira, de Melhor Ator em 2025; Prêmio do Humor, RJ 2026) e já foi visto por mais de 300 mil espectadores: provando que tem mais gente se importando com poesia do que supomos. 

Gregório é ator e escritor da peça, cujo texto escreveu com Luciana Paes, que também dirige o espetáculo. Ele costuma ser descrito pelos amigos e quem o conhece de perto como “gênio”. É um dos expoentes da geração que rompeu o monopólio da TV e das formas mais tradicionais de se comunicar e expandiu com empreitadas como o Porta dos Fundos, o Greg News e seu mais recente projeto nos streamings, comentando política com crítica afiada, o Calma Urgente.

“O Céu da Língua”: mais de 300 espectadores no teatro. (Foto: Annelize Tozetto)

Mas aqui o escritor se preocupa com outra coisa: ou melhor, com os nomes que damos para as coisas. Motivado em explorar como surgem as palavras e a nossa relação com a linguagem, Gregório olha para a forma como falamos com um ar de antropólogo e, com humor inteligente e a propriedade de quem formou-se em Letras, vale dizer, faz quem assiste ouvir a própria língua de uma forma diferente.

“A gente tá o tempo todo usando a linguagem no sentido figurado, e eu acho que a poesia é você brincar com as palavras como faz uma criança”

Antes de subir no palco para a segunda noite de apresentação em Teresina, Gregório conversou com Revestrés – palavra que não conhecia e adorou – sobre seu amor pelo teatro, a relação entre humor e poesia e, ainda, sua origem familiar no Piauí. Um papo – e uma peça – para recuperar o poeta que existe em cada um de nós.

Luana Sena: Prêmio Bibi Ferreira de Melhor Ator, Prêmio de Humor RJ, indicação ao 20º Prêmio APTR de Teatro… Afinal de contas, por que você escreveu essa peça? O que você queria com “O Céu da Língua”?

Gregório Duvivier: Eu acho que ela nasce dessa vontade de falar de poesia para muita gente. A poesia ficou restrita a pequenos círculos, infelizmente, quando ela, na verdade, tem uma vocação popular. E qual a maneira de popularizá-la? Acho que é o humor. O humor vai muito bem junto com a poesia, eles são meio parecidos. Os dois nascem do mesmo espanto. Emprestar um pouco de leveza para a poesia, não se levar tão a sério é muito bom, e o contrário também. Pro humorista é muito bom, às vezes, ter um pouco de poesia pra não ficar só na crítica, só no cinismo, que é um grande perigo do humor, do palhaço. A poesia, o lirismo, sobretudo, impede o palhaço de ser completamente cínico. Eu sempre gostei dos palhaços líricos… Chaplin, no Brasil mesmo a gente tem exemplos recentes como Pedro Cardoso, que eu acho um palhaço lírico, com sentimento. Sempre gostei de fazer humor com poesia e poesia com humor. Então, a peça vem da vontade de celebrar e conectar esses dois universos.

Gregório Durvivier, autor e ator da peça “O Céu da Língua” (Foto: Annelize Tozetto)

Luana Sena: Você já entra em cena zombando da inutilidade da poesia, mas já são mais de 300 mil pessoas indo ao teatro assistir um espetáculo sobre isso… É muita gente se importando com a poesia, não? 

Gregório Duvivier: Acho que as pessoas estão loucas para se conectar com a poesia perdida. Porque todo mundo foi poeta, seja literalmente, escrevendo poesia na adolescência, nas agendas, nos cadernos, seja antes disso, na infância, brincando com as palavras. Toda criança aprendeu a falar brincando com as palavras. O aprendizado do verbo é sempre lúdico, é sempre experimental. A criança inventa palavras, ela é poeta sem querer. Ela brinca com os significados e os significantes. Todo mundo que tem filho sabe disso. E aí a gente vai crescendo, e vai deixando de ser poeta. O espectador gosta de encontrar, na peça, a poesia que ele mesmo tem na ponta da língua. Tá lá! A gente é poeta! O título da peça remete a isso: “O céu da língua”, que remete ao “céu da boca”, olha que expressão linda! A gente usa e não percebe que ela é uma metáfora, e as metáforas estão onipresentes, no nosso dia-a-dia. Quando as pessoas falam “No coração do bairro Jockey”, ou “Larga do meu pé”. A gente tá o tempo todo usando a linguagem no sentido figurado, e acho que a poesia é você brincar com as palavras como faz uma criança. A peça lembra o espectador de que ele tem um poeta guardado. Fico super feliz de ver que as pessoas saem da peça se redescobrindo poetas, e voltam a ler, a produzir, a fazer as pazes com a poesia.

Luana Sena: E o que você acha que fez a gente se desconectar disso?

Gregório Duvivier: O tempo. A poesia, ao contrário das outras artes, não consegue ser ambiente. É perfeitamente possível você ter um quadro ali no saguão do hotel, que você não enxerga, não presta atenção. Uma música também, ela sabe ficar ali no fundo. A poesia não, ela precisa de atenção. E mais do que isso: ela precisa de um olhar poético. O poema só se completa com o olhar do leitor. Ela precisa, inclusive, de um certo esforço do leitor. Porque a prosa você ainda consegue ler de forma um pouco mais distraída, como quem lê pra se entreter, pra se distrair, não precisa tanto da boa vontade do leitor. Ela pode pegá-lo pela curiosidade, pela fofoca, pela história. E a poesia não. Ela precisa de um olhar ativo, da vontade de escutar poesia. Por isso que é tão chato, até falo isso na peça, quando a poesia entra torta: “Posso falar um poema? Hmm, ai, já?” Dá preguiça. Porque a gente tem uma preguiça mesmo pra poesia, e acho que tem a ver com isso. 

“A poesia, ao contrário das outras artes, não consegue ser ambiente. Ela precisa de atenção. E mais do que isso: ela precisa de um olhar poético. O poema só se completa com o olhar do leitor”

“As pessoas estão loucas para se conectar com a poesia perdida” (Foto: Priscila Prade)

Luana Sena: A gente vem ver o espetáculo imaginando que, claro, vai ser sobre a nossa língua, sobre gramática, etimologia… Mas quando chega aqui é filosófico, emocionante, engraçado. E político, também. Como isso tudo se combina? Que relações você faz entre linguagem, política e humor?

Gregório Duvivier: Eu acho que a política tá onipresente, nós somos animais políticos. Mas nessa peça tento não ser explicitamente político. Um pouco porque a poesia consegue furar bolhas, como o humor. E algo que tô sentindo nessa peça é que, graças à poesia e ao humor, consigo atingir um público que muitas vezes não é o meu. Não é o público do Greg News, não é o público do Porta… É um público que gosta de Língua Portuguesa, gosta de poesia, e muitas vezes não é necessariamente do mesmo campo político que eu. Isso é algo muito bom da peça: ela consegue furar essas bolhas. Gosto de misturar gêneros. Não gosto muito de uma peça puro-sangue, sabe? Tipo stand-up, quando ele é muito clássico me cansa. E o contrário também: um poeta que se leva muito a sério, declamando, também me cansa um pouco. Eu gosto dessas misturas de gêneros, dessas esquinas. 

“Stand-up, quando é muito clássico, me cansa. E o contrário também: um poeta que se leva muito a sério, declamando, também me cansa. Eu gosto dessas misturas de gêneros, dessas esquinas”

Luana Sena: E dá certo porque você se expressa bem em múltiplas plataformas e múltiplas linguagens: escreve, atua, no vídeo, no palco… Mas tem alguma preferida? 

Gregório Duvivier: O palco é a parte mais gostosa da profissão, com certeza. Essa troca que acontece, ao vivo. Porque as outras atividades não são ao vivo. Quando escrevo, escrevo pra alguém ler, lá na frente, em outro momento. A escrita é um pouco mais solitária. O teatro é uma arte do presente. Ele é uma festa. É um dos poucos momentos no mundo em que tá todo mundo junto no mesmo lugar e ao mesmo tempo. Porque hoje em dia, às vezes tá todo mundo junto, mas cada um no seu celular, cada um vendo uma realidade. No teatro não. Inclusive deixo bem claro antes da peça e peço muito que desliguem os celulares. Nada importante vai acontecer lá fora. O que eu mais gosto do teatro é isso: hoje em dia é um dos poucos espaços que não são regidos pelo algoritmo, uma das poucas narrativas compartilhadas no mundo. 

Gregório: “O teatro é a arte do presente”. (Foto: Priscila Prade)

“O teatro é uma arte do presente. Ele é uma festa. É um dos poucos momentos no mundo em que tá todo mundo junto no mesmo lugar e ao mesmo tempo”

Luana Sena: O Nordeste tem um dialeto muito próprio, uma linguagem bem particular. Como está sendo fazer a turnê de ônibus por essa região? O ônibus faz a experiência ser diferente?

Gregório Duvivier: Muito! Tem o ônibus do “Aviões do forró”, nós somos os “Camões do forró” (risos). Viajar pelo Nordeste de ônibus muda a experiência. Porque a gente tá vendo agora muito claramente a diversidade, você fica muito emprenhado. De repente, quando eu vejo, tô no interior do Maranhão, numa cidade chamada Km-17, olha isso! E aí vem um cara e começa a cantar pra gente uma moda de viola que ele fez. A viagem de ônibus possibilita essa imersão que é muito gostosa. E também a coisa de ser linear, porque geralmente a gente fica muito em avião e fica meio perdido. Aqui tá mais claro, tem um desenho no mapa e a gente vai descendo e vendo as mudanças, geográficas, de biomas, só ficar vendo da janela do ônibus já é um barato.

Equipe da peça viaja pelo Nordeste de ônibus (Foto: Captura de internet)

Luana Sena: Você contou no final da apresentação de ontem que seu tataravô era piauiense, da cidade de Barras. O que você sabe dessa sua origem e o que conhecia do Piauí?

Gregório Duvivier: Eu já tinha ido a Parnaíba, Barra Grande e Barrinha, e achado um dos lugares mais bonitos do mundo. Me apaixonei por essas praias deliciosas, de vento constante. Mas nunca tinha passado por Teresina na vida. Conhecia só o Norte do estado, o litoral. E conhecia a poesia de Torquato Neto, sempre fui fã. Um gênio que partiu tão cedo. Imagina o quanto ele não teria escrito mais? E conhecia, claro, essa história familiar. Minha avó adorava esse avô dela, tanto é que meu nome é Gregório por causa dele. Gregório Thaumaturgo de Azevedo. Todo militar é problemático, eu não vou cultuá-lo. Mas ele era militar de uma época onde os militares eram indigenistas, então minha avó dizia que ele falava várias línguas indígenas, era um cara apaixonado pela cultura brasileira e pelo Brasil. Foi governador no Piauí, depois do Amazonas, rodou o país inteiro e voltava pro Rio, onde morava a minha avó, e contava as histórias pra ela. Era um tipo de militar que não existe mais hoje. 

Luana Sena: Pra fechar: que palavra você gostaria que deixasse de existir e qual acha que ainda falta inventar?

Gregório Duvivier: Gostaria que deixassem de existir essas palavras meio técnicas para comida. Proteína, sabe? Carboidrato. E sinto falta de uma palavra para dedo do pé. A gente tem que falar “dedo do pé” (diz pausadamente), olha que tristeza. Sabe que existe uma palavra pro dedão, que é hálux? Só que não tem cara de dedão, e por isso ninguém usa. Uma palavra horrível.