Depois de décadas de violência simbólica, disciplinamento institucional, precarização estrutural e exploração pelo mercado educacional privado, a Carteira Nacional Docente inaugura um gesto de ruptura. Agora é hora de falar em isenção de impostos, recomposição salarial e reparação histórica.

Pergunte a qualquer professor o que é mais urgente hoje. A resposta virá rápida: salário digno, carreira reestruturada, reajustes atrasados, condições reais de trabalho. Mas existe algo ainda mais profundo, quase sempre ignorado: a dignidade roubada. Não é metáfora. É processo histórico. É violência. A docência, que deveria ser a profissão mais respeitada da sociedade, foi sendo empurrada para a base da hierarquia social, como se ensinar fosse um “bico”, uma ocupação menor, uma tarefa que qualquer um pode fazer.

A docência, que deveria ser a profissão mais respeitada da sociedade, foi sendo empurrada para a base da hierarquia social, como se ensinar fosse um “bico”, uma ocupação menor, uma tarefa que qualquer um pode fazer.

Durante anos, a escola se tornou um território de sobrevivência, e não de formação. Salas superlotadas, salários vergonhosos, bolsas de pesquisa que insultam a inteligência, violência física e simbólica cotidianas, desconfiança das famílias, burocracias que sufocam, governos que tratam professores como problema e não como solução.

E, nesse mesmo período, o mercado das escolas privadas avançou com voracidade, empurrando milhares de professores para contratos instáveis, jornadas exaustivas e remunerações fragmentadas. A migração forçada para o setor privado, muitas vezes a única alternativa diante do achatamento da carreira pública, produziu um cenário perverso: professores sobrecarregados com 40, 50, 60 horas semanais, correndo de uma instituição para outra, sem tempo para planejar, estudar, respirar.

A lógica empresarial, focada na eficiência financeira e não na formação humana, precarizou o ensino e devastou a saúde docente. O estudante também perdeu: aulas apressadas, vínculos pedagógicos fragilizados, alta rotatividade, formação rasa, ensino esvaziado de sentido. Quando o professor vira peça de reposição barata, o aluno vira consumidor, e a educação deixa de ser processo para virar produto.

Nada disso é acidente. Nada disso é “tendência”. É o efeito direto de uma disputa desigual entre Estado ineficiente, mercado voraz e uma categoria profissional mantida à base do sacrifício.

Bourdieu explicou com precisão cirúrgica o mecanismo que sustentou essa degradação: a violência simbólica, essa que “transforma as relações de força fazendo ignorar-reconhecer a violência que elas encerram objetivamente”. É exatamente isso que fizeram comigo, com você, enfim, conosco, naturalizaram nossa humilhação, transformaram o desprestígio em rotina, modelaram a docência como se fosse destino e não construção política.

Michel Foucault, em seu livro Vigiar e Punir, mostra como instituições podem produzir corpos dóceis, subjetividades controladas, identidades esvaziadas de autonomia. A docência brasileira foi submetida a esse processo: controle, vigilância, burocratização, cobranças desproporcionais e a constante sensação de estar sempre “devendo”. Não foi apenas desvalorização: foi disciplinamento. Foi engenharia social. Foi violência.

Por isso, quando recebi minha Carteira Nacional Docente das mãos do ministro, alguém perguntou: “Não era melhor pedir aumento antes da carteira?”. A pergunta não entendia o essencial: nenhuma política pública se sustenta sem capital simbólico. Sim, eu quero aumento. Quero progressões. Quero as diferenças que nos devem. Quero recomposição das perdas e respeito financeiro.

Quando o professor vira peça de reposição barata, o aluno vira consumidor, e a educação deixa de ser processo para virar produto. Esse é o efeito direto de uma disputa desigual entre Estado ineficiente, mercado voraz e uma categoria profissional mantida à base do sacrifício.

Mas antes de qualquer centavo, eu queria, e quero, aquilo que tentaram arrancar por décadas: a minha dignidade profissional.

A CNDB (Carteira Nacional Docente do Brasil) não substitui salário. Não resolve a precarização histórica. Não fará, sozinha, o país respeitar seus professores. Mas é o primeiro gesto de reconhecimento estatal depois de anos de apagamento. É o Estado dizendo: “eu sei quem você é”. É o início de uma reparação simbólica necessária num país que aprendeu a ridicularizar o professor.

Sim, eu fiquei feliz com minha carteira.
Sim, carrego com orgulho.
Sim, mesmo com a conta negativa.

A Carteira Nacional Docente não substitui salário. Não resolve a precarização histórica. Não fará, sozinha, o país respeitar seus professores. Mas é o primeiro gesto de reconhecimento estatal depois de anos de apagamento. É o início de uma reparação simbólica num país que aprendeu a ridicularizar o professor.

Porque dignidade simbólica não paga boleto, mas é ela que abre a porta para reconstruir tudo o que nos deve ser devolvido.

É preciso entender: nenhum país se levanta desprezando quem o ensina. Nenhuma democracia se sustenta sem quem forma os cidadãos. Nenhuma economia cresce sem quem forma os trabalhadores. Honrar o professor não é ornamento, é fundação. É alicerce. É estratégia de sobrevivência nacional.

E agora que o gesto simbólico foi feito, é hora do gesto estrutural. Podemos discutir a isenção de impostos para professores e a recomposição salarial. Com nossa carteira à mão, dignidade de volta, estamos de volta às aulas. Afinal, temos muito o que ensinar.

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Jacqueline Lima Dourado é jornalista, professora de Jornalismo da Universidade Federal do Piauí e docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, PPGCOM-UFPI. É doutora e pós-doutora em Comunicação, líder do Grupo de Pesquisa em Comunicação, Economia Política e Diversidade, COMUM-UFPI/CNPq. Atua como Coordenadora de Comunicação do CIATEN e como Superintendente de Comunicação da Universidade Federal do Piauí.